A Onda: o poder da retórica no discurso persuasivo às massas

O filme A onda, dirigido por Alex Grasshoff e lançado no ano de 1981 é um drama instigante e genial que traz a representação de fatos reais acerca de um experimento pedagógico realizado por um professor em uma escola da cidade de Palo Alto, nos Estados Unidos, em 1969. Tal experimento consistiu em mostrar para os alunos desta escola, de forma prática, como se dá a alienação através do poder de persuasão, evidenciando bem o conceito de psicologia das massas, ao passo que a onda é um movimento criado pelo professor sendo apresentado aos alunos como um grupo que visa o bem maior, que está acima de todos e que faz de cada participante alguém ativo, notável e respeitável, dado que algumas regras são postas para fazer parte do movimento e quem as descumpri-las deve ser notificado imediatamente.

É interessante notar no filme os aspectos ligados ao nazismo, como a reprodução das palavras de ordem “Poder, disciplina e superioridade” e a facilidade com que os alunos são maleáveis ao que o professor ordena, exortando-os a agirem apenas como grupo, sobressaindo-se ao individual. Os alunos criam certo fanatismo pelo movimento, tornam-se cegos e manipuláveis. E isso tudo sem se darem conta de que estão se tornando uma nova geração com aspectos semelhantes ao nazismo.

Observa-se no filme o que o psicólogo alemão Kurt Lewin denominou dinâmica de grupo, que pesquisava a natureza, a evolução e as influências das pessoas sobre o grupo em que estava inserida e vice-versa. Há também os conceitos de comunicação, poder e liderança, estes dois últimos sendo atribuídos ao professor, por ele mesmo, e aceito sem contestações pelos alunos.

Certamente isso ocorre devido à influência social que o professor exerce sobre os alunos, tal como sua posição de autoridade e a possibilidade dele utilizar meios de coerção e recompensas para com os alunos integrantes do movimento, o que denota a ele várias formas de poder e liderança, como o poder formal (legitimado pelos alunos), o poder pessoal (pela influência social), a liderança formal (tem o poder legítimo) e a liderança informal (atua na manutenção do grupo).

Torna-se evidente ao longo do filme a irracionalidade dos integrantes do movimento, contemplando um termo muito interessante para descrever tal situação: o efeito manada. Este efeito manada refere-se ao que, desde os primórdios é observado na humanidade, que consiste em seguir os instintos e agir pelo meio em que a grande maioria está agindo, sem parar para refletir se tais ações condizem com os princípios individuais, se é correto agir de tal forma ou simplesmente para se perguntar o porquê de estar agindo assim. “Também Le Bom estava disposto a admitir que, às vezes, a moralidade das massas pode ser mais elevada do que a dos indivíduos que a compõem” FREUD (apud ENDO, 2013).

Isto é até um pouco engraçado e incompreensível, pois é deixado de forma clara no filme que todos que estão ligados direta ou indiretamente ao movimento, estão temerosos, com medo, tendo ainda um pouco de consciência sobre a magnitude com que tudo está ocorrendo. Mesmo assim mantém-se nesse processo grupal e de socialização, mudando atitudes e opiniões que antes eram próprias a cada um e formando novas que são próprias ao grupo.

Porém, há uma explicação plausível para isso. McDougall, em seu livro A mente grupal (1920), afirma que “(…) sob outras condições os afetos dos seres humanos dificilmente chegam ao nível que podem atingir numa massa, e, na verdade, é uma sensação prazerosa para os participantes entregar-se dessa maneira tão ilimitada a suas paixões e, enquanto isso, desaparecer na massa, perder a sensação de sua delimitação individual”. Ou seja, está o ser humano sob a égide das massas, necessita sentir-se como parte de algo maior, pois acredita que quanto maior o número de pessoas a quem igualar-se em um grupo, maior será sua força e felicidade, “Então a crítica do indivíduo se cala e ele se deixa deslizar para dentro do mesmo afeto” (MCDOUGALL, 1920).

Utilizando-se desse saber e da capacidade da retórica, Adolf Hitler conseguiu realizar todas as atrocidades do nazismo, por duas vias, uma conquistando apenas 10% da população alemã com suas palavras calorosas, tornando-a parte de seu movimento e outra onde o restante da população, mesmo sendo a maior parte não ativa no movimento, tornou-se de certa maneira refém deste. Era um grupo com os mesmos objetivos e com um líder a sua frente, aparentando assim ser mais forte que os indivíduos sozinhos que, seja por medo ou por comodismo, preferiram fingir não estarem vendo os acontecimentos à sua volta, como mortes e violências banais.

E é assim que, ainda hoje (talvez até com mais intensidade) a sociedade de modo geral e seus indivíduos vêm agindo, inconscientes de seus próprios atos, sempre procurando algo em que se encostar para fugir da responsabilidade de responder por si, do trabalho da autoanalise e reflexão, reprimindo sua individualidade em detrimento daquilo que o social ou contexto grupal diz ser o melhor, o mais correto.

Isto vai desde comprar um celular que está na moda, porque a maioria comprou e se você não adquirir você está errado até atos mais banais como assassinar pessoas a sangue frio porque seu grupo acha que é assim que deve ser. O mundo necessita que as pessoas saibam viver em grupo, comunidade e/ou sociedade. Porém, necessita também de pessoas que preservam sua individualidade e originalidade, pois a alienação é capaz de promover atos atrozes e hediondos. Para tanto, equilíbrio seria a palavra-chave, saber mediar ambas as coisas para se ter indivíduos e grupos saudáveis.

REFERÊNCIAS:

Filme A onda, 1981 – Alex Grasshoff

FREUD, Sigmund, 1856-1939. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923) / Sigmund Freud ; tradução Paulo César de Souza — São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Título original: Gesammelte Werke e Studienausgabe isbn 978-85-359-1871-7

MOSCOVICI, Fela. Desenvolvimento interpessoal: Leituras e exercícios de treinamento em grupo. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2002. CAP. 10: PARTICIPAÇÃO NO GRUPO.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

cartaz-a-onda

A ONDA

Direção: Dennis Gansel
Elenco: Jürgen Vogel, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Frederick Lau, Dennis Gansel
País: Alemanha
Ano: 2008
Classificação: 16

Psicóloga em formação no Centro Universitário Luterano de Palmas - CEULP/ULBRA e estagiária no Portal (En)Cena