A Menina que Roubava Livros

“Primeiro as cores.
Depois, os humanos.
Em geral, é assim que vejo as coisas.
Ou, pelo menos, é o que tento.”

“- EIS UM PEQUENO FATO –
Você vai morrer.”

 

Em meio a segunda guerra mundial, na Alemanha nazista, a Morte – célebre personagem – vai tecendo com traços leves e cores fúnebres seus encontros, que se deram em três momentos distintos com a garota Liesel Meminger (Sophie Nélisse) de codinome Saumensch.

Diferente do que se espera, Liesel, a protagonista da história, não é uma grande personalidade, não traz consigo um repertório de habilidades distintas, nem grandes dotes. Não fosse pelo fato incomum de ela – ainda analfabeta – roubar livros, talvez até passasse despercebida por mim, por você, pela morte. Liesel é uma garrota comum, inocente, que mal despertou para guerra que nascia em seu país, e já teve que lidar com a dor de perder toda a sua família.

 

UM ANÚNCIO TRANQUILIZADOR
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta…
Não sou violenta.
Não Sou maldosa.
Sou um resultado.”

O cenário inicial do livro é Alemanha de 1939, em um trem de ferro se locomovendo entre a paisagem coberta de neve. Num dos vagões estão Liesel e sua mãe, que carrega nos braços o filho caçula de 5 anos de idade, morto, vítima de uma forte febre. E foi durante o enterro do irmão, no caminho para seu destino desconhecido, que Liesel vê a oportunidade para seu primeiro grande ato, o furto de um livro de capa preta com letras prateadas: “O manual do coveiro”.

Essa é a primeira visão da protagonista, do Best Seller A Menina que Roubava Livros (2005) de Markus Zusak Lisel, que ganhou versão cinematográfica em 2013.

Sem condições de criar Liesel, a mãe, uma comunista perseguida pelo governo, entrega sua filha para uma família da cidade de Munique. Uma prática muito comum no regime de Hitler, que oferecia uma pensão às famílias que adotavam crianças alemãs.

 

 

E sem entender o que se passava, a jovem Saumenschse vê em um novo lar, rodeada por pessoas totalmente estranhas e com uma vida simples, que nada mais podem lhe oferecer além de um abrigo seguro, um agasalho, sopa rala e o som de um acordeom.

Acolhida por Hans (Geoffrey Rush) e Rosa Huberman (Emily Watson), residindo na Rua Himmel  = Céu, de um bairro pobre de Munique, Liesel faz novos amigos e grandes descobertas que, narradas por um personagem nada comum, revelam ao leitor, uma Alemanha bem diferente daquela trazida pelos livros de história, não apenas como algoz de atos desumanos, mas um país desolado pela guerra e que nem sempre concorda totalmente com os atos de seu governante, Herr Hitler.

 

UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO
Não ir embora: ato de confiança e amor,
Comumente decifrado pelas crianças.”

 

É na Rua Himmel que Liesel descobre o valor de uma verdadeira e grande amizade. O garoto vizinho, Rudy (Nico Liersch), não é nada convencional. Na verdade nem se pode dizer que ele é o tipo de amigo que Liesel desejava por perto, mas é quem ela tinha, na verdade, é quem ela sempre tinha por perto. Mais que amigos, os dois eram cúmplices, e talvez seja essa relação o elemento que garantiu a Saumensch enfrentar tão bem tudo o que via durante a guerra.

Rudy é um personagem único, com função singular na trama, trazer alegria, não apenas a Liesel, mas aos leitores. Por mais que seu desempenho tenha sido um tanto abafado na adaptação cinematográfica, Rudy é o porto seguro da menina, seja nos momentos de tristeza, fazendo coisas que a fazem rir, ou nos momentos de seriedade, quando ambos discorrem sobre as atrocidades vividas em seu país e compartilham juntos seu desamor por Hitler.

“ODIEI AS PALAVRAS E AS AMEI,
E espero tê-las usado direito.

 

Outro ponto marcante é a relação desenvolvida entre Liesel e seu pai adotivo, Hans. A empatia entre ambos foi instantânea. Ele foi o primeiro para quem ela confessou seus furtos e de quem recebeu auxílio para decifrar os símbolos dourados que cintilava na capa do objeto de seu primeiro furto. A relação dos dois mostrou para a menina que não é preciso a existência de laços consanguíneos para o desenvolvimento de uma relação familiar.

Liesel já contava com quatro livros: O Manual do coveiro, Fausto, O Cachorro, O Farol, quando se depara com uma pilha gigantesca de obras sendo queimadaspor decreto de Hitler, que determinara o fechamento de todas as bibliotecas do país, ficando permitido apenas o livro que ensinava sua doutrina. Liesel, então, resgata da pilha um livro azul, com letras em vermelho que diziam: “O dar de ombros”.

“- ESTÁ AÍ UMA COISA QUE NUNCA SABEREI NEM COMPREENDEREI
Do que os humanos são capazes.”

 

A vida da família muda com a chegada de Max(Ben Schnetzer), um judeu fugitivo que encontra abrigo na casa da família de Liesel. Com a chegada do rapaz, Liesel conhece um outro mundo, o do sofrimento em tempos de guerra, e o de pessoas que desaparecem, assim como sua mãe. E ela se enche de desamor por toda a situação vivida, o que culmina com o desfecho surpreendente da obra. Mas não me aterei a detalhes e por menores da obra para não poupar o leitor das cenas emocionantes que tanto o livro quanto o filme trazem no decorrer da trama.

 

Não se pode concluir, em suma, as motivações por detrás das ações da Saumensch, nem o motivo de sua paixão venerada pela escrita. Numa tentativa de tecer análises, poderíamos enxergar sua paixão venerada pela literatura como algo que nasceu de forma sutil, mas logo ganhou significado inconsciente na vida de Liesel, o de lhe garantir uma singularidade, ela era, a cada novo livro, A Roubadora de Livros, e isso lhe assegurava uma personalidade distinta. Logo, o simples fato de furtar livros não parecia ser o suficiente para legitimar o comportamento transgressor de Liesel, que tornou-se uma menina impetuosa e rebelde, pronta a fazer qualquer coisa para desmoralizar aquele governo repressor.

Outro ponto relevante, e de extrema importância na trama, é o presente que Liesel recebe de seu amigo Max, um livro/diário, no qual ela descreve tudo o que vivencia. É na escrita que a menina encontra vazão para seus sofrimentos, o luto não vivido do irmão, a perda da mãe e de outros entes queridos. Por meio da escrita ela consegue sublimar todo esse sofrimento, e seguir em frente com sua vida.

”Quando a morte conta uma história,
Você tem que parar pra ouvi-la.”

 

Também não se pode negligenciar a presença da morte, personagem ilustre que descreve os acontecimentos de modo tão sutil. Aqui apresentada por Zusak de modo menos caricato, nada de capuz preto e foice a tira colo, a Morte seria um personagem simples, fúnebre, solitário, justo e sincero. Aterrorizada pelas atrocidades de um mundo violentado por uma guerra e que encontrou nos olhos da menina Liesel uma cor até então desconhecida. A morte se encontrou com a Roubadora de Livros uma primeira vez em um vagão de trem, e desse encontro, ela jamais se esqueceu.

“- UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA –
Os seres humanos me assombram”

A leitura do livro, ou mesmo a apreciação do longa, proporciona ao espectador um é um encontro de almas. Logo na primeira página do livro, é possível entender o motivo de ele ter se tornado um Best Seller. Cada personagem é único e traz, dentro de sua verdade, elementos novos à trama, mudando a configuração das cenas, e evocando no espectador as mais diversificadas emoções. Foi assim que A Menina que Roubava Livros se tornou uma história para toda a vida.

 


INFORMAÇÕES TÉCNICAS DO LIVRO

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

Título original: The Book Thief
Título em Português BR: A menina que roubava livros
Autor: Markus Zusak
Tradução: Vera Ribeiro
Editora: Intrínseca
Ano: 2005

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com