As Virgens suicidas: juventude sufocada por escolhas que não são suas

Na primeira cena do filme As Virgens Suicidas a câmera passeia por uma rua comum a qualquer cidade dos EUA.  Belas casas, com jardins bem cuidados e árvores frondosas na frente – uma representação banal do modelo familiar americano. Há uma tranquilidade presente no cenário, uma paz constante onde todos são intérpretes desta felicidade idílica. A câmera para diante de uma das casas, não é qualquer uma, nela reside os Lisbons.

E, como o título sugere e o narrador informa logo no início da trama, foram ali que as irmãs Lux (Kirsten Dusnt), Mary (A.J. Cook), Cecilia (Hanna Hall), Therese (Leslie Hayman) e Bonnie Lisbon (Chelsea Swain) tiraram a própria vida em menos de um ano. Numa paisagem de tanta perfeição, vislumbraremos suas rachaduras.

Apaixonado pelas vizinhas da frente, Tim (Jonathan Tucker) tenta, junto com um grupo de amigos, decifrar o grande mistério por trás da trágica morte das garotas. Onde foi que tudo começou? Por que elas fizeram isso? Existem culpados? Mas, como toda tragédia, existem mais perguntas do que respostas. Sofia Coppola além de inserir uma aura de mistério em torno dos Lisbons, também parece querer pincelar tudo com toques de uma tragédia grega.

As irmãs quando surgem, passeiam languidas e etéreas, ninfas aquém do mundo e dos simples mortais que a cercam. É fácil entender e logo compartilhar da fixação dos jovens pelas meninas; as adolescentes são filmadas com um mistério nos gestos, nos sorrisos acompanhados de um olhar que parecem não fixar em nada e sim trespassar.

Há uma sensualidade natural e ingênua permeando suas personalidades intrigantes. São seres incomuns para a época, crianças adentrando à força o bosque escuro e desconhecido dos adultos. Infelizmente, os pais não enxergam isso, percebem que mudanças estão ocorrendo (mas no exterior).

O perigo está fora, então é melhor manter todos seguros dentro dos muros do lar. Inconscientes que a mudança real é interior, de dentro para fora. Em uma metáfora, seria como a virgem da caverna e o dragão fossem a mesma pessoa. A virgem se sacrifica para o monstro. Devorada por ele, não deixa de existir, mas simplesmente faz parte dele. Os cavaleiros, que seriam os pais, pensam estar guerreando contra o mal, defendendo os fracos, quando, sem saber, não estão defendendo as filhas do mal e sim guerreando contra elas.

As Virgens Suicidas é um retrato amargo de uma juventude sufocada por escolhas que não são suas. Como a história se passa na década de 1970, o adolescente é um personagem novo na composição familiar; o que ele pensa, o que quer ainda é uma novidade, e por essa invisibilidade não são ouvidos. Antes, só tinham que seguir os sonhos e planos dos pais, modelos prontos para serem copiados. A depressão ainda não é uma palavra corrente, e muito menos reconhecida pela sociedade. Assim, Sofia Coppola praticamente cria uma ode a esta doença que permeia não só aos jovens, mais adultos, velhos e até crianças no século XXI. E tudo em As Virgens Suicidas é melancólico, é poético, é sensual porque a juventude remete a tudo isso; Ícaros prontos para queimar suas asas em desobediência aos pais, com o único objetivo: a liberdade e os sonhos, o desejo de fugir a regra, buscar a plenitude de ser único.

Este foi o primeiro filme da americana Sofia Coppola, antes disso carregou por um longo tempo o peso das críticas negativas por sua participação como atriz no filme O Poderoso Chefão III (The Godfather: Part III), em 1990. E ser filha de um dos mais importantes diretores de Hollywood criou uma grande rejeição a sua primeira incursão importante à frente das telas, justificando sua presença em uma produção tão importante mais por nepotismo do que talento. Mas, por esses acasos do destino, se não fosse este contratempo talvez nunca conhecêssemos a verdadeira Sofia, que, quando atrás das câmeras, demonstra segurança e sensibilidade únicas, a ponto de se distanciar do estilo de seu pai.

No seu primeiro filme, Sofia já traz na sua estrutura vários aspectos que seriam freqüentes em sua filmografia: a introspecção, a inércia da vida, a solidão e o contraponto, a diferença que o outro pode fazer nas vidas dos seus personagens solitários.

Como a poesia de Carlos Drummond de Andrade, para Sofia não importa o caminho e sim a pedra que impede o trajeto, ela tem a escolha de seguir por algum meio ou parar e desistir. Em As Virgens Suicidas, infelizmente as Lisbons escolhem a última alternativa.

 

FICHA TÉCNICA

 

AS VIRGENS SUICIDAS

Título Original: The Virgin Suicides
Gênero: Drama
Direção e Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: A.J. Cook, Anthony DeSimone, Chelsea Swain, Danny De Vito, Giovanni Ribisi, Hanna Hall, Hayden Christensen, James Woods, Jonathan Tucker, Josh Harnett, Kathleen Turner, Kirsten Dunst, Leslie Hayman, Michael Paré, Scott Glenn
Produção: Chris Hanley, Dan Halsted, Francis Ford Coppola, Julie Costanzo
Fotografia: Edward Lachman
Ano:1999

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.
Autor / Co-Autores: