A espuma dos dias para desencardir a poeira cotidiana

Primeiramente gostaria de tornar este meu micro-ensaio sobre o filme baseado na obra de Boris Vian, publicada em 1947, um texto curto e polvilhado de curiosidades, para que seja entendido sumariamente como um conjunto de apontamentos de entradas, possíveis e não definitivas, frente a densa produção cinematográfica que lhe serve de referência.

Em segundo lugar, não me aterei em aspectos mais formais de uma análise cinematográfica como a desenvoltura dos atores principais, a riqueza do cenário ou a profundidade das falas que tecem a trama do filme. Tenho como foco trazer a tona “acontecimentos” que me arrebataram quando acompanhava o desenrolar da trama adaptada à sétima arte deste clássico da literatura francófona.

O que este resumo empolgado da obra supracitada tentará transmitir será a profundidade de questões existenciais que banham toda esta experiência refletida nas grandes projeções de cinema.

Trata-se de um filme que tangencia aspectos bastante intrigantes do fluir dos dias de cada ser humano. Nos três casais centrais da trama, há uma série de percepções e reflexões sobre o desenlace amoroso, a profundidade do amor, suas implicações na vida de um casal, a extensão de tais repercussões às vidas que circundam o casal, as disputas e inquietações das dúvidas que são metodicamente semeadas ao longo do relacionamento. Da entrega à cumplicidade, os casais se reformulam, criando uma trama cada vez mais complexa, que irá inclusive levar “a espuma dos dias” aos profundos questionamentos sobre a existência, a perenidade, a morte e a amizade.

Uma figura intrigante é a referência de um filósofo que consegue angariar súditos que o perseguem e o veneram mesmo não entendendo bulhufas do que seja profetizado em seus manuscritos. É uma figura inquietante que nos faz por em xeque as possíveis ideologias que tanto nos vemos abraçados, porventura de forma frágil e amedrontada.

Um dos temas também trabalhados de forma bela e profunda em toda a tessitura do filme é a questão da morte, que surge ao passo em que a doença se faz visível no corpo e, além do indivíduo, ao redor de seu eixo familial (intrigante pensar que a presença de um doente pode “envelhecer” os que o cercam, dos representantes humanos ao ambiente como um todo, imagens fortes que se ligam a terminalidade). Uma doença que confronta a solução mais vital existente entre os seres vivos – a água – que nesta obra ganha uma roupagem mortífera já que é essencial para a manutenção da “vida do mal” que ronda os pulmões de Chloé, o nénuphar(planta sabidamente aquática).  O médico do filme também é uma figura profunda, ambígua em sua postura fisicalista e fraternal, impondo regimes e pílulas para amenizar (ou prolongar) sofrimentos.

Finalizo dando ênfase ao fato de que a trama das vidas de Chick, Alise, Chloé, Colin, Nicolas, Isis, Jean-Pol Partre e do rato cinza de bigode preto são embaladas pelas belas composições do jazz de Duke Ellington, dando à atmosfera romântica, psicodélica e fantástica do filme um ar mais leve e desafiador.

Filme para deixar as espumas da vida mais arejadas do encardido do cotidiano! Duas horas de uma boa dosagem de alvejante para a alma!

 

FICHA TÉCNICA 

A ESPUMA DOS DIAS

Título original: L’écume dês jours
Gênero:
 Drama
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Luc Bossi
Elenco: Aïssa Maïga, Alain Chabat, Audrey Tautou, Charlotte Lebon, Gad Elmaleh, Laurent Lafitte, Marina Rozenman, Mathieu Paulus, Natacha Régnier, Omar Sy, Philippe Torreton, Romain Duris, Sacha Bourdo, Vincent Rottiers, Zinedine Soualem
Produção: Luc Bossi
Fotografia: Christophe Beaucarne
Ano:2013