12 Anos de Escravidão: liberdade ainda que tardia

Com nove indicações ao Oscar:

Melhor Filme, Diretor (Steve McQueen), Ator (Chiwetel Ejiofor), Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong’o), Roteiro Adaptado (John Ridley), Figurino, Montagem, Design de Produção.

Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
(Mateus 22:39, Bíblia)

“12 anos de escravidão” foi baseado na autobiografia de Solomon Northup (interpretado por Chiwetel Ejiofor), publicada em 1853. Solomon era um cidadão de Nova Iorque que nasceu livre e que vivia em uma situação relativamente confortável com sua família até cair em um embuste em 1841 e ser sequestrado em Washington (capital dos EUA). Depois disso, foi vendido como escravo em Louisiana, local aonde a escravidão ainda era permitida. A história relatada, então, acompanha alguns dos momentos de sua vida nos 12 anos que “sobreviveu” sendo propriedade de fazendeiros no Sul do país.

 

 

Há alguns fatos históricos que são complexos demais para serem assimilados sem um dado contexto, especialmente porque a linha temporal contribui no estabelecimento de uma estranha distância emocional, fazendo com que aquilo que se vivencia no cinema seja esquecido ou atenuado tão logo se saia da sala de projeção, já que parece se tratar de fatos dissociados da nossa época ou da nossa realidade. Assim o que foi visto passa a ter uma conexão fantasiosa, como se fosse mais uma história imaginada por alguém, sem qualquer vínculo com a realidade.

Acredito que o grande mérito desse filme, sob a direção exemplar do inglês Steve McQueen, é nos aproximar dos personagens mostrados na tela e nos fazer pensar sobre as consequências de determinados fatos históricos. Isso porque cada época carrega consigo, cultural e historicamente, uma série de variáveis que afeta de forma profunda sua dinâmica atual, logo refletir sobre isso parece ser extremamente relevante quando tentamos entender a dinâmica de um povo ou de uma comunidade.

 

 

Em imagens que mostram a imensidão do mar em um duro contraste com as amarras que encarceram os homens nos navios, vimos através do olhar de Solomon a diferença perturbadora entre viver como um ser humano e ser tratado como uma coisa. E enquanto alguns dos homens e mulheres que ali estavam nunca tinham sido livres, logo a liberdade era apenas um conceito abstrato e distante, para ele era um absurdo imaginar que seria propriedade de alguém. Ao mesmo tempo em que ele se achava diferente daquelas pessoas por ser livre, sua expressão mostrava um espanto aterrador ao entender que essa pretensa liberdade vivenciada por ele até então era fantasiosa enquanto outros homens permanecessem escravos.

 

 

Em Louisiana, Solomon foi vendido, juntamente com outra escrava, a um fazendeiro local, William Ford (Benedict Cumberbatch).  Ford, no momento da compra, ficou sensibilizado ao separar mãe e filhos, mas ao pensar em sua propriedade e em suas dívidas, mesmo aparentemente compadecido, tomou a decisão mais lógica (para ele): levou Solomon e a jovem mãe (mesmo que esta gritasse em desespero pelos filhos).

 

 

Lá, em sua fazenda, Ford reunia negros e brancos para que estes o acompanhassem na pregação da palavra de Deus. E enquanto a mãe escrava chorava a falta de seus filhos, a esposa de Ford dizia: “logo ela esquece”, já que memória, dor e sentimentos são prerrogativas dos seres humanos, não de escravos. Ou seja, os escravos podiam sentar-se nos bancos da igreja improvisada aos domingos com seus proprietários para ouvir as palavras da Bíblia, mas não podiam ficar com seus filhos, ou ir e vir de acordo com sua vontade.

É essa falta de complacência na apresentação dos personagens que dá a esse filme um tom mais aprofundado, pois o fazendeiro bonzinho, que presenteia Solomon com um violino, é também um fraco, que desaparece com a mãe chorosa para que sua esposa não entre em depressão (já que o som do choro da “escrava” a perturba), e que no primeiro sinal de problema, vende Solomon ao cruel Edviw Epps (numa espetacular atuação de Michael Fassbender), mesmo conhecendo a natureza sensível do “seu escravo” e o poder de destruição física e psicológica do seu amigo fazendeiro.

 

 

É na fazenda de Edviw Epps que Solomon conhece Patsey (interpretada notavelmente por Lupita Nyong’o), que mesmo nascida escrava evoca um comovente sopro de liberdade. Ela suporta o trabalho pesado no campo de forma altiva, só não consegue escapar do fascínio doentio que exerce sobre Epps e da inveja que provoca em sua esposa.

 

 

E é na fazenda de Epps que vemos como os proprietários de escravos podem ser cruéis, especialmente quando usam a religião como meio de persuasão. Enquanto Epps prega aos seus escravos e enfatiza a leitura de alguns versículos de forma a evidenciar a necessidade de subserviência por parte deles, também vai criando artifícios para corroborar com sua ideia de que é um bom homem, a serviço de Deus, cuidando “daquelas criaturas”.

Além disso, a religião passa a ser um mecanismo para combater as frustrações que ele tem em relação ao seu casamento, ao desejo incontrolável que sente por Patsey e sua própria incerteza perante sua moralidade e suas virtudes como um homem de Deus. Isso porque suas plantações são constantemente devastadas por pragas (o que remete à ira do Deus do Velho Testamento). Claro que ele encontra uma forma de interpretar as pragas dos céus de acordo com sua perspectiva torta, então passa a responsabilizar os escravos pelo castigo divino. E esse comportamento torna-o muito parecido com algumas figuras que temos em nosso meio, que são capazes de fazer as maiores atrocidades em nome de um Deus e de um discurso bíblico forjado segundo seus próprios e escusos critérios.

 

 

Epps torna-se ainda mais alucinado e cruel na medida em que sua obsessão por Patsey aumenta, especialmente porque, mesmo tendo posse de seu corpo, não consegue enxergar nela algum tipo de retorno. Acredito que ele nem consegue entender que tipo de retorno gostaria de ter, e talvez seja essa confusão emocional que o torna ainda mais monstruoso.

A violência física é terrível e existem cenas perturbadoras nesse aspecto, mas acredito que a violência psicológica é ainda pior, a forma como vamos percebendo que aquela vastidão luminosa das fazendas do Sul se torna incompatível com a condição abominável de sobrevida daquelas pessoas.

 

 

Solemon teve que suportar o sofrimento, a humilhação, a dor das pessoas que conviviam com ele e a saudade de uma família que parecia existir só em seus sonhos – sem reagir, sem atacar, porque todas as tentativas que presenciou de rebelião foram contidas e resultaram em mortes. Mas, de todas as vidas sofridas apresentadas nessa história, o que achei mais perturbador e tocante foi perceber que a luz que emanava de Patsey, aquela que no início do filme tinha um espírito livre apesar da escravidão, foi paulatinamente encoberta pela brutalidade avassaladora de ser tão cruelmente invadida. A morte, naquele contexto, parecia não ser apenas uma saída adequada, mas a única possibilidade de descanso.

 

 

Por ser baseado em um livro autobiográfico, sabemos de antemão que Solomon consegue sobreviver àquele inferno. Mas, o seu retorno a liberdade enquanto seus amigos ficaram à mercê da estupidez de um sistema absurdo não pareceu uma vitória. E isso se refletiu na jornada que ele iniciou a partir de então, que foi promover uma campanha pela abolição da escravatura em todo o território americano.

Voltando para nosso contexto, sabemos que, apesar de vivermos em um país com uma miscigenação tão intensa, ainda há no Brasil muito preconceito racial latente e, em muitos casos, evidente. E isso não é refletido somente nos discursos patéticos de alguns humoristas em redes sociais, geralmente apoiados por uma legião de seguidores, mas nos perfis das pessoas que ocupam determinados cargos, nos personagens principais das novelas, na política e, especialmente, em ações triviais do nosso cotidiano. Chegamos a um ponto em que não adianta mais propagarmos apenas a ideia de uma liberdade poética, é preciso mostrar, de fato, que há oportunidade para o exercício dessa liberdade.

 

FICHA TÉCNICA:

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

Direção: Steve McQueen
Roteiro: John Ridley
Elenco Principal: Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch
Ano: 2013

Alguns Prêmios:

Golden Globe 2014 (Melhor filme drama)
Screen Actors Guild Awards (Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o)
AFI Awards, USA (Melhor Filme)
Austin Film Critics Association (Melhor Ator (Chiwetel Ejiofor), Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong’o), Melhor Roteiro Adaptado (John Ridley))

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.