A relação professor x aluno à luz da narrativa fílmica “Sociedade dos Poetas Mortos”

“’Carpe Diem’. Aproveitem o dia.
Façam suas vidas serem extraordinárias.”

Do professor aos seus alunos em Sociedade dos poetas mortos

 

As reflexões promovidas pelo texto “A psicopatologia do vínculo professor-aluno: o professor como agente de socialização” e pela narrativa fílmica “Sociedade dos Poetas Mortos” nos possibilita compreender as representações tecidas a partir das relações entre professor e aluno e como se dá a configuração nos espaços escolares. É certo que na escola, com as relações estabelecidas entre os sujeitos, o processo de significação acaba por influenciar a identidade social e cultural do sujeito no grupo. Tomemos cuidado para a dimensão desses significados que ganham expressões como: o/a professor/a, o/a aluno/a, a educação, o ensino, as pedagogias.

O filme Sociedade dos Poetas Mortos nos apresenta um modelo de escola marcada por um tempo e um espaço cronificados pelo ritmo do relógio. O tempo é pontuado a cada atividade que se desenrola no internato. O espaço é racionalizado e cada minuto se faz importante para os fins da Educação; educar dentro dos limites da tradição. Torna-se evidente, nessa narrativa, que não importa o quão diferente os alunos possam ser em termos de classe, gênero ou raça, pois estarão representados como unidade de identidade por meio do exercício de diferentes formas de poder. Há códigos sendo utilizados para comunicar essas idéias: lembremos da posição dos alunos na sala de aula, da composição do ambiente e das cenas que representam as relações entre alunos, professores e administradores.

 

 

É notória a utilização de um regime disciplinar fortemente marcado que vai desde a entrada dos alunos no internato até as atividades como a utilização da biblioteca, o uso dos dormitórios, do refeitório; o tempo é segmentado e marcado por horários rígidos. As reflexões nos apontam que tradição, honra e disciplina institui um tipo de saber, próprio das pedagogias tradicionais. Para Bohoslavsky (1993) essas pedagogias, em que o poder disciplinar marcado pelo tempo e espaço também disciplina, produzem um saber determinado, um saber que é também tradicional, um saber que produz poder e ao mesmo tempo um poder que produz saber. Na concepção do autor, este saber, nessas pedagogias tradicionais, é um saber específico, é o saber científico.

Sociedade dos Poetas Mortos se desenvolve em um colégio americano de 1959 que tem como pilares a Tradição, a Honra, a Disciplina e a Excelência. No internato masculino, tido como “o berço dos futuros líderes da América”, não há espaço para o feminino: os professores são homens, a direção da escola é masculina. A narrativa mostra uma história de padronização, de regulação e da busca da excelência por meio da competição: cada aluno traz em si o peso de buscar ser o melhor, o mais eficiente, de ter as melhores notas, os melhores resultados.

O professor John Keating (Robin Williams) ao chegar a esse ambiente conservador, revoluciona os métodos de ensino ao propor que os alunos aprendam a pensar por si mesmos. Há nas atitudes do professor, críticas à educação tradicional. Ele representa um novo ideal pedagógico. Para se ter ideia, já no primeiro dia letivo, o professor entra em sala de aula assobiando, passa pelos alunos com ar despreocupado e desperta olhares curiosos, encaminha-se para uma outra porta, de saída para o corredor, todos os alunos ficam apreensivos e sem saber o que fazer. O professor faz um sinal, pedindo que os estudantes o acompanhem. Eles chegam numa sala de troféus. Há fotos de alunos, remontando ao início do século XX, fazendo-nos voltar ao começo das atividades da escola. O professor pede silêncio. Os alunos demonstram tensão e ansiedade. O professor solicita a atenção de todos e pede que eles se voltem para as fotografias e observem os rostos de todos os que frequentaram a tradicional instituição de ensino em que eles se encontram. Num tom desafiador, o professor questiona: O que aconteceu com eles? O que fizeram de suas vidas? Onde estão agora? Perguntas como essas são lançadas aos alunos.

 


Ações como essa indicam que o professor, ao se utilizar de outros espaços não convencionais, acaba promovendo atividades também pouco convencionais aos alunos, e isso proporciona uma convivência democrática, de contato afetivo e próximo com seus alunos.

