“Caminhos da Floresta” e a psicologia dos contos de fadas

Com 3 indicações ao Oscar 2015:

Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep); Melhor Desenho de Produção (Anna Pinnock eDennis Gassner); e Melhor Figurino.

Caminhos da floresta é uma síntese de vários contos de fadas. No filme encontramos Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Cinderela e João e o pé de feijão. Todas as histórias desses personagens se entrelaçam ao redor dos personagens principais que são o Padeiro e sua Mulher, que foram amaldiçoados por uma bruxa e por isso não podem ter filhos.

 

É interessante observar que o nome do casal não é mencionado. Sobre isso podemos explorar algumas coisas. Bem os contos de fadas nos apresentam figuras arquetípicas, como o herói, a bruxa, fadas, ogros, etc. Ou seja, os contos nos apresentam figuras presentes no inconsciente coletivo, mas que não são humanas, mas representam aspectos da psique coletiva.

O Padeiro é o herói da trama e como herói ele representa um ego arquetípico que é edificado pelo Self. Ou seja, um modelo de ego ideal e um modelo de comportamento para a personalidade consciente. É aquele que age em harmonia com seus instintos e com a totalidade psíquica e que vai estabelecer o equilíbrio perdido da consciência coletiva.

 

 

O fato do padeiro não ter nome simboliza um caráter não pessoal e coletivo. Quando nomeamos algo damos forma a ele e trazemos ao nível pessoal. Essa impessoalidade do herói do filme é um pouco problemática, uma vez que não nos ligamos a ele de forma pessoal, em comparação aos outros heróis de contos de fadas, como Aladim, Peter Pan etc. Significando, então, que esse ego ideal ainda não é capaz de ser totalmente assimilado pela consciência humana.

 

 

O herói do filme é chamado pela sua função – a de padeiro. Ele não é um guerreiro, nem um nobre e não é valente. Sua função é sovar massa e assar os pães e doces do reino. O ato de sovar a massa e alimentar as pessoas está ligado a função sensação. Função essa que liga-nos à realidade, aos cinco sentidos e ao aqui e agora.

O fato de ele ser uma pessoa simples se opõe a ideia contemporânea que o homem precisa ser bem sucedido, um guerreiro másculo e viril. E essa figura do padeiro, que alimenta as pessoas e é sensível mostra justamente o que falta na nossa consciência ocidental para uma ampliação de horizontes.

 

E através dessa jornada narrada no filme, o padeiro entra em contato com a intuição (função essa que se opõe a sensação), simbolizada pela floresta e pelos seres que nela habitam. Ele como é visto terá de confiar naquilo que ele não vê. E não pode provar e a força que o impulsiona a isso é sua mulher que deseja ardentemente um filho.

A ação se inicia quando a bruxa – que também não tem nome – revela ao Padeiro e sua esposa que o pai dele roubou hortaliças de seu jardim, para satisfazer o desejo da esposa, e como punição ele teve de entregar a ela sua filha (Rapunzel), que agora vive em uma torre sem portas. Além disso, o pai do herói roubou alguns feijões do jardim da bruxa e a bruxa o puniu jogando um feitiço que deixou toda sua descendência estéril.

Mas a bruxa lhe oferece uma saída. Para reverter o feitiço o padeiro deverá conseguir quatro objetos até a meia noite. São eles: uma vaca branca, uma capa vermelha, um cabelo amarelo e um sapato que brilha como o ouro.

 

 

Bem todos os objetos solicitados pela bruxa pertencem aos personagens de contos de fadas. A vaca pertence a João, a capa a Chapeuzinho, o cabelo a Rapunzel e o sapato a Cinderela. E dessa forma todos esses personagens clássicos se fundem na história do casal e da bruxa.

Não vou entrar aqui nos detalhes da trama e nem de cada personagem de contos de fadas, pois o texto se tornaria longo demais. Os detalhes de Cinderela, Chapeuzinho, João e Rapunzel devem ser esmiuçados em textos diferentes. Vou apenas me ater ao simbolismo de cada um dos artefatos.

 

 

Bem os objetos solicitados pela bruxa são em numero de quatro. O quatro na psicologia analítica simboliza a totalidade. Dessa forma a jornada do herói no filme é em busca a totalidade. Além disso, as cores da vaca, da capa e do cabelo e sapato se referem a estados da alquimia conhecidos como albedo, rubedo e citrino.

O albedo simboliza uma purificação, um renascimento, o clareamento das ideias, a paz e a tranquilidade. É o momento no qual se ressurge das sombras. Mas é um estado impossível de ser mantido, e logo o citrino surge.

