A Disciplina e o Controle na atualidade

Este texto tem como objetivo fazer um sobrevôo nos conceitos de Disciplina em Michel Foucault e Controle em Gilles Deleuze. Além de realizar uma articulação destes Dispositivos com o Processo de Produção de Subjetividade na Atualidade.

Os dispositivos disciplinares e de controle têm um papel fundamental na produção e reprodução da paisagem social na atualidade, sendo eles mesmos produção e produto. Por exemplo, geralmente nascemos no seio de uma família que, em alguns aspectos, nos moldará, assim como muitas outras instituições nos moldarão ao longo da existência. Entretanto, a família é determinada pelo tecido social no qual ela emerge; determinada pela composição de forças e pelas articulações entre os diferentes movimentos existentes no campo social. Pensemos, no século XVIII seria possível uma família composta por dois homens e uma criança adotada (sendo ou não através de vias legais)? Claro que não, pois o contexto social da época não possibilitava o surgimento deste tipo de configuração familiar.

Ao longo da vida passamos por dispositivos disciplinares, fechados e formatadores; estamos imersos em dispositivos de controle, abertos e moduladores. Nos dispositivos fechados, o poder de afetação se exerce, segundo Deleuze (1988):

[…] pela pura função de impor uma tarefa ou um comportamento quaisquer a uma multiplicidade qualquer de indivíduos, sob a única condição de que a multiplicidade seja pouco numerosa e o espaço limitado, pouco extenso. (p. 80).

Exemplo de tais dispositivos são creches, escolas, fábricas (empresas), quartéis, hospitais, asilos, presídios, universidades. Todos produzindo, a partir da disciplina, corpos“economicamente úteis e politicamente dóceis” (FOUCAULT, 2004). Passamos da família para a creche/maternal, desta para a escola regular, adiante para faculdade, trabalho… Cada uma destas instituições com sua lógica específica, mas todas operando através de uma anatomopolítica [1].

Ao mesmo tempo em que passamos por esta “via sacra”, temos os dispositivos de controle que, ao invés de moldes procedem por modulações; novas relações familiares, novas relações de amizade, de trabalho, novas percepções, novas pedagogias. Todas estas modulações se atualizando constantemente a partir dos movimentos delineados pela Lógica do Mundo Global. Nestes dispositivos, a função do poder seria, segundo Deleuze (1988): “[…] gerir e controlar a vida numa multiplicidade qualquer, desde que a multiplicidade seja numerosa (população), e o espaço extenso ou aberto” (p. 80).

A ciência, os diversos campos do saber, os meios de comunicação social, o marketing e os organismos internacionais são exemplos desses dispositivos. Todos produzindo modulações que são assimiladas e colocadas em prática. Assim sendo, podemos dizer que as lógicas dos dispositivos disciplinares são diluídas no campo social e intensificadas, continuamente, pelas modulações dos dispositivos de controle. No Mundo Global, onde a comunicação é instantânea em qualquer parte do planeta, cada vez mais a ciência (humana e exata), juntamente com estratégias de marketing e a atual conformação político-econômica do mundo, constituem as formas de ser e de viver hegemônicas na atualidade.

É como se os muros das instituições se tornassem permeáveis e as lógicas que anteriormente estavam restritas aos espaços fechados agora estivessem generalizadas no campo social. Vemos cada vez mais o atravessamento de lógicas diversas na mesma instituição. Antigamente os discursos que circulavam na instituição escolar diziam respeito somente ao registro das políticas públicas na área da educação; estando totalmente fechado a outros registros como, por exemplo, a justiça, a assistência social, os direitos humanos, etc. Atualmente, a escola, assim como outras instituições, está sendo atravessada por discursos de registros diversos, sendo modulada pelos mesmos. Um exemplo disso seriam as práticas [2]  de criminalização (falta de moral e/ou educação), de medicalização (falta de saúde e/ou sanidade), judicialização (falta de recursos para gerir conflitos e/ou educação) e pedagogização (falta de educação e/ou irresponsabilidade), que acontecem nas mais diversas instituições (escola, hospital, empresa, justiça…).

A partir do momento em que os processos de constituição de modos de ser e estar são produzidos no campo social, a modulação contínua deste produz – ao mesmo tempo – uma modulação nos modos de ser e estar. A velocidade dessa modulação e a fugacidade dos territórios consumidos geram sofrimento através da fragilidade da consistência subjetiva que estes elementos proporcionam. Quanto mais fragilidade mais sofrimento e maior vulnerabilidade à captura pelas centrais de distribuição de sentido e de valor [3]  do sistema (ROLNIK 1989).

Percebemos as lógicas disciplinares e de controle, disseminadas pelos seus respectivos dispositivos, como coexistentes na atualidade. Quando afirmamos que os muros das instituições se tornaram permeáveis, estávamos indicando que as lógicas disciplinares ainda existem, mas que são sistematicamente moduladas pelas lógicas de controle. Isto tem como efeitos, além da fragilidade subjetiva citada, a declarada crise permanente das instituições. Esta “dita” crise justifica a atualização sistemática das lógicas disciplinares pelos dispositivos de controle.

Na medida em que as instituições estão em “crise permanente” são criadas uma série de modulações para dar conta desta crise (DELEUZE, 1992, p. 221). Há reformas constantes no papel da escola, da família, das universidades, do sistema judiciário, etc. Se proliferam cursos de capacitação para preparar professores, pais, operadores do direito, conselheiros tutelares e outros. Nestas capacitações entra em cena a interferência de lógicas diversas na mesma instituição, resultado da diluição das lógicas disciplinares e da permeabilidade dos muros das instituições. O sistema judiciário cria escola de pais, a escola vira palco para a implementação da metodologia de resolução de conflitos chamada “justiça restaurativa” , e assim por diante.

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Rio de Janeiro, Petrópolis, Vozes, 2004.

ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.

 [1] Termo utilizado por Foucault para se referir ao exercício do poder no corpo humano, constituindo uma política específica, caracterizada pela disciplina (FOUCAULT, 2004)

[2] Estas são práticas de controle da vida, uma vez que são produzidas quando se supõe que “falta” algo para que as pessoas consigam ter as rédeas de sua existência, restando somente tutela e controle por parte do Estado.  

[3] Rolnik utiliza este termo para se referir à mídia em geral como forma de captura, através da modulação contínua nas formas de ser e estar no mundo.


Nota: Texto extraido da dissertação de Mestrado intitulada Produção de Práticas e Projetos Sociais de Jonatha Rospide Nunes.

Jonatha Rospide Nunes
Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal Fluminense, Professor do CEULP e Secretário Geral do CRP/23.