Alma em Nietzsche

Já é um jargão no meio acadêmico, mas não custa lembrar que a filosofia não é a mesma depois de Nietzsche. Ferrenho opositor do dualismo platônico e seu típico antagonismo entre a alma e o corpo (sendo a primeira superior ao segundo, para o ateniense), Nietzsche fez balançar os alicerces teóricos sob os quais descansavam incólumes todas as definições/expressões vigentes sobre a Ética e Moral.

 

 

E falar de conceitos sobre alma, espírito ou metafísica, em Nietzsche, sempre requer uma boa dose de expertise. Mas, ao que parece, Mauro Araújo de Sousa (pós-doutor em Filosofia pela UFSCar) conseguiu, no livro “Alma em Nietzsche” (Editora Leya, 187 páginas), mostrar com propriedade a famosa “vontade de potência” anunciada pelo alemão e que, em linhas gerais, é decorrente de pulsões que devem ser nutridas, desde que tais movimentos fortaleçam o homem. Afinal, “a vida não precisa de nada que a justifique, até porque ela se justifica por si própria”.

No livro, Mauro Araújo faz uma ampla análise de um dos objetos de estudo de Nietzsche, a Teoria das Ideias, alvo de ataque por suscitar uma desvalorização da vida terrena, “a única via que temos […] e pela qual todos devemos respeito”. E é justamente neste aspecto que o filósofo de Röcken vê similaridades entre o Platonismo e o Cristianismo (chamado por ele de Platonismo para as massas).

Em “Alma em Nietzsche”, Mauro Araújo realça um Nietzsche que defende a vida “enquanto vontade de poder, que diz sim para essa vida do modo como ela é”. Daí a crítica dos nietzschianos aos terapeutas e/ou sacerdotes que trabalham para suprimir os desejos de seus pacientes/rebanhos. Ou seja, Nietzsche acreditava que devia se viver com intensidade, “porém, não significa que o filósofo alemão era um indisciplinado. Pelo contrário, pois, para ele, viver intensamente é aproveitar cada momento desta vida terrena, desta configuração de forças [instintivas]”. Este conceito, em certo sentido, se assemelha ao estado de “atenção plena”, sendo que nada (nenhum fenômeno) pode ser descartado.

Há de se respeitar o corpo, já que não haveria uma dicotomia entre este e o espírito, “porque o corpo é espírito e vice-versa”. Desta forma, faz-se necessário cuidar do corpo, fortalecê-lo, pois em Nietzsche o corpo todo pensa, “tem inúmeros modos de pensar”. A sociedade é que teria escolhido (e privilegiado) um único modo de pensar, modo este denominado pelo alemão de “a pequena razão”, porque somos “oriundos de uma história da razão que nos faz pensar assim, somos oriundos de um certo racionalismo” (racionalismo este comparado a uma patologia).

 

Então, se há um conceito de espírito, em Nietzsche esta definição não deve negligenciar o corpo. Mauro Araújo vê justamente neste item uma das maiores originalidades do alemão, já que aqui aparece a primeira crítica contundente ao idealismo metafísico reforçado pelos neoplatônicos e pela patrística. Afinal, Nietzsche apontou que há construções morais duvidosas (para não dizer destrutivas) decorrentes deste modo de pensar, que acabou por descambar no que ele denominou de niilismo (ressentimento, paralisia humana diante das mudanças). Há, então, um convite à “transvaloração dos valores vigentes”, pois tudo o que foi ensinado até então pode não ser o melhor modelo.

“Alma em Nietzsche” demonstra o homem não como algo dividido, mas, antes, “um tipo humano pelo qual a terra se justifica porque ele se faz um com ela e em toda a sua pluralidade de forças”. Um homem que supera a si próprio (além-do-homem) e que, portanto, supera a sua própria mediocridade e formas engessadas de ver/interagir com o mundo, pois “quando se coloca o centro de gravidade da vida não na vida mas no ‘além’ – no nada -, tira-se da vida o seu centro de gravidade”.

Em resumo, este “super-homem” nietzschiano de que trata “Alma em Nietzsche” percebe-se como parte integrante da Terra e aprende a lidar com as forças antagônicas, tirando delas o melhor proveito. Ter a consciência de que as oposições são complementares não é tarefa fácil, como bem pontua Mauro Araújo. O livro é um bom começo para iniciar a reflexão.


INFORMAÇÕES TÉCNICAS DO LIVRO

ALMA EM NIETZSCHE

Autor: Mauro Araújo Sousa
Editora: Leya
Ano: 2013

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).