pequena miss sunshine

A pequena Miss Sunshine: um estudo sobre a dinâmica familiar

“O verdadeiro fracassado não é alguém que não vence.
O verdadeiro fracassado é aquele que tem tanto medo de não vencer
que não chega a tentar”. – Vovô

O filme ‘A pequena Miss Sunshine’ gira em torno de uma família que atravessa um período de grandes dificuldades, cada integrante da família em sua individualidade nos mostra seus desafios e limitações, Richard é o pai frustrado com seu programa de auto-ajuda que deveria fazer das pessoas vencedores porém não consegue aplicar nem mesmo à sua própria vida, Sheryl a mãe que precisa se desdobrar para ajudar o marido, o irmão gay Frank, que tentou o suicídio depois de uma desilusão amorosa, o filho adolescente Dwayne mantém meses um voto de silêncio inspirado por Nietzsche a fim de conseguir se tornar um piloto de aviões, a pequena Olive que sonha em ser miss e ensaia diariamente uma coreografia com o avô que é viciado em heroína. Nem de longe possuem sua saúde mental perfeita, mas em prol do sonho de Olive de se tornar miss embarcam numa viagem, que além das surpresas no percurso, a apresentação de Olive traz para a família mudanças inimagináveis!

O desenrolar da história se dá na viagem de dois dias que a família faz rumo à Califórnia para Olive participar do concurso Pequena Miss Sunshine. O roteiro entrelaça os personagens de forma brilhante e eficiente, com argumentos que mantêm a história movendo sempre em frente como com a Kombi amarela em que viajam que precisa ser empurrada a cada parada. Mesclando frustrações com superação o filme também mistura pitadas de humor e drama e pela simplicidade da história envolve a todos.

A dinâmica familiar do filme enfatiza a questão da individualização dos que compõem a família e dividem o mesmo espaço, são preocupados com o sustento orgânico e saudável, no que diz respeito à situação financeira, todavia é visível o desinteresse de cada integrante desse grupo no que diz respeito ao implicar-se com as angústias e sofrimentos psíquicos dentro do ambiente familiar para com os outros constituintes da configuração total nomeada família. Tal fato aparece de modo sutilmente sintomático ao passo em que a família é apresentada aos observadores de modo individual, cada um com o seu nome, unicamente com o seu primeiro nome, e implicados em seus sofrimentos psíquicos e interesses pessoais. A ausência de um sobrenome que marca a identidade e demarca laços de parentesco e hipotética união – de forma tradicional e historicamente explicável – começa no filme como a primeira e principal característica marcante presente na família em questão, onde a desorganização ligada ao amparo psíquico e emocional é retratada com o pacto de silêncio do filho, o vício em drogas do avô, a tentativa de suicídio do tio, a preocupação e importância dispensadas pelo pai no que diz respeito ao “sucesso acima de tudo”, a mãe que visivelmente sofre ao notar a dinâmica familiar desorganizada e não consegue administrar a questão emocional relacionada a esse convívio e, finalmente, a filha mais nova que sendo uma criança, aparece no filme como o único laço que entrelaça as situações em que a família age em conjunto em prol de algo que beneficie a cada um de um modo singular.

Acerca das variáveis que determinam e influenciam a família, vale ressaltar as: ambientais, econômicas, social, cultural e política. Considera-se que, mesmo sendo uma família enquadrada dentro da classe média o ambiente de relação de todos desorganizado, sendo que a família é composta por seis pessoas que moram em uma casa com três quartos. Onde tio e o filho dividem um quarto, o avô dorme na sala, a filha dorme em um quarto e o casal divide o outro quarto. Já a questão cultural fica evidenciada no momento e que se pode perceber a dinâmica familiar na hora da refeição, onde todos se sentam à mesa para comerem juntos. Outro momento, em que a questão cultural aparece de maneira explicita, está no incentivo à competição em concursos de beleza e como esses eventos moldam a maneira das pessoas se comportarem em função desse tipo de competição.

