As aventuras de Pi

Com onze indicações ao Oscar:

melhor filme, diretor (Ang Lee), roteiro adaptado, fotografia, edição, trilha sonora original, canção original, efeitos visuais, edição de som, mixagem de som, design de produção

Imagine-se no meio do oceano pacifico, em um bote salva vidas na companhia de um tigre, sem água potável e comida. Tudo o que você tem é a infinidade do oceano pela frente, e mais nada.

Imaginou?

Se prepare, isso é o mais perto que você vai conseguir chegar da experiência vivida por  Pi Patel (Suraj Sharma) após escapar com vida do naufrágio  onde perdeu toda sua família.

Pretendo não tecer uma narrativa muito aprofundada, nem detalhista do desenrolar da trama ou dos principais acontecimentos do filme, a fim de não frustrar quem ainda não o viu. Tão pouco proponho uma leitura baseado na luta pela sobrevivência e no encontro com o divino, outros aspectos do filme mais debatidos pela crítica. Em minha visão, As aventura de Pi é, além de tudo isso, a viagem do personagem principal em busca de si mesmo.

As aventuras de Pi (Life of Pi), é o nome do longa baseado no romance de Yann Martel com mesmo nome, publicado em 2001. A narrativa conta a história de um jovem indiano que se vê obrigado a deixar sua terra e partir para o Canadá. A Família de Pi tem um zoológico em Pondicherry, na Índia, mas está sem dinheiro para manter os animas. Sem apoio financeiro do município, o pai de Pi tem a ideia de levar a família para o Canadá, onde pretende vender os animais e começarem um nova vida.

Piscine Molitor (nome verdadeiro de Pi Patel) se torna um personagem principal cativante, já nas primeira cenas. A empatia com o personagem é instantânea, em todos os seus aspectos. Sua fé particular e inabalável do talvez seja um pontos mais marcantes da trama. Também é curioso o fato de ele não oscilar em sua devoção entre as três religiões que, a priori, seriam distintas – hinduísmo, cristianismo e islamismo – em nenhum momento.

O jovem Pi parece sempre estar em busca de um equilíbrio interior. E não mede esforços em provar suas ideias. O ambiente familiar de Pi sempre foi propício para isso, seu pai muito cético, era ateu e sempre estimulou o perfil corajoso e inquieto do filho. Sua mãe também sempre apoiou a fé do garoto, e via nela uma ponte com seus antepassados.

A notícia da mudança para o Canadá não foi bem recebida por Pi, que estava começando a construir sua vida em Pondicherry. Ele tinha acabado de conhecer seu primeiro e grande amor. Abandonar tudo o que havia construído até então na Índia e migrar para uma nova vida em uma terra desconhecida parecia loucura para o jovem, mas ele acabou se rendendo à vontade de seu pai. Pi e sua família partiram para o Canadá em um navio, transportando também os animais do zoológico. E começa a jornada do rapaz indiano de nome estranho, em busca do autoconhecimento.

Durante a viagem, em meio a uma tempestade, acontece o naufrágio. Pi é o único sobrevivente, e assiste impotente o navio afundando no meio do oceano pacifico, levando consigo sua família e tudo o que eles tinham. Quando amanhece ,o rapaz está um bote salva vidas, rodeado de água e na companhia de uma orangotango (suco de laranja), uma zebra, uma hiena e um tigre-de-bengala (Richard Parker).

Em meio aos diversos acontecimentos, a hiena ataca e mata a zebra que já estava ferida, em seguida a orangotango também morre vítima da hiena, esta, por sua vez, é assassinada pelo tigre. A partir desse evento, Pi e o tigre passam a lutar pela sobrevivência individualmente, ocupando o mesmo espaço.

Para se livrar dos ataques do predador, Pi constrói uma espécie de jangada com os coletes salva vidas e os remos do bote, mantendo uma distância segura do tigre. O mais impressionante em toda a trama são os embates entre ambos que, de inimigos, com o passar do tempo, se tornam amigos e cúmplices. É só quando aceita o tigre Richard Parker como uma fera, respeitando os instintos do animal, que Pi consegue estabelecer uma relação segura para ambos.

Os dois se tornam um só, ajudando-se mutuamente em vários momentos decisivos para a sobrevivência de ambos, como quando, sem alimento, o barco é atacado por um cardume de peixes voadores, e Richard Parker divide com Pi o peixe que ele havia capturado. Eles entendem que para escapar daquela situação, mas que tudo, eles precisariam um do outro. O próprio Pi, em um determinado momento do filme assume que sem Richard Parker ele não teria sobrevivido tanto tempo a deriva. Sua luta para sobreviver ao animal, o manteve vivo no Pacífico.

Em várias cenas o céu se confunde com o oceano. Entre golfinhos, baleias, tubarões e várias tempestades, os dois permanecem firmes, almejando encontrar uma saída para aquela situação. Frente a frente com o tigre, ele consegue ver seus olhos refletidos no do animal, como se os dois fossem apenas um.

Quando já não restavam mais esperanças e a morte se torna certa, eles atracaram em uma ilha flutuante paradisíaca. Um lugar, sem precedentes, com água potável e alimento abundante para ambos viverem ali pelo resto de suas vidas. Mas, graças ao tigre, Pi percebe que o lugar escondia mais segredos que encantos. Ao encontrar um dente em uma flor na copa da árvore em que dormia, o rapaz percebeu que a ilha cobrava à noite, o que de bom grado oferecia durante o dia.

Ao amanhecer, de volta ao bote, Pi chama por seu amigo Richard Parker e o dois voltam junto para o seio oceano em busca de terra firme. Passa-se mais algum tempo, surge um navio no horizonte, mas eles não conseguem serem vistos, depois de outra forte tempestade, quando o rapaz já havia desistido da vida, ele acorda em uma praia na costa do México. Fraco, caído na areia, Pi assiste a  seu amigo, Richard Parker, correndo para dentro da vegetação sem olhar para trás.

Ao ser resgatado por um grupo de pescadores e contar sua história, Pi recebe a visita de alguns agentes da seguradora do navio que não acreditam em sua teoria mirabolante de como teria sobrevivido tantos meses, no meio do oceano, sem preparo algum, na companhia de um tigre-de-bengala. Eles exigem que Pi lhes conte uma história não fantasiosa.

O indiano então conta uma versão da história onde teriam sobrevivido ele, sua mãe, o cozinheiro do navio e um marinheiro. O cozinheiro era um homem de motivos duvidosos e acabou matando o marinheiro que já estava ferido, a fim de conseguir alimento para a tripulação do bote. A vítima seguinte do cozinheiro teria sido sua mãe, tomado pela fúria de ver sua mãe sendo morta, Pi se revolta contra o cozinheiro e acaba o matando. Nessa versão da história, a mãe seria a orangotango, o marinheiro a zebra, o cozinheiro a hiena e o próprio Pi o tigre-de-bengala.

Não há como afirmar qual das histórias contadas é a verdadeira e qual é a falsa. Se tomarmos a segunda como verdadeira, podemos analisar toda a literalidade da viagem de Pi como uma transição em busca de si mesmo. Só quando ele aceita a natureza de seu companheiro interior, o tigre na figura de uma fera instintiva, e passa a conviver seguramente com os aspectos positivos e negativos de sua personalidade, ele encontra saída segura para a situação em que está imerso, chegando à terra firme.

O meio do oceano, onde o céu e a água se encontram, pode ser compreendido como um plano atemporal, onde passado, presente e futuro se encontraram e se conectam. Esse plano denota o local de confronto, onde o jovem espera pacientemente por sua transição, que exige tempo e, em determinados momentos, se torna conflituosa. Nos diversos momentos em que ele está cara a cara com o tigre, e enxerga seu reflexo nos olhos da fera, Pi enxerga a si mesmo, se percebe. Ele próprio começa a racionalizar e entende que, sem enfrentar o tigre, não poderia ter sobrevivido.  A ilha flutuante parece ser o ultimo estágio dessa passagem.

Nesse ponto ele precisa decidir entre aceitar uma nova vida, sem sua família e seu lar – único território conhecido – ou ficar naquele local e perecer. Quando parte da ilha, sem direção alguma, Pi luta bravamente contra o oceano, obstinado a encontrar salvação. Ao acordar na praia, tendo passado por toda aquela situação, Pi é um novo homem. E demonstra esse novo caráter e maturidade, ao conversar com o escritor, contando a ele toda sua história e aceitando conscientemente suas perdas. Segundo o próprio Pi, uma lição aprendida de tudo isso é que a vida também é feita de perdas e que devemos aprender a abrir mão das coisas, para podermos seguir em frente.

Independente de fantasia ou verdade, por mais que tenham sido criadas, ambas as histórias são reais. Fica a critério de o telespectador escolher para si aquela com a qual mais se identifica, se inspirando na viagem de Pi, espelhando-se no personagem, em busca do seu autoconhecimento.


FICHA TÉCNICA DO FILME

AS AVENTURAS DE PI

Diretor: Ang Lee
Elenco: Tobey Maguire, Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon
Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark
Roteiro: David Magee, baseado na novela Yann Martel
Fotografia: Claudio Miranda
Trilha Sonora: Mychael Danna
Duração: 129 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Fox 2000 Pictures / Rhythm and Hues
Classificação: Livre

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com