Imagem: The Corporation

A busca patológica por lucro e poder

A Corporação (The Corporation) é uma produção canadense dirigida por Mark Achbar (Manufacturing Consent: Noam Chomsky and the Media) e Jennifer Abbot a partir do best-seller de Joel Bakan (The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power) sobre os poderes das grandes corporações no mundo contemporâneo como a Nike, Shell e IBM. No documentário, de acordo com os diretores, as corporações controlam a sociedade economicamente e agem de forma predatória, mas não têm a punição devida. Nos EUA, a lei aplicada nas ações dessas empresas é a mesma aplicada aos cidadãos do país. Portanto, a partir da concepção apresentada no documentário, as corporações são como psicopatas que não são punidos, se avaliarmos suas “atitudes”.

No documentário constam depoimentos de mais de 40 pessoas, incluindo Noam Chomsky, Milton Friedman, Mark Moody-Smith (ex-presidente da Royal Dutch Shell) e os jornalistas Jane Akre e Steve Wilson, ex-funcionários da Fox News. Temas que variam desde fábricas de fundo de quintal no Terceiro Mundo até a destruição do meio ambiente, passando pela patente do DNA, fazem parte dessa narrativa cinematográfica.

O documentário começa com um breve histórico das grandes empresas do ponto de vista legal, jurídico. Na primeira parte é colocado que as corporações há 150 anos eram empresas sem expressão e hoje são instituições que seguem uma dinâmica própria, que transcende as vontades individuais de seus acionistas e executivos, e que têm poderes, controlam e influenciam a vida das pessoas.

As corporações são comparadas a peças de um quebra-cabeça da sociedade, um time esportivo onde cada um tem uma função, mas com finalidades definidas; é como se fossem um “sistema telefônico” que tem o poder de transformar a vida do indivíduo. As mesmas são também comparadas a animais: aos tubarões por terem objetivos bem definidos (são frios e não param enquanto não atingirem suas metas), às águias por serem competitivas sempre prontas a atingirem seus objetivos e às baleias por serem grandes e “gentis”, mas capazes de engolir com facilidade seu alvo.

“Que tipo de pessoa é uma corporação?” é uma questão feita aos consumidores. Mac Donalds é um jovem empreendedor, Nike é um jovem energético, General Eletric é um velhinho com muitas histórias para contar, Microsoft é um jovem agressivo, etc. É enfatizado que as corporações têm direitos de pessoas mortais, mas não têm consciência moral.

No documentário é enfatizado o fato de que, de acordo com a lei, as firmas têm os mesmos direitos que os indivíduos: podem processar, ser processadas, alugar, acionar judicialmente, sofrer perdas, capitalizar ganhos, incorporar patrimônio e tantas outras ações que as pessoas físicas realizam durante suas existências.

A partir dessa ótica, a produção se envereda em mostrar que existe uma grande diferença entre os indivíduos e a corporação. Espera-se dos indivíduos que demonstrem responsabilidade ética e social. Já a corporação tem, por lei, apenas uma responsabilidade: garantir a seus acionistas o maior lucro possível. É perceptível que a principal razão de ser da corporação é a obtenção de lucro, mesmo que isso se oponha ao bem estar comum de toda a coletividade humana. Concerne aqui afirmar, com base nos depoimentos do longa-metragem, que esta abordagem conduz à exploração da força do trabalho, à devastação do meio ambiente, a fraudes contábeis e várias outras coisas do gênero que fazem parte do mundo do capital.

Num momento do documentário um executivo de uma multinacional se diz impotente para mudar qualquer ação da empresa onde trabalha, mesmo considerando que muitas das práticas contrariam seus princípios e filosofia de vida. Há outro depoimento, de um destacado consultor do mercado financeiro, que atesta que graves crises, como o ataque terrorista ao World Trade Center, ou guerras, como aquelas que são travadas no Oriente Médio, são um ótimo negócio para os investidores que apostam seu dinheiro em ouro, petróleo, indústria bélica etc.

Entenda-se que o modo como as corporações se “comportam” reflete-se também nas relações de trabalho. Como relata o documentário, “seja no que diz respeito à dissociação entre atos individuais de funcionários e realizações criminosas cometidos pela companhia, seja na desumanização do processo de produção, existe, no ideal corporativo, algo próximo da diminuição do homem à condição de máquina”. Escândalos de grandes empresas são relatados mostrando uma realidade assustadora.

Assim, casos reais são analisados (como um psiquiatra faria) visando a um diagnóstico. É mostrada uma ficha que vai sendo preenchida mediante os estudos de casos. Abaixo um paralelo das “atitudes” da corporação e a análise de seu “comportamento”:

 

Personality Diagnostic ChecklistWorld Health Organization ICD-10

Manual of Mental Disorders DSM-IV

Danos aos trabalhadores(demissões, exploração)Indiferença com os sentimentos alheiosIncapacidade de construir relações estáveis
Danos a saúde (produção de lixotóxico, poluição)Indiferença negligente de segurança alheia
Danos aos animais (destruição dohabitat, confinamento)Mentir e enganar os outros por ganânciaIncapacidade de sentir culpa
Dano para o meio ambiente(emissões de CO2, desperdício nuclear)Incapacidade de se inserir nas normas sociais
Diagnóstico: PSICOPATA
Abott, Achbar. The Corporation. Canadá, 2004.

Para tanto, a loucura de uma corporação é como a loucura de um indivíduo. Nesse estudo apontado no documentário as corporações são tidas como a tirania de diversas gerações e representam o tipo Psicopata. O indivíduo recebe mensagens das corporações, por meio da mídia, que ditam e gerenciam as suas percepções e direcionam o modo de cada um pensar. As marcas ficam cada vez mais significativas e o que consumir passa a ser um desejo não mais oculto.

 


FICHA TÉCNICA DO DOCUMENTÁRIO

THE CORPORATION

País/Ano de produção: Canadá, 2004
Duração/Gênero: 144 min., Documentário
Direção: Jennifer Abbott e Mark Achbar
Roteiro: Joel Bakan e Harold Crooks
Trilha Sonora: Leonard J. Paul
Elenco: Mikela J. Mikael (narração), Noam Chomsky, Michael Moore, Jane Akre, Ray Anderson, Maude Barlow, Chris Barrett, Peter Drucker, Samuel Epstein, Naomi Klein, Milton Friedman.

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com