O citrino é um estágio intermediário. Nesse estágio há a transformação da prata em ouro. É o despertar do estado paradisíaco do albedo. A alma se volta para as questões mundanas, para a racionalidade.

A rubedo é o fogo, o sangue, o calor. Depois da calmaria do albedo, chegamos à paixão, ao desejo, à ação. É a transmutação através do fogo. É a vontade de agir. Nessa fase não há mais medo.

 

A cor e estado alquímico que falta nesses objetos é o negro da nigredo. Entretanto ela se apresenta simbolizada pela floresta escura, onde os personagens encaram seus medos e temores. Na segunda parte de filme, após os conhecidos finais felizes dos contos clássico terem ocorrido, a nigredo se faz presente.

Após o Padeiro e sua mulher conseguirem os objetos e a bruxa desfazer a maldição, o casal tem seu sonhado filho. E os personagens clássicos encontram seus finais felizes conhecidos. Até a bruxa consegue o que deseja, uma vez que sua intenção não era ajudar o casal, mas se tornar mais jovem e bela para que Rapunzel não tivesse mais vergonha dela.

 

 

Entretanto, um pé de feijão cresce sem o conhecimento dos personagens, e desse pé a esposa do gigante desce buscando vingança contra quem matou seu marido, ou seja, João. E após isso tudo muda, os personagens mostram seus aspectos sombrios, o príncipe, por exemplo, é infiel a Cinderela. E isso vem nos mostrar que na vida real após um final feliz vem sempre um novo desafio, um novo recomeço. A vida é cíclica e não sabemos quais novos desafios e aspectos sombrios nossos iremos encarar logo em seguida.

 

 

O fato de ninguém ter visto o feijão cair mostra que o desafio se formou no inconsciente primeiramente. Ao cair no solo ele é reprimido e pela consciência e se avoluma chegando a alcançar o céu.

Os gigantes nos contos de fadas simbolizam complexos autônomos de forte conteúdo emocional. Eles são representados como lentos e estúpidos. Psicologicamente também representam uma supervalorização de si próprio, mas que por vezes é necessária, pois caso contrário a pessoa não consegue realizar nada e assim sair de um estado que é apenas confortável. Os gigantes então representam certa megalomania do ego e por serem lentos e estúpidos mostram o tamanho do esforço que deve ser feito para sair da zona de conforto.

 

 

A gigante desce do céu, mostrando que um complexo e uma forte emoção atrelada a ele estava apenas no mundo das ideias, sendo racionalizada. Portanto, aquele final feliz escondia um segredo, uma megalomania inflacionaria que estava disfarçada e reprimida.

 

 

O feijão cai no solo e cresce atingindo o céu. Ou seja, esse pé de feijão tem a função de ligar dois mundos com a função de trazer o que há neles para o mundo humano. Na Mitologia o mundo subterrâneo e o céu representado pelo Olimpo não se misturavam. Cada um dos reinos tinha o seu deus regente e em raríssimas exceções eles iam ao reino um do outro. Apenas um deus podia transitar em todos os reinos e no mundo humano, esse deus era Hermes.

Podemos interpretar a vingança da mulher gigante como uma vingança contra a inflação humana. Uma deusa que desce dos céus para punir todos os eu tentam se igualar aos deuses.

 

 

A segunda parte do filme pode ser desconcertante para os mais sensíveis, pois mostra a noite escura da alma humana, a Nigredo. Ela mostra a vaidade, a ambição, a cobiça, a mesquinhez, o adultério, ou seja, toda a parte obscura que nossa sociedade judaico-cristã tenta de forma capenga reprimir.

 

O filme é então uma critica a essa sociedade, que busca finais felizes sem antes olhar suas mazelas, e que transfere para o outro seus aspectos sombrios ,(uma das cenas desconcertantes é quando os personagens tentam encontrar um culpado pela vinda da gigante) sem assumir seus erros e responsabilidades.

 

Enquanto olharmos apenas para a pureza, racionalidade (albedo), iluminação (citrino) e a ação (rubedo), e nos esquecermos e desprezarmos nossa sombra, não prestaremos a devida atenção aquilo que plantamos e sempre seremos pegos por gigantes vingativos. Somente com o enfrentamento dessa sombra podemos nos tornar mais humanos.

 

Trailer

 

Mais filmes indicados ao OSCAR 2015: http://ulbra-to.br/encena/categorias/oscar-2015


FICHA TÉCNICA DO FILME

CAMINHOS DA FLORESTA

Título Original (EUA): Into the Woods (Original)
Direção: Rob Marshall
Duração: 125 minutos
Classificação: 12 anos
Ano: 2015

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.