“Cinderela” e o processo de individuação nos contos de fadas

Concorre ao OSCAR de Melhor Figurino

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Era uma vez uma bela menina chamada Ella que vivia com seus pais em um paraíso idílico,
até a morte de sua boa mãe… 

Assim começa a nova adaptação do famoso conto de fadas Cinderela, com a morte da boa mãe e a subsequente substituição pela madrasta má. Antes de analisar essa substituição da figura materna, é importante observarmos alguns pontos do começo da história, bem como a quantidade de personagens.

No início então temos apenas três personagens: Ella, sua mãe e seu pai, ou seja, uma tríade. Para Carl Jung (1979), o número quatro representa a totalidade (as quatro estações do ano, os quatro evangelistas, os quatro rios que saem do Paraíso, as quatro funções da consciência etc).

No filme começamos com apenas três personagens. Isso significa que falta um elemento para a totalidade. Esse quarto elemento é o que está mais próximo ao inconsciente e vem trazer aquilo que está faltando para a consciência, e costuma ser o depositário das projeções dos aspectos sombrio da consciência. Essa trindade inicial então é destruída com a morte da mãe da menina. Nos contos de fadas é comum a heroína perder a mãe e aparecer uma substituta má.

A morte da boa mãe simboliza um momento crítico na vida da criança, onde há a perda do paraíso e da identificação com as figuras parentais. Ela ocorre justamente na passagem da infância para a adolescência, quando os pais são vistos com seres imperfeitos e iniciando nesse instante a criação do ego, por meio do choque e do conflito.

De acordo Von Franz (2010):

“A morte da mãe significa, pois, simbolicamente, que a menina toma consciência de que não pode mais se identificar a ela, ainda que a relação positiva essencial e afetiva permaneça. A morte da mãe é, portanto, o início do processo de individuação.”

Na versão de Cinderela escrita pelos irmãos Grimm, a boa mãe morre e sobre seu tumulo cresce uma árvore onde pousa uma pomba branca que aconselha a menina. Segundo Von Franz (2010), algo sobrenatural sobrevive à morte da figura materna positiva e a substitui; uma espécie de fetiche a qual encarna o espírito da mãe. O filme segue a versão de Charles Perrault onde – ao invés da árvore – temos uma Fada Madrinha que vem ajudar a menina. Ela também simboliza o espírito da boa mãe e também da velha sábia, como veremos a seguir.

A trindade inicial se transforma em um quatérnio feminino, formado por Ella, a madrasta e as filhas dela. Mas, antes de nos aprofundarmos nesse quatérnio é importante mencionar que no começo do filme é salientado o fato de Ella não ser uma princesa, mas alguém do povo. Isso é incomum nos contos de fadas, onde geralmente a heroína é alguém da família real.

Essa mudança vai trazer algumas repercussões interessantes para o filme. Repercussões essas não exploradas no conto original, mas que trazem uma dimensão interessante para a história, e para a compreensão de algumas mudanças na consciência coletiva.

No processo de individuação da mulher, a identificação com a mãe boa constitui um sério risco, pois é mais comum a mulher seguir padrões instituídos pela sociedade e pela família (não é à toa que a moda é esmagadoramente voltada para o público feminino). Assim, ter uma mãe boa demais pode ser muito prejudicial à individuação da mulher, pois ela terá muita dificuldade em se desligar dos padrões impostos pela mãe, e se tornará uma simples cópia.

Vemos isso claramente nas irmãs postiças de Cinderela, elas não possuem personalidade própria, se vestem igual e seguem exatamente o que a mãe diz.  A mulher precisa ter um comportamento feminino autentico e não um modelo feminino típico. Dessa forma ela poderá mostrar a sua individualidade e a sua diferença no mundo. Nesse contexto, a madrasta simboliza a boa mãe, num pólo ambivalente, que deixou de ser boa, e devorou a personalidade de suas filhas, tornando-se também: a madrasta.

Em nossa sociedade ocidental a figura da mãe é permeada apenas pelo lado luminoso. Os aspectos sombrios da figura da Grande Mãe foram suprimidos em nossa sociedade, isso afetou diretamente as mães pessoais, que se sentem no dever de serem perfeitamente boas. No filme, a mãe de