Amado Jorge: a literatura com cravo e canela

Sônia Braga e Juliana Paes como Gabriela

Quem não se lembra de Gabriela (cravo e canela)? Seja interpretada por Sônia Braga ou Juliana Paes, a personagem é uma das mais conhecidas (e uma das morenas mais desejadas) da televisão brasileira. O cheiro de cravo e a cor da canela povoam o imaginário brasileiro desde que a personagem saiu das páginas do romance de Jorge Amado e começou a visitar as casas brasileiras por meio da televisão.

O romance Gabriela foi publicado 1958 e foi pela primeira vez para as telinhas em 1961, em uma produção da extinta TV Tupi. No entanto, em 1975, Sônia Braga marcaria para sempre seu nome na história da TV ao dar vida à personagem principal (com direito à inesquecível cena do telhado), na produção da TV Globo, assinada por Walter George Durst. A mais recente visita ao texto do escritor baiano foi exibida em 2012, com a adaptação de Walcyr Carrasco, em forma de macrossérie.
O criador de tão conhecida personagem é Jorge Amado, um dos mais célebres escritores da língua portuguesa!

Nesta semana em que comemoramos os 101 anos de seu nascimento, Jorge Amado é relembrado por sua importância no cenário literário brasileiro, no cenário cultural baiano, no cenário linguístico da língua portuguesa, uma vez que o reconhecimento sobre a importância do conjunto sua obra continua crescendo no Brasil e no exterior.

Jorge Amado retratou da melhor maneira possível as diversidades culturais do Brasil, voltando seu olhar especialmente para o Nordeste brasileiro em um momento em que o país estava começando e visualizar as dificuldades por que passavam aquela região. Suas obras já foram publicadas em 49 línguas e 55 países.

Sua produção está permeada por elementos de sua vivência e de sua participação no cenário político, cultural, social brasileiro. O escritor nasceu em 10 de agosto de 1912, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho de fazendeiro de cacau, passou sua infância em Ilhéus, onde fez os estudos secundários. Neste momento inicia seu trabalho em jornais e começa a participar da vida literária.

O primeiro romance, O país do carnaval, foi publicado em 1931. Em 1933, casou-se com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila, e publicou seu segundo romance, Cacau. Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935 e, militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.

Em 1945, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso.

Jorge Amado e Zélia Gattai

Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai e em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. O escritor, novamente, teve que se exilar com a família, agora na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso. Neste período, em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.

Quando retornou ao Brasil, em 1955, Jorge Amado afastou-se da militância política e dedicou-se inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.
Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.

A obra de Jorge Amado recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).

O escritor recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina. Também recebeu o título de Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.

Jorge Amado era simpatizante do candomblé, religião na qual exercia o posto de honra de Obá de Xangô no Ilê Opó Afonjá, do qual muito se orgulhava. Tinha muitos amigos no candomblé, como as mães de santo Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Stella de Oxóssi, Olga de Alaketu, Mãe Mirinha do Portão, Mãe Cleusa Millet, Mãe Carmem e o pai de santo Luís da Muriçoca.

A literatura de Jorge Amado foi, inúmeras vezes, adaptada para cinema, teatro e televisão. Também foi tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro. Somente na TV aberta foram onze adaptações das obras de Jorge Amado. Novelas e minisséries deram rostos, trejeitos e vozes aos típicos personagens do escritor, colaborando para a difusão de sua obra. O escritor sempre declarou que, apesar de liberar suas obras para a adaptação na TV, preferia não assistir ao resultado.

Betty Faria e Joana Fomm em Tieta

Além da morena brejeira com cor de cravo e cheiro de canela, que mexia com a imaginação dos homens da cidade de Ilhéus, outras personagens ficaram conhecidas. Tieta, a famosa personagem de Tieta do Agreste, em 1989, ganhou popularidade quando Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares adaptaram o romance para exibição na Globo. Tereza Batista, na minissérie estrelada por Patrícia França, foi assinada por Vicente Sesso em 1992. A sensual professora de culinária Dona Flor, interpretada por Giulia Gam em 1998, trouxe a divertida história de uma mulher entre os maridos Vadinho e Teodoro.

O cinema também rendeu-se à literatura amadiana: Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), Tenda dos Milagres (1977), Gabriela (1983), Jubiabá (1983), Tieta do Agreste (1996), Pastores da Noite (2003), Quincas Berro D’Água (2010) e Capitães de Areia (2011).

Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendona em Dona Flor e Seus Dois Maridos

Jorge Amado soube como revelar a beleza e as características do povo, da cultura, da sensualidade da Bahia como nenhum outro escritor conseguiu. A partir dele, todo o país pode conhecer mais o jeito agreste de Ilhéus e Itabuna, o sofrimento nos campos de cultivo de cacau, as ruas, as cores e o sabor de Salvador.

Jorge Amado e José Saramago

Teve amigos em diversas esferas da sociedade. Correspondeu-se com os brasileiros Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e Gilberto Freyre, entre outros; Pablo Neruda, Gabriel García Márquez e José Saramago, entre tantos outros estrangeiros. No campo da política, a correspondência se estabeleceu com nomes os mais variados como: Juscelino Kubitschek, François Mitterrand e Antônio Carlos Magalhães.

Um acervo com mais de cem mil páginas em fase de catalogação está na Fundação Casa de Jorge Amado, uma organização não-governamental e sem fins lucrativos que ocupa o casarão que fica de frente para o Largo do Pelourinho, em Salvador. É uma instituição cultural com várias atividades e um núcleo de pesquisas, com documentação sobre o próprio Jorge Amado, Zélia Gattai e a literatura baiana, aberta à visitação e dando destaque a cursos, seminários, oficinas, ciclos de conferências, palestras, lançamentos de livros e discos, exposições, com enfoque nos temas literários, artísticos e das ciências humanas.

A pedido do escritor, o símbolo da Fundação é Exu, um dos mais poderosos orixás da liturgia do candomblé:

Quem guarda os caminhos da cidade do Salvador da Bahia é Exu, orixá dos mais importantes na liturgia dos candomblés, orixá do movimento, por muitos confundido com o diabo no sincretismo com a religião católica, pois ele é malicioso e arreliento, não sabe estar quieto, gosta de confusão e de aperreio. Postado nas encruzilhadas de todos os caminhos, escondido na meia-luz da aurora ou do crepúsculo, na barra da manhã, no cair da tarde, no escuro da noite, Exu guarda sua cidade bem-amada. Ai de quem aqui desembarcar com malévolas intenções, com o coração de ódio ou de inveja, ou para aqui se dirigir tangido pela violência ou pelo azedume: o povo dessa cidade é doce e cordial e Exu tranca seus caminhos ao falso e ao perverso. (AMADO, 2002).

Escolhido o símbolo, seu grande amigo e membro fundador da instituição, Carybé, tratou de personificá-lo através de um desenho para identificar a Fundação e conferir personalidade e reconhecimento às ações da instituição.

Referências:

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e mistérios. 42 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.

FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO. Salvador: Casa de Palavras, 2008. ISBN: 978-85-7278-108-4.

FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO: catálogo do acervo de documentos / Myriam Fraga, apresentação. Salvador: Casa de Palavras, 2009. ISBN: 978-85-7278-121-3.

FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO. Zélia Gattai. Salvador: Casa de Palavras, 2008. ISBN: 978-85-7278-106-0.

Kyldes Batista Vicente
Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA (PosCom-UFBA). Mestre em Letras e Linguística (UFG). Licenciada em Letras (UFG). É professora da SEDUC e da Unitins. Atua em pesquisa e desenvolve projetos nas áreas de literatura, televisão, teleficção seriada e adaptação literária. Desenvolve, com outros pesquisadores do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Mídia, os projetos de Extensão “Cinema e Literatura em Debate” e “Interlúdio Literário”. E-mail: kyldesv@gmail.com