A hora mais escura


Com cinco indicações ao Oscar:

Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original (Mark Boal), Edição, Edição de Som

 

No escuro da tela, ouve-se uma ligação, é a gravação real de um telefonema para a emergência no 11/09/2001. A última frase que ouvimos da pessoa é “estou queimando”.  Muda-se o foco, agora aparece um galpão em algum lugar do Paquistão e o que vemos é uma cena de tortura, um americano falando metodicamente que quer ouvir a verdade, uma pessoa de capuz assistindo a cena e mais dois encapuçados puxando as cordas que prendem os braços do prisioneiro.

Quando Zero Dark Thirty estreou em Dezembro de 2012 nos EUA gerou muita polêmica, em especial, por mostrar cenas de tortura praticadas por integrantes da C.I.A. (A Central de Inteligência Americana). E a impressão que se tem é de que a premissa principal do filme gira em torno do fato de que o Interrogatório Reforçado (ou seja, aquele na qual se usa a tortura como um meio para se chegar a um fim) foi a peça principal na descoberta do esconderijo de Osama Bin Laden e na sua consequente morte.

A minuciosa pesquisa jornalística do roteirista Mark Boal e da diretora Kathryn Bigelow (ambos ganhadores do Oscar em 2010 pelo filme “Guerra ao Terror”) sobre os acontecimentos em torno da “Caçada ao Osama” produziu um filme com uma sequência de fatos tão reais que tem provocado um grande desconforto em alguns membros do Senado e da CIA.

 

 

O filme conta a história a partir do ponto de vista de Maya (uma agente da CIA – um personagem que representa uma composição de algumas figuras reais). Maya muitas vezes é a única figura feminina em cena, mas sua forma, paradoxalmente, passional e lógica de conduzir o caso acabou fazendo com que ela se tornasse a mentora por detrás do quebra cabeças de fatos que conduziram à morte do Bin Laden.  Na primeira cena de tortura que ela acompanhou, o prisioneiro tentou apelar para os seus sentimentos, talvez julgando que uma figura feminina tivesse mais complacência. Mas, de maneira impassível, Maya apenas disse a ele o que o outro agente já havia falado: se não quiser ser torturado, fale a verdade.

As cenas de tortura presenciadas ou conduzidas por Maya são uma ode ao horror: espancamentos, humilhação, privação de sono, confinamento em caixa, afogamento. Para Maya, não há tempo para pensar na natureza de tudo aquilo, ela executa as ações que julga serem relevantes para alcançar seu objetivo: encontrar Osama. Graças à brilhante interpretação de Jessica Chastain, podemos acompanhar através de suas expressões sutis, especialmente do seu olhar, a angústia do personagem, desde sua tentativa de permanecer impassível até sua nítida perda de controle em alguns momentos. Mas, Maya tem que acreditar que a sua complacência perante a dor do outro tem que ser menor que seu objetivo final e ela acredita, foi treinada para isso.

Depois de 12 anos de busca, de muitas mortes (inclusive de amigos da CIA), Maya finalmente consegue comprovar que sua principal pista, um mensageiro da Al-Qaeda, ao contrário do que diziam outros agentes, estava vivo e poderia levá-los ao Bin Laden. Desta forma, ela consegue encontrar provas suficientes para que o alto escalão autorizasse um ataque aéreo surpresa e uma invasão na casa que, em tese, estaria Osama.  Quando, na reunião repleta de homens, o chefe de departamento da CIA pergunta quem é a mulher sentada na parte mais distante da sala, ela mesma responde: “I am the motherfucker that found the place,sir”.

 

 

A reconstrução de toda a operação realizada na casa na qual estava escondido Bin Laden é primorosa.  Enquanto crianças choram, mulheres se desesperam, homens são assassinados, o corpo de uma pessoa envelhecida cai ao chão. Bin Laden muda de status: da figura mais procurada pelo Governo dos EUA passar a ser o corpo inerte no terceiro andar. Então, colocam-no em um saco e levam-no para a sede da CIA no Paquistão.

 

 

E, assim, Maya fica diante daquilo que foi seu objetivo de vida durante 12 anos. Com uma expressão de quem está assustada pelo fechamento de um ciclo, ela se aproxima do corpo do Osama e confirma sua identidade.  Finalmente, a busca chegou ao fim, então ela entra em um avião e ouve-se uma voz: “Deve ser muito importante, tem um avião só para você. Para onde quer ir?”

Ela nada responde. Talvez com a morte do Bin Laden, não haja mais um objetivo, nem um lugar para ir.

 

 

Mais do que uma história sobre as consequências do fundamentalismo, do imperialismo político ou do fanatismo religioso, esse filme mostra como podemos nos acostumar com o mal e aceitá-lo como uma saída necessária em alguns dilemas. Muitas vezes, as categorizações que se formam em torno daquilo que assumimos como justiça, verdade ou moral podem ser responsáveis por criar cruzadas que vão além da nossa possibilidade de discernimento entre o bem e o mal. Talvez porque a maior parte dos dilemas não se encontra em um polo distinto de uma abstrata linha moral, e sim em trânsito entre uma coisa e outra.

 


FICHA TÉCNICA DO FILME

A HORA MAIS ESCURA

Título Original: Zero Dark Thirty
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco Principal: Jessica Chastain, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Mark Strong, Kyle Chandler e Reda Kateb.

Alguns prêmios:
AFI Awards – Filme do Ano
Austin Film Critics Association – Melhor Filme
Broadcast Film Critics Association Awards – Melhor Filme, Melhor Atriz (Jessica Chastain), Melhor Edição, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original
Golden Globes – Melhor performance de uma Atriz em um filme – drama (Jessica Chastain)

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.