Existem traços coerentes com as características das famílias Operaria e Burguesa no que diz respeito aos papeis sexuais de manutenção da casa e sustentação dos filhos, do mito da prosperidade a alcançar, do lar ser um lugar de refúgio e é um microssomo privado, além dos valores individuais buscados sejam de eficiência e competência, onde se motiva a competição e superação de limites.

Um ponto de análise interessante consiste no desempenho das funções da família. Biológicas: A família garante a sobrevivência e subsistência desta – mesmo que o filme não retrate completamente a fase em que os filhos eram recém-nascidos, porém como a família é ‘saudável organicamente’ e é possível perceber que a função biológica foi atendida. As funções psicológicas são exercidas por membros secundários. O avô da atenção e incentivo para Olive e o pai não exerce papel autoritário, mas sim financeiro, exerce também uma pressão psicológica em todos, pois não admite o fracasso individual. O tio exerce o papel de única pessoa com quem Dwayne se relaciona o que pode ser chamada de relação fraternal. E por fim a mãe demonstra preocupação com a família, se preocupando em maioria do filme com a realização das funções biológicas. Há sobreposição de fases, haja vista que a família encontra-se na fase de expansão, primeiramente com a aquisição do Tio Frank ao seu dia-a-dia e a presença do avô, porém quando o avô falece ocorre a fase da substituição.

O filme traz uma crítica violenta ao culto à beleza, aos estigmas de vencedores e perdedores, sugerindo que a vida não é um concurso permanente. A vida é fracassar, perder, cair, e, por fim, levantar-se para novamente empurrar aquela velha kombi no caminho certo. Talvez o sucesso não sejam todas as conquistas, mas sim todas as tentativas. Onde o ponto alto da história é a apresentação de Olive no concurso, em meio a meninas super-produzidas como bonecas de borracha a protagonista da história brilha pela naturalidade infantil que não traz a vitória no concurso, mas a vitória da família frente às suas adversidades.

‘Há dois tipos de pessoas nesse mundo, vencedores e perdedores.’ São frases como esta que permeiam os diálogos entre as personagens de Little Miss Sunshine” – pessoas que, como muitos de nós, não conseguem escapar ao sentimento clichê de sentirem-se obrigados ao sucesso, tanto profissional, quanto emocional…


FICHA TÉCNICA DO FILME

PEQUENA MISS SUNSHINE

Diretor: Jonathan Dayton, Valerie Faris
Elenco: Steve Carell, Toni Collette, Greg Kinnear, Alan Arkin, Cassandra Ashe, Abigail Breslin, Paul Dano.
Produção: Albert Berger, David T. Friendly, Peter Saraf, Marc Turtletaub, Ron Yerxa
Roteiro: Michael Arndt
Fotografia: Tim Suhrstedt
Trilha Sonora: Mychael Danna, Devotchka
Duração: 101 min.
Ano: 2006
País: EUA
Gênero: Comédia Dramática
Cor: Colorido
Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Big Beach Films / Bona Fide Productions / Deep River Productions / Third Gear Productions

PRÊMIOS

– Em 2007, conquistou os Oscars de Melhor Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Melhor Roteiro Original e foi indicado aos de Melhor Filme e Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin)

– Em 2007, conquistou os Bafta Film Awards de Melhor Ator Coadjuvante (Alan Arkin), Melhor Roteiro Original e foi indicado aos de Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin e Toni Collette), Melhor Filme e ao David Lean Award de Direção

– Em 2007, conquistou o César de Melhor Filme Estrangeiro.

– Em 2007, foi indicado aos Globos de Ouro de Melhor Filme – Comédia/ Musical e Atriz Coadjuvante (Toni Collette)

– Em 2007, foi indicado aos MTV Movie Awards de Melhor Filme e Performance Revelação (Abigail Braslin)
• O texto é adaptação de um trabalho realizado para disciplina Psicologia Familiar juntamente com as acadêmicas: Amanda Campos, Bruna Braga, Gabriela Pereira e Laís Campos.