O filme é uma obra prima que critica os modelos ultrapassados de educação. O modo como as discussões são lançadas nos prendem do início ao fim da narrativa, isso se deve ao roteiro, a composição das cenas, a interpretação dos atores, ao zelo da equipe que dirigiu e produziu o longa.  Na narrativa é estabelecida a relação metafórica da juventude com o desejo de mudança, que pode ser percebida nas angústias e nos medos que os jovens tem de conduzirem as suas vidas. No processo de (re)afirmação da sua própria identidade, tudo o que esses jovens, imersos num turbilhão de emoções, querem é o direito de discordar, argumentar, criar, exercer sua liberdade. Eles querem traçar seus próprios caminhos, desejam realizar seus sonhos.  É nesse contexto que o filme tece cena após cena um panorama de reflexões acerca do que rege a vida do sujeito.

Há uma cena memorável na qual o professor solicita uma tarefa aos alunos para que eles criem poemas. Um dos alunos, o mais tímido do grupo, não acredita em seu talento para as palavras e não apresenta a tarefa. O professor não repreende, apenas acolhe as angústias e medos desse aluno, respeita o tempo dele, lhe passa confiança, e o convida a estar na frente e deixar seu recado.

 


O professor é o fundador da “Sociedade dos Poetas Mortos”, para ele os poetas mortos dedicavam-se a extrair a essência da vida. Encontros secretos passam a acontecer e numa das sessões da Sociedade – ambientada numa caverna, uma ode à Caverna de Platão – um dos seus alunos declama:

“Sonhamos com o amanhã e o amanhã não vem
Sonhamos com a glória que não desejamos
Sonhamos com um novo dia, quando este já chegou
E fugimos da batalha, uma que deve ser enfrentada
Mesmo assim dormimos

Ouvimos a chamada, mas não escutamos
Esperamos pelo futuro, quando não passa de planos.
Sonhamos com a sabedoria da qual fugimos diariamente
Oramos por um salvador quando a salvação esta nas nossas mãos

mesmo assim dormimos,
mesmo assim sonhamos,
mesmo assim tememos,
mesmo assim oramos,
mesmo assim dormimos.”


O professor em uma das sessões da Sociedade coloca que “medicina, advocacia, administração e engenharia são objetivos nobres, mas a poesia, o romance, o amor são para a vida toda. É para isso que vivemos!” O professor provoca os alunos a pensarem por si mesmos, a “tornarem as suas vidas extraordinárias” e institui como lema da Sociedade a máxima “aproveite o dia”, “Carpe Diem”.

 

Por meio das atitudes do professor, o vínculo é estabelecido. Seu relacionamento com os alunos traz possibilidades em tirá-los de sua passividade, provocando-os a uma reflexão sobre o conhecimento, sobre a vida. Questiona o professor: “Será que estamos fazendo valer nossa existência?” A narrativa mostra a história de um grupo de alunos que tem a oportunidade de trabalhar com um professor visionário, de atitudes inesperadas, que os instigou a pensar por conta própria. Professores como o do filme colocam as “estruturas” administrativas de qualquer instituição de ensino em alerta.

 

Bohoslavsky (1993) ilustra bem em sua produção quando afirma que ensinar os alunos a pensar e a exercer a reflexão crítica é uma meta que frequentemente mencionamos como inerente à função docente. No entanto, muitas vezes, alerta ele, isto não passa de uma formulação bem intencionada. A leitura do texto e a exposição do filme promovem reflexões acerca das pedagogias utilizadas nas escolas e universidades. Tais narrativas instigam quem ama a educação, quem busca ideal de reformulação, quem tem um profundo respeito e preocupação pelo aluno.  Estando num ambiente de Educação, seja como educando ou como educador, fica a inquietação: precisamos reformular nossas práticas, rever posturas e condutas e, principalmente, olhar para nós mesmos em busca daquilo que nos faça sentir orgulho do que fizemos e do que faremos com o que aprendemos.

 

Referência: 

BOHOSLAVSKY, Rodolfo H. A psicopatologia do vínculo professor-aluno: o professor como agente de socialização. In: PATTO, M. Helena S. (org.). Introdução à Psicologia Escolar. São Paulo: T.A. Queiroz, 1993.

 


FICHA TÉCNICA DO FILME

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Nome Original: DEAD POETS SOCIETY
Elenco Principal: Robin Williams (John Keating), Robert Sean Leonard (Neil Perry), Ethan Hawke (Todd Anderson), Josh Charles (Knox Overstreet) entre outros.
Duração: 129 min
Direção: Peter Weir
Roteiro: Tom Schulman
Música: Maurice Jarre
Fotografia: John Seale
Gênero: Drama
Ano: 1989
Estúdios: Touchstone Pictures

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com