A Árvore da Vida

Com três indicações ao Oscar 2012: Melhor Filme, Melhor Diretor (Terrence Malick), Melhor Fotografia (Emmanuel Lubezki)

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. (João 1:1-3)

A árvore da vida poderia ser apenas mais um filme que tenta responder perguntas que, talvez, nem devessem ter sido formuladas, dada a impossibilidade lógica das respostas.  No entanto, não há tentativas de elaborar respostas em A Árvore da Vida, há questionamentos murmurados em meio a uma impactante sequência de imagens, que vai desde a origem do universo e o desenvolvimento da vida na Terra até a casa de uma família atingida por uma tragédia.

No início do filme, tem-se um monólogo feito pela mãe em uma tentativa de descrever em palavras sua visão da vida e do ser humano. De uma forma simples, ela separa as pessoas em duas categorias, mas o que vamos presenciar no decorrer da história é que o ser humano, talvez como reflexo do seu próprio Criador, não é tão facilmente categorizável, assim, muitas vezes há intersecções e uniões que desafiam nossa lógica e nossa tão domesticada lucidez.

“O coração de um homem tem duas formas de encarar a vida: a forma da natureza e a forma da graça. Você deve escolher qual das duas seguir. A graça não tenta agradar a si mesma. Ela aceita ser desprezada, esquecida, rejeitada.
Ela aceita insultos e machucados. A Natureza apenas tenta agradar a si própria. Ela gosta do poder.
De ter suas próprias escolhas.” 

Com a morte de um dos seus filhos, a mãe começa a questionar até o sentido da sua Fé. Especialmente quando recebe palavras de conforto do tipo: “Ele agora está nas mãos de Deus”. Ao que ela responde: “Ele sempre esteve”. E é essa a angústia que separa os dois estados: em um momento o filho existe e pertence a Deus, em outro momento ele não existe, mas ainda pertence a Deus.  “Deus dá e Deus tira. É assim que Ele é. Ele envia moscas à ferida que Ele deveria curar”, diz a avó do menino, cansada demais para qualquer busca por sentido.

É nesse ponto que inicia-se na tela o que muitos consideram a parte mais ousada do filme, já que estamos em uma época em que a velocidade é primordial para manter o interesse do público e que efeitos visuais devem ser capazes de mudar a direção da nossa atenção a cada fração de segundo, e isso definitivamente não acontece nesse filme em particular. Mas há a força de um questionamento que marca o início de um fantástico balé de cores e sons.

Deus, por quê? Onde você estava? (a mãe)

Então, o silêncio é quebrado por uma trilha sonora profunda em meio a imagens que tentam contar uma história que, de certa forma, é impossível de ser contada. Ou seja, tem-se a tentativa do diretor de mostrar a Criação do Universo, os caminhos que foram necessários para que a nossa espécie, enfim, pudesse existir, mesmo que muitas outras desaparecessem nessa trajetória.

Onde você estava? Deixou um garoto morrer. Nada poderia ser feito? Por que devo ser bom se Você não é? (Jack)

Esse é o grande questionamento de Jack, que é iniciado ainda na infância e o assombrará por grande parte de sua vida. Uma vida marcada pela morte prematura do irmão e por tantas outras perdas. São dele as principais lembranças descritas no filme, desde a sua relação conturbada com o pai até seus momentos de extrema felicidade com a mãe e os irmãos. Em alguns momentos, o pai, na tentativa de fazer com que os filhos possam ter um futuro melhor do que o dele (um músico e inventor frustrado), cria um ambiente de medo e exige uma obediência cega, sem questionamentos.

Por favor, Deus, mate-o. Deixe-o morrer. Tire-o daqui. (Jack)

Paradoxalmente, Jack questiona Deus por não interceder e evitar a morte de um menino, mas pede que esse mesmo Deus mate seu pai. Natureza e Graça. Em que categoria o menino se encontra? Em que categoria podemos nos colocar, se a própria dinâmica da vida modifica o nosso sentido das coisas e de nós mesmos? Até que ponto o que desejamos é aquilo que sentimos? Talvez essas perguntas possam ser respondidas em um livro de autoajuda, pois só nesses livros as contradições são facilmente resolvidas. Agora, parece-me mais coerente concluir a questão sem apontar respostas, já que, para cada um de nós, tanto as perguntas quanto as respostas podem ter um sentido diferente. Os personagens do filme em um dado nível não são apenas contraditórios, são também relativos.

Eu queria ser amado. Ser um grande homem. Eu não sou nada. […]. Sou um homem tolo. (o pai)

Em meio a uma história de vida que não reflete um sonho (de ser um músico famoso, por exemplo), o pai tenta impor à sua família um conjunto de verdades simples e isso mostra-se insuficiente quando, mesmo com sua conduta tão correta (perante seus princípios), ele perde o emprego, a casa e, principalmente, um filho.  O homem que se pensava tão justo e inventivo não alcançou a graça, nem tão pouco pôde viver conforme a sua natureza.

Ao presenciar o pai, aos poucos, perdendo a força das suas crenças, Jack sussurra: “Pai! Mãe! Sempre a sua inquietação dentro de mim”.  Ele é, inevitavelmente, parte deles.

Se você não amar, sua vida passará em frente aos seus olhos. Admire. Acredite.  (a mãe)

Em um dado momento, temos a impressão, pelo recurso de imagem usado, que a personagem da mãe não está em um espaço/tempo definidos, logo ela pode vivenciar todas as fases que compõem sua trajetória, como se fosse, simultaneamente, a criança, a adolescente e a mãe. É como se ela e Deus (em forma do universo) estivessem em sintonia. Daí tem-se a aceitação e, quem sabe, o entendimento não somente da perda, mas, especialmente, do universo que há diante de cada um de nós.

Entrego-o à Você.Entrego-Te meu filho. (a mãe)

FICHA TÉCNICA DO FILME

ÁRVORE DA VIDA

Título Original: The Tree of Life
Direção e Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan
Ano: 2011

Prêmio:
Palma de Ouro no Festival de Cannes

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: