A Culpa é das Estrelas: quando o infinito é breve

“Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, e sou muito grata por isso.”(Hazel)

O filme “A culpa é das estrelas”, baseado no livro homônimo de John Green, conta a história de Hazel, uma garota de dezesseis anos, diagnosticada com câncer aos treze, e seu encontro com Augustus (Gus), com quem compartilha a experiência de viver a emoção do primeiro amor mesmo diante da constatação cruel e sem artifícios da brevidade da vida.

É complexo, sob qualquer perspectiva, entender como o câncer pode afetar psicologicamente um adolescente, pois, para isso, tem-se que considerar especialmente as rápidas mudanças físicas, emocionais e sociais que acontecem nesse período.  Segundo Zebrack [1], teorias do desenvolvimento humano sugerem que, apesar de todos os pacientes com câncer experimentarem um conjunto comum de interrupções relacionadas ao seu cotidiano, essas experiências são sentidas e assimiladas de forma diferente dependendo do momento da vida que foi diagnosticada a doença.

Para a maioria dos pacientes [2], o diagnóstico e o tratamento do câncer resultam em interrupções nas atividades diárias, em uma contínua dor física, na diminuição da energia (ânimo), em alterações da aparência física, em limitações na capacidade funcional, alterações nas relações sociais e, especialmente, no confronto com a mortalidade, em reflexões relacionadas às questões existenciais universais e mudanças na percepção sobre si mesmo, sobre o futuro e o mundo.

“A depressão não é um efeito colateral do câncer, é um efeito colateral de se estar morrendo.”(Hazel)

É nesse universo de dúvida, medo e raiva latente que se encontra Hazel (Shailene Woodley), cuja força para encarar o tratamento de um câncer em estágio avançado parece ter como base o entendimento de que se deve olhar para a vida sem grandes expectativas. Hazel compreende que poderá morrer ainda jovem, além disso, pensa que assim como foi breve a sua vida, breve também serão as lembranças que os outros terão dela.

Para suportar a ideia da brevidade, tenta encarar o mundo com um certo cinismo, afinal, segundo ela, tudo tende a acabar e nada é especial, nem Aristóteles ou Cleópatra, muito menos ela. Assim, se até a nossa espécie está fadada à finitude e ao esquecimento, não será ela que tentará semear jardins fantasiosos de lembranças que, logicamente, não terão força para resistirem ao tempo.

“Eu tenho medo de ser esquecido.” (Gus)

Por isso que o encontro inusitado com Gus (Ansel Elgort) em uma sessão de terapia em grupo foi tão impactante. De certa forma, quando ele externou para o grupo seu medo (de ser esquecido) e levou-a a falar pela primeira vez (de forma espontânea) naquele ambiente que tanto a aborrecia, trouxe à tona muito da angústia que é viver constantemente tendo que considerar seu próprio fim iminente. Talvez Hazel, ao considerar o fim de todos como uma das poucas verdades que permanece constante, tenta fazer com que a ideia da morte seja assimilada de forma menos traumática, não importando se o sujeito tenha 8, 18 ou 80 anos, já que o tempo é relativo, logo complexo demais para ser mensurado.

“Tudo o que fizemos, construímos, escrevemos, pensamos e descobrimos vai ser esquecido e tudo isso aqui vai ter sido inútil.” (Hazel)

Mas entre o discurso e o pensamento há um grande abismo. É possível até que, em alguns momentos, um seja a refutação do outro, ainda que, também, funcione como uma forma de proteção. Se a terapia em grupo irrita Hazel, por não considerar o método, nem a forma como é conduzido (já que, no filme, quem faz isso é um sobrevivente frustrado), afirmar que sua existência não deve ser motivo para despertar lembranças duradouras pode ser uma forma de rebeldia, a única possível no contexto em que se encontra.

“Estou morrendo, mãe. Vou morrer e deixar você sozinha, […], e você não vai mais ser uma mãe, e eu sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer a respeito.” (Hazel)

Mas, aos poucos Hazel começa a demonstrar toda a confusão emocional que carrega dentro de si. Oscila na forma de aceitação do “esquecimento”, algumas vezes o considera uma dádiva, já que libertará as pessoas que a ama de um grande sofrimento, e outras vezes entende que tal fato reflete uma realidade terrível, já que parece determinar que sua breve vida tenha sido em vão. Os pais ficam impotentes diante do seu sofrimento e isso traz danos psicológicos profundos para todos os envolvidos.

Segundo [3], o diagnóstico de câncer em uma criança ou adolescente muitas vezes acarreta em crise familiar. A família experimenta o choque e a tristeza ao acompanhar o dia-a-dia da criança diante de uma doença potencialmente fatal. Assim, a atenção psicossocial nesses casos deve compreender o atendimento psicológico e social de apoio à criança ou adolescente e sua família durante todo o tratamento do câncer, inclusive há uma preocupação especial para que este acompanhamento ocorra por algum tempo nas famílias que vivenciaram o luto. Só o tempo pode suavizar a dor, mas um acompanhamento adequado pode ajudar a criar mecanismos para suportar a ausência e o vazio que somente esse tipo de sofrimento tão avassalador pode provocar.

“Estou apaixonado por você, e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó, e o sei que o sol vai engolir a única Terra que podemos chamar de nossa, e eu estou apaixonado por você.” (Gus)

O diferencial desse filme, considerando tantos outros sobre essa temática (e.g. Love Story – 1970, Tudo por Amor – 1991), é a linguagem utilizada por John Green no livro e que foi tão bem conduzida e refletida no roteiro. Assim, embora tendo como base um assunto tão denso, a história de amor entre Hazel e Gus é um sopro de delicadeza e esperança.

 

Os olhos da Hazel conduzem a história. Neles são refletidas as várias camadas de emoções que são apresentadas na tela. É possível entender, por exemplo, que ao perceber a si mesma como uma “granada”, ela toma a decisão que parece ser a mais lógica, ou seja, manter-se distante. Por isso Gus é tão especial, ele consegue enxergá-la profundamente, percebe o medo em suas palavras cortantes na primeira sessão de terapia, mas também tem um vislumbre da sua sensibilidade e inteligência.

Por mais que a doença tenha lhe tirado tantas formas de alegria, tenha alterado seu cotidiano, transformado o sonho de independência que permeia a adolescência em um borrão longínquo e sem sentido, Hazel ainda consegue inebriar-se através da imaginação.

“[…] Me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra.” (Hazel)

A menina que tem como melhor amigo um autor que nem a conhece, que ama os livros e vê na permanência dos seus personagens em seu coração uma forma, ainda que inconsciente, de suportar a brevidade da vida é a pessoa pela qual Gus se apaixona. E, longe desse fato dar ao filme uma conotação piegas, o amor entre os adolescentes é uma forma demasiada humana de mostrar que podemos conseguir criar novos sentidos para as inúmeras variáveis que compõem o universo de significados que carregamos conosco.

“Alguns infinitos são maiores que outros… Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Eu queria mais números do que provavelmente vou ter.”(Hazel)

O título do livro/filme, “a culpa é das estrelas”, vem de um diálogo extraído da peça “Júlio César”, de Shakespeare: “A culpa, caro Brutus, não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos, que somos subordinados”. Mas, usando outro trecho de Shakespeare, é possível criar uma dúvida na origem dessa culpa, já que “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha desvendar nossa vã filosofia”. Assim, não parece ser incoerente supor que algumas dores e sofrimentos são impostas ao sujeito sem que haja qualquer explicação ou culpa, tirando-lhe qualquer autonomia ou controle. Assim, para Hazel, Gus e tantos outros que precisam conviver com diagnósticos terríveis e com um conjunto limitado de dias, fica a estranha sensação de que é preciso aprender a viver morrendo, por mais paradoxal e absurdo que isso seja.

Segundo Elisabeth Kübler-Ross [4] em seu livro “Sobre a morte e o morrer”, as emoções e sensações que são vivenciadas diante da morte iminente podem ser sistematizadas em cinco estágios: negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação. Vimos alguns desses estágios representados no filme, mas considerando que Hazel e Gus são adolescentes, essas manifestações também ocorrem de uma maneira diferenciada.

Gus, por exemplo, mesmo tendo tido câncer e tendo a possibilidade sempre alta de um possível retorno, tem os mesmos sonhos heroicos que muitos de nós tivemos em sua idade. Há sempre um universo de possibilidades na adolescência e isso é evidenciado através de suas palavras, de suas ações, ou seja, de sua postura diante da vida.

Gus emana vida. É como se a vida nele fosse tão intensa que por isso mesmo não coubesse em seu corpo. Sua relação com Hazel permitiu que ele compartilhasse esse excesso de vida, contribuindo para que ela percebesse um aspecto que eles tinham em comum: mesmo que suas vidas fossem definidas em um pequeno intervalo de tempo, o universo de cada um ainda era infinito. Talvez alguns infinitos sejam maiores que outros, como provou o matemático russo Georg Cantor, mas isso não significa que sejam melhores ou mais intensos. As relações que são construídas no espaço de uma vida são o que tornam cada vida única e, quem sabe, infinita.

 

[1] Zebrack BJ. Psychological, social, and behavioral issues for young adults with cancer. Cancer. 2011 May 15;117(10 Suppl):2289-94.

[2] Rowland JH. Developmental stage and adaptation: adult model. In: HollandJC, RowlandJH, eds. Handbook of Psychooncology. New York, NY: Oxford University Press. 1990; Chapter 3: 25–43.

[3] Improving outcomes in children and young people with câncer. Disponível em: http://guidance.nice.org.uk/CSGCYP/Guidance/pdf/English

[4] KUBLER- Ross, E. “Sobre a morte e o morrer”: 8ª Ed., Martins Fontes. São Paulo, 1998.

 


FICHA TÉCNICA DO FILME

A CULPA É DAS ESTRELAS

Título Original: The Fault in Our Stars
Direção: Josh Boone
Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, John Green (autor do livro)
Elenco principal: Shailene Woodley, Ansel Elgort, Nat Wolff, Laura Dern, Sam Trammell, Willem Dafoe
Ano: 2014

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: