Como Treinar seu Dragão: análises contingenciais

How to Train Your Dragon, 2010 (Como Treinar seu Dragão, título em português), é um filme de animação computadorizada,produzido pela Dream Works Studios com base no livro de mesmo nome “How to Train Your Dragon” (2003). O filme conta a história de Soluço, um garoto de 13 anos, filho do chefe de uma tribo de Vikingsque habita em uma ilha nórdica. Soluço é a vergonha da tribo, sempre se mete em problemas, causando verdadeiras catástrofes na aldeia. Ele vive em guerra contra feras destemidas que sempre atacam sua aldeia em procura de alimento: os Dragões.

 

Em meio aos conflitos da tribo com os seres alados, Soluço em um passeio pela floresta encontra, ferido e escondido em meio à vegetação, o mais temido por eles: Fúria da Noite. Banguela, perde parte do planador da cauda em um acidente e não consegue mais voar. Soluço constrói uma prótese para sua cauda que permite à Banguela voar, mas desde que Soluço esteja com ele para manusear o planador postiço.

 

Aos poucos, com o convívio, os dois – criança e dragão – desenvolvem uma relação de amizade e cumplicidade, descobrem que tudo o que haviam aprendido um sobre o outro estava errado. O garoto aprende como conviver amigavelmente com os dragões, adotando para si o Dragão Fúria da Noite, o qual ele batiza de Banguela. Neste período o pai do menino está em uma viagem à procura do ninho dos dragões, com a missão de exterminar toda a espécie. Soluço está na ilha com as outras crianças da aldeia participando de um treinamento para se tornar um Viking matador de dragões, como seu pai e todos os seus antepassados.

 

Nessa relação Soluço aprende segredos sobre o trato de dragões, os quais permitem que ele consiga se sair bem no treinamento para matar dragões, sem precisar ferir seus amigos. O modo como Soluço se destaca no treinamento surpreende à todas as outras crianças, que não entendem de onde vem à habilidade do garoto com os dragões. Até o momento Soluço era conhecido em toda aldeia por ser desajeitado, covarde e fraco.

Quando seu pai retorna ao clã, este está decepcionado por não encontrar o ninho dos dragões. Há um incidente no torneio de formatura das crianças, e Soluço quase é morto por um dragão que pretendia atacá-lo. Neste momento, Banguela aparece para defender Soluço. É neste momento que todos na tribo, inclusive o seu pai, descobrem o segredo de seu sucesso no duelo com dragões: sua amizade com Banguela. O garoto ainda tenta convencer a todos de que eles não precisam matar dragões, mas ninguém lhe dá ouvidos. O Pai de Soluço aprisiona Banguela e volta com ele para o oceano a fim de descobrir a ilha que é ninho dos dragões.

 

 

Ao encontrá-la, eles se deparam com um dragão gigantesco, jamais visto. Eles resolvem enfrentá-lo, mas logo estão em desvantagem. Ao mesmo tempo, Soluço já ensinara as outras crianças da ilha como montar em dragões e voa com eles para encontrarem-se com seu pai. Chegando lá, ocorre uma batalha com o dragão gigante, o qual conseguem derrotar. A partir de então, todos: Viking’s e dragões, passam a conviver juntos e em harmonia. Soluço, desse modo, prova ser um grande Viking como seu pai e seus antepassados, mesmo não tendo coragem, altura e/ou condicionamento físico para tanto.

 

Da Teoria

 

B.F. Skinner (1904 – 1990)

Segundo Skinner (2000), para a Análise do Comportamento (AC), o comportamento é desenvolvido na interação entre eventos biológicos e ambientais. O comportamento não acontece sem um organismo ou sem um ambiente. O comportamento é função de três níveis de seleção. O primeiro é o nível filogenético, onde se incluem todos os comportamentos respondentes e outras predisposições geneticamente determinadas ou influenciadas. O segundo nível é o ontogenético, que diz respeito da história de vida da pessoa, enquanto organismo individual. E, por fim, o terceiro nível que é o cultural, que trada da influência dos valores, crenças e práticas de um determinado grupo sobre o indivíduo.

A análise funcional do comportamento consiste na busca dos determinantes da ocorrência de um comportamento, cuja fundamentação encontra-se nos padrões dos comportamentos operante e respondente (MOREIRA & MEDEIROS, 2007). A análise funcional do comportamento é entendida como a identificação de comportamentos e as relações relevantes entre eles. Investigar o comportamento funcionalmente refere-se à busca da função do comportamento e não de sua estrutura ou forma.

A contingência constitui uma unidade de análise do nível de seleção ontogenético (comportamento operante) e explica a evolução e a manutenção dos comportamentos. Deste modo, as contingências podem ser naturais ou artificiais, o que não tem relação com biológico ou social. As contingências naturais são inerentes à própria vida e produzem efeitos mais fortes e duradouros sobre o comportamento. Em oposição, as contingências artificiais são justapostas às experiências particulares. São “planejadas” e não ocorrem naturalmente quando tal tarefa é executada (idem).

De acordo com Moreira e Medeiros (2007), a tarefa realizada em uma análise funcional do comportamento consiste em identificar o comportamento a ser analisado, investigando as relações entre as respostas dos indivíduos aos estímulos ambientais, definindo se o mesmo é operante ou respondente, identificando os determinantes do comportamento, ou seja, as contingências nas quais o comportamento ocorre, para só então prever a sua ocorrência e controlá-lo, no sentido de aumentar ou diminuir a sua probabilidade de ocorrência.

A ênfase da análise funcional do comportamento está na operação de consequênciação, por reforçamento ou punição. É através da consequênciação que os comportamentos são selecionados, fortalecidos ou enfraquecidos, e através das mudanças graduais que eles são mudados, transformados ou criados. Assim, em uma Cadeia de Respostas, antecedentes – denominados estímulos discriminativos, ocorridos antes de comportamentos reforçados – gradualmente passam a atuar como consequências reforçadoras para outros comportamentos, os quais, inicialmente, não afetavam.

Contudo, os antecedentes que precedem uma punição passam a atuar como estímulos punitivos quando aplicados após outros comportamentos. Então, pode-se afirmar que os eventos ambientais que precedem uma relação comportamento-consequência não só afetam este comportamento, por antecedência, como passam a afetar, por consequênciação, outros comportamentos anteriores, estabelecendo uma relação múltipla chamada contingência do comportamento.

Os vários estudos de consequênciação mostram que em circunstâncias em que o comportamento ocorre e nas quais é sistematicamente consequênciado […] acabam também por exercer fortes influências sobre as ocorrências futuras desta classe de comportamento; e estas circunstâncias passam a atuar como condições facilitadoras (ou inibidoras) do comportamento em questão (MATOS, 2001, p. 146).

A terapia comportamental compreende a análise funcional das contingências apresentadas por meio dos comportamentos e queixas do cliente. Para identificar as possíveis causas e variáveis que estão mantendo determinado comportamento, é necessário fazer uma análise profunda dos dados coletados, para posteriormente aplicar a intervenção, ou seja, buscar estratégias que possam auxiliar o cliente criar novos meios para modificar a situação problema.

As contingências estão relacionadas às interações entre o indivíduo e o meio, pode indicar também qualquer relação de dependência estabelecida entre o organismo e o ambiente. Através da análise das contingências é possível montar probabilidades que indicam a possibilidade de ocorrer determinada ação.

O Terapeuta comportamental foca no estudo das contingências que estão envolvidas nos comportamentos do cliente. Para isso é necessário haver entre eles um vínculo que facilite a construção dos objetivos e metas a serem alcançados na terapia. O profissional, na clínica, parte das informações apresentadas pelo cliente. Com isso, a análise funcional propõe ao indivíduo se tornar mais consciente de suas ações por meio da aprendizagem da análise funcional. Tal como, conhecer a si mesmo e alterar o ambiente conforme suas necessidades.

A Análise Funcional de filmes parece ser um importante instrumento para aplicação e domínios dos conceitos e técnica da Análise do Comportamento, uma vez que as situações dramatizadas tem correlação direta com as experimentadas no cotidiano da vida real. Optou-se, nessa análise, focar na relação interpessoal entre pais e filhos por acreditar-se que o filme: Como Treinar seu Dragão, oferece ao terapeuta, na clínica, instrumentos suficientes para trabalhar essa relação.

 

A análise funcional de algumas cenas

 

Para analisar as contingências encontradas no filme, partimos da unidade mínima funcional de análise do condicionamento operante: Contingência de três termos: Sd – R -> Sc, onde:

• Sd indica estímulos ambientais.
• S antes do R – ambiente antes da ação.
• R indica resposta (ou comportamento).
• O traço, uma probabilidade de a resposta ocorrer.
• A seta uma certeza que haverá consequência.
• Sc é o ambiente depois da ação.(Moreira & Medeiros, 2007).

Pode-se identificar que desde a morte da mãe de Soluço, ele não consegue estabelecer um vínculo afetivo com seu pai. Ele acaba se atrapalhando ao realizar tarefas para as quais não tem nenhuma aptidão. Para conseguir a aprovação de seu pai Soluço aceita participar do treinamentoviking com seu tio para aprender a matar dragões, o que chamamos de Operação Motivacional. Assim temos:

Sd (tentativa de obter aprovação do pai) – R (aceitar participar do treinamento, estabelecer relação com Banguela, aprender sobre dragões, frequentar aulas e treinar dragões na arena) -> Sc (aprovação social da família e aldeia).

 

Quando encontra Soluço, ele não é sociável. Soluço percebe que ele não é a fera que muitos acreditam que ele seja, mas não sabe como fazer para se aproximar. Ele percebe que Banguela está com fome e traz alimento:

Sd (Banguela não consegue se alimentar) – R (Levar comida para Banguela) -> Sc (Banguela permite a aproximação de Soluço).

 

Outro problema era o fato de Banguela não conseguir voar, soluço então cria um aeroplano para a cauda de Soluço, o que permite que ele volte a voar:

Sd (Banguela não consegue voar e sair do abismo em que caiu) – R (Construir aeroplano para a cauda de Banguela) -> Sc (Banguela consegue levantar vôo).

O segredo entre Soluço e Banguela é ameaçado quando Astrid (uma das crianças da aldeia) descobre sobre sua amizade com o dragão. Soluço então a leva para um voo com Banguela e mostra pra ela que os dragões não são uma ameaça como todos acreditavam:

Sd (Ameaça verbal de Astrid de contar à aldeia que Soluço tem amizade com dragões) – R(Levar Astrid para voar e lhe mostrar uma outra realidade sobre os dragões) -> Sc (Astrid se convence de que Soluço está certo e não conta nada para a aldeia).

Quando o pai de Soluço volta à aldeia é descobre que seu filho tem habilidade no trato com dragões, achou que finalmente eles tinham algo sobre o que conversarem. Para poder conseguir a aprovação de seu pai, soluço não fala de sua amizade com Banguela:

Sd (Pai se aproxima do Soluço) – R (esconder do pai sua amizade com um dragão) -> Sc(receber elogios do pai).

Da Análise Funcional

A análise funcional na clínica, no primeiro momento, é hipotética. Por meio da observação sistemática e da manutenção de alguns elementos das contingências na vida do cliente é que o terapeuta identificará quais os reforçadores que contribuem para a manutenção do comportamento indesejado.

Se o comportamento é controlado pelas contingências, em resultado do(s) reforçador(es), o terapeuta, utiliza-se da análise funcional para identificar as contingências anteriores a construir junto com o cliente um plano de ação, com objetivo de que o cliente substitua o repertório comportamental indesejado. O cliente na Terapia Comportamental é estimulado a aprender novas contingências para o controle do seu bem estar pessoal e social.

O terapeuta, nesse sentido, atua como um agente facilitador, apontando, a partir dos comportamentos verbais e não verbais do cliente que forem emitidos durante a sessão, os estímulos antecedentes que funcionam de contexto para o comportamento problema, bem como seus reforçadores.

A Análise Funcional de filmes, como o: Como Treinar seu Dragão, parece ser um importante instrumento sobre o qual o terapeuta utilizando-se da Análise do Comportamento pode trabalhar questões como dificuldade de relacionamento interpessoal entre pais e filhos. Nesse caso o terapeuta vai identificar os reforçadores necessários para que o cliente substitua o repertório comportamental indesejado, que vão desde incentivar o diálogo entra ambas as partes, atividades de lazer etc. O que vai determinar a intervenção melhor indicada são as contingências e os estímulos antecedentes causadores do comportamento problema.

REFERÊNCIAS:

MOREIRA, M. B.; MEDEIROS, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007. 221 p.

MATOS, M. A. Análise de Contingências no Aprender e no Ensinar. In: ALENCAR, E. S. (Org). Novas contribuições da Psicologia aos Processos de Ensino e Aprendizagem. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2001. p. 146

SÉNÉCHAL-MACHADO, A.M.L. Uma visão panorâmica da terapia comportamental de orientação behaviorista radical. Disponível em http://www.profala.com/artpsico63.htm. Acesso em: 16/03/2014.

SKINNER, B. F. Ciência e Comportamento Humano. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FICHA TÉCNICA:

COMO TREINAR SEU DRAGÃO

Gênero: Animação
Direção: Chris Sanders, Dean De Blois
Duração: 98 min.
Ano: 2010
País: Estados Unidos

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com