Alan Turing e “O Jogo da Imitação”: o que significa ser humano?

Com oito indicações ao OSCAR:

Melhor Filme, Melhor Diretor (Morten Tyldum), Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Melhor Roteiro Adaptado (Graham Moore), Melhor Direção de Arte, Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora Original.

 

“O que eu sou? Sou uma máquina ou um ser humano? Um herói de guerra ou um criminoso?”

“O Jogo da Imitação” conta a história de um dos mais importantes cientistas do século XX, Alan Turing, responsável por descobertas em áreas que vão desde a computação até a biologia molecular. É o gênio que criou uma máquina, precursora dos computadores, capaz de quebrar o código da máquina alemã Enigma, ajudando os Aliados a vencer a Segunda Guerra Mundial, o que diminuiu de forma significativa muitas tragédias desenhadas em mapas de ataque alemães e, principalmente, segundo alguns historiadores, o tempo de duração da guerra. Com a publicação de vários artigos e os trabalhos realizados na Segunda Guerra, Turing revolucionou o campo da criptografia e seus métodos contribuíram com o desenvolvimento da área de Inteligência Artificial.

 

Alan Turing, Fotografado por Elliott & Fry studio em 29 de Março 1951

 

O herói de guerra e gênio da matemática morreu sozinho em sua casa (aos 41 anos –  1952) em meio às suas invenções, fórmulas e cianureto. Isso depois de ter sua mente e seu corpo destruído por um processo de castração química. Por quê? Por ser homossexual e, assim, não conseguir “controlar” seus desejos tão humanos em uma época e em um país (Inglaterra) que tal conduta era tida como uma conduta criminosa.

Até 1974 as conquistas de Turing durante a Segunda Guerra eram desconhecidas e foi apenas em 2013 que o “perdão” lhe foi concedido pela Rainha da Inglaterra. Nas palavras do ministro da Justiça, Chris Grayling, “Turing merece ser lembrado e reconhecido pela sua fantástica contribuição aos esforços de guerra e por seu legado à ciência. É um tributo apropriado a esse homem excepcional”.

 

 

Segundo o Diretor Morten Tyldum [1], duas grandes questões permeiam o filme: “O que significa estar vivo? O que significa ser humano?”.

Para mim Turing é tanto um filósofo quanto um matemático, porque suas ideias lidam com o que significa pensar. Só porque alguém ou alguma coisa pensa de forma diferente de você, isso não significa que ele(a) não esteja pensando.” (TYLDUM [1])

 “O Jogo da Imitação”, a expressão que deu nome ao filme, é o título de um dos capítulos de um famoso artigo de Turing, publicado na revista Mind [2]. O artigo propõe inicialmente examinar uma questão que permeia toda a sua obra:

‘As máquinas podem pensar?’ Isso deve começar com definições do significado dos termos “máquina” e “pensar”. As definições podem ser enquadradas de forma a refletir tanto quanto possível o uso normal das palavras, mas essa atitude é perigosa, pois se o significado das palavras “máquina” e “pensar” são definidos pela maneira como elas  são comumente usadas é difícil concluir que o entendimento do significado é a resposta para a pergunta… Em vez de tentar uma definição desse tipo, proponho substituir a questão por uma outra… A nova forma do problema pode ser descrita em termos de um jogo que chamamos de ‘jogo de imitação (Turing, [2])

Essa, então, é a proposta: um computador que fosse capaz de fazer o “jogo da imitação” de tal forma que em uma conversa entre um ser humano e uma máquina, uma terceira pessoa (que estivesse participando da conversa em outra sala) não conseguisse distinguir entre a máquina e o humano. Posteriormente, esse jogo foi denominado Teste de Turing.

 

 

O filme é uma adaptação do livro “Alan Turing: The Enigma”, escrito pelo matemático Andrew Hodges. O diretor Tyldum apresenta o filme como um quebra-cabeças formado a partir da junção (não linear) de três fases da vida de Turing:  quando ele estudou na Escola de Sherborne, na adolescência, e conheceu Christopher Morcom; na Segunda Guerra, quando ele liderou um grupo de gênios que desvendou o código da máquina alemã Enigma; e quando foi preso pelo crime de praticar condutas homossexuais.

“Sabe por que as pessoas gostam de violência? É porque faz você se sentir bem. Humanos acham a violência profundamente satisfatória. Mas retire a satisfação e o ato se torna vazio.” (Alan Turing – Filme)

Ao retratar a adolescência de Turing em 1928 (quando ele tinha 16 anos), é apresentado Christopher Morcom, seu único amigo na escola de Sherborne e seu primeiro amor (ainda que platônico), cuja morte prematura em 1930 marcou profundamente os rumos que Turing daria às suas pesquisas. Conforme relatado em [3], Alan tornou-se obcecado em desvendar a natureza da consciência, a sua estrutura e suas origens. Ele desejava entender o que tinha acontecido com Christopher, considerando um aspecto essencial: sua mente. […] E qualquer área do conhecimento que pudesse ter relevância nesse contexto tinha que ser explorada. Assim, ele mergulhou em trabalhos relacionados à biologia, filosofia, metafísica, lógica matemática e, até mesmo, mecânica quântica. Começou a entender, como natural, pensar sobre a mente como uma máquina inteligente, cujos processos podem ser modelados e previstos a partir do uso da lógica matemática.

Christopher Morcom e Alan Turing em 1928

 

Christopher deu a Turing um propósito, ainda que a ideia de um primeiro amor não vivido tenha contribuído ainda mais para amplificar alguns aspectos da sua personalidade, muitas vezes identificados como negativo, como sua arrogância e seu distanciamento das pessoas. Talvez o distanciamento fosse uma forma de sobreviver, já que seus pensamentos poderiam ser considerados complexos demais para a maioria das pessoas e sua homossexualidade era algo abominável no contexto em que vivia.

 

 

A segunda fase da vida de Turing é apresentada no período da Segunda Grande Guerra (1939-1945). Nessa fase, tem-se o encontro de Turing com Joan Clarke (interpretada por Keira Knightley), uma estudante de matemática de Cambridge. Foi a única mulher que trabalhou como criptonalista em sua equipe. De uma família de eruditos, conseguiu, em parte, romper algumas barreiras impostas às mulheres na época. Talvez a proximidade entre ela e Turing tenha relação com o fato de ambos estarem à margem da sociedade da época, como se eles não se enquadrassem no contexto.

Durante os anos que viveram em meio a códigos e a pressão da guerra, tornaram-se grandes amigos, inclusive, como relata Joan Clarke em [4], em uma das viagens que fizeram, Alan, que não era propenso a contatos físicos, beijou-a e a pediu em casamento. Considerando que na época uma mulher tinha que, por obrigação social, casar-se e um homem não podia revelar-se homossexual, a questão do casamento entre amigos pareceu algo coerente a ser feito. Mas Alan não conseguiu levar isso adiante e o noivado foi rompido, mas não a amizade. De certa forma, Joan foi uma das poucas pessoas que Turing deixou se aproximar a ponto de enxergá-lo sem a máscara da genialidade ou da arrogância.

 

“A Guerra se arrastou por mais dois solitários anos. E a cada dia mostrávamos nossos suados cálculos. Todo dia decidíamos quem vivia ou morria. Todo dia ajudávamos os Aliados a vencerem e ninguém sabia… E o povo fala da Guerra como uma batalha épica entre civilizações. Liberdade contra tirania. Democracia contra Nazismo. Exército de milhões sangrando no chão. Frotas de navios afundando no oceano. Aviões lançando bombas do céu. A Guerra não era assim para nós. Éramos só meia dúzia de entusiastas numa vila ao sul da Inglaterra.”(Alan Turing – Filme)

A Segunda Guerra Mundial foi o marco de uma grande mudança: o vencedor não seria o mais forte, mas sim o mais preparado. E estar preparado envolvia a intersecção entre dois universos até então praticamente disjuntos: ciência e tecnologia. O conhecimento científico que antes estava preso aos muros da universidade, na cabeça de alguns pesquisadores, poderia, de fato, ser transformado em tecnologia capaz de mudar os rumos da história. E foi isso que Alan Turing fez. Mostrou que os artigos publicados antes mesmo dele completar 24 anos não eram uma série de linhas imaginárias ou conjuntos puramente abstratos povoando sua complexa mente, suas ideias poderiam ser usadas para criar máquinas ou definir métodos que resultariam, dentre outras coisas, no fim de uma guerra.

A equipe que trabalhou com ele, especialmente Joan Clarke, teve um papel importante em todo o processo mas, sem a máquina criada por Turing, que no filme foi denominada Christopher (em alusão ao seu primeiro amor), possivelmente os códigos da Enigma demorariam ainda mais a serem desvendados, o que prorrogaria a guerra e suas terríveis consequências. Ter nas mãos o quadro estratégico dos ataques alemães também significou ter que tomar decisões complexas. Como disse Turing no filme, “às vezes não podemos fazer o que nos faz sentir bem, nós temos que fazer o que é lógico”.

 

 

A terceira parte do quebra-cabeças é Turing no final da vida, aos 41 anos de idade, com dificuldade em fazer uma palavra-cruzada, com medo de ser afastado daquilo que lhe restou: suas máquinas e seus códigos. Segundo [5], “Turing admitiu abertamente a sua homossexualidade e como castigo o estado ofereceu-lhe uma escolha entre a prisão ou um tratamento hormonal (a castração química). Ele escolheu a segunda opção, que previsivelmente provocou danos em seu corpo e em sua mente. A condenação também custou ao herói de guerra suas habilitações de segurança e o impediram de viajar para os EUA e outros países”.  A interpretação de Benedict Cumberbatch trouxe à tona toda a fragilidade de Turing. De certa forma, sua mente sempre tão dinâmica e repleta de dados, parecia vazia e sem alicerce. Essa tragédia, que elimina um universo único, que é um ser humano, Turing não conseguiu evitar. A ignorância e a intransigência de certas pessoas, baseadas em determinadas leis, foram maiores que sua inteligência e espírito.

 

Alan: Conseguiu o que quis, não foi? Um trabalho, um marido, uma vida normal.

Joan: Ninguém normal poderia ter feito aquilo. Hoje, pela manhã, eu estava em um trem que passou por uma cidade que não existiria se não fosse graças a você. Comprei uma passagem de um homem que, possivelmente, estaria morto, se não fosse graças a você. Li em meu trabalho que todo um campo de investigação científica só existe graças a você. Agora, se você desejava ser normal… Posso te prometer que eu não iria querer isso. O mundo é, precisamente, um lugar infinitamente melhor por você não desejar ser normal.

Joan foi amiga de Turing ao longo de toda a sua breve vida e, também, sua confidente.  A forma como esse relacionamento é conduzido no filme é um dos seus principais méritos. A cena em que vimos um Alan quebrado e confuso, longe de seu habitual orgulho e do controle de suas habilidades cognitivas, questionando se era um inadequado, ou se não era “normal” o suficiente para ser feliz, é um dos momentos mais sensíveis do filme.

Alan Turing aos cinco anos de idade

 

Voltando às duas questões iniciais: “O que significa estar vivo? O que significa ser humano?” Não temos essa resposta no filme, nem creio que dar essas respostas era a pretensão do diretor. As questões levantadas já são suficientes para nos fazer refletir sobre uma parte importante da história, mas especialmente sobre questões relacionadas àquilo que consideramos certo ou errado, humano ou monstruoso, moral ou imoral.

Por muito tempo a Inglaterra relutou em conceder o perdão a Turing, pois dizia que era inapropriado conceder o “perdão” a quem “foi devidamente condenado pelo o que então era um delito”. A palavra “perdão” considerando, nesse contexto, o sujeito que perdoa e aquele que é perdoado carrega em si uma triste ironia. Estão perdoando alguém cujo crime foi ser humano, que buscava se sentir vivo, que usava sua mente complexa para tentar entender como pensamos e, considerando que isso seja algo maravilhoso, como podemos construir máquinas que possam ter a sua própria maneira de pensar.

 

[1] http://www.theguardian.com/science/2014/nov/14/imitation-game-alan-turing-benedict-cumberbatch

[2] Turing, A.M. (1950). Computing machinery and intelligence. Mind, 59, 433-460. Disponível em: http://www.loebner.net/Prizef/TuringArticle.html

[3] http://www.nndb.com/people/952/000023883/

[4] My Engagement to Alan Turing by Joan Clarke (later Joan Murray). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MB2e9R7bXCk

[5] PICKETT, Brent. Alan Turing, Natural Law & Homosexuality. Dez, 2014. Disponível em: http://www.thecritique.com/articles/decoding-apologies-to-alan-turing-is-post-mortem-pardon-meaningless/

 

Trailer:

 

 Mais filmes indicados ao OSCAR 2015: http://ulbra-to.br/encena/categorias/oscar-2015

FICHA TÉCNICA DO FILME

O JOGO DA IMITAÇÃO

Título Original: The Imitation Game
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Andrew Hodges (book), Graham Moore (screenplay)
Elenco Principal: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode
Ano: 2014
REFERÊNCIAS

[1] http://www.theguardian.com/science/2014/nov/14/imitation-game-alan-turing-benedict-cumberbatch

[2] Turing, A.M. (1950). Computing machinery and intelligence. Mind, 59, 433-460. Disponível em: http://www.loebner.net/Prizef/TuringArticle.html

[3] http://www.nndb.com/people/952/000023883/

[4] My Engagement to Alan Turing by Joan Clarke (later Joan Murray). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MB2e9R7bXCk

[5] PICKETT, Brent. Alan Turing, Natural Law & Homosexuality. Dez, 2014. Disponível em: http://www.thecritique.com/articles/decoding-apologies-to-alan-turing-is-post-mortem-pardon-meaningless/

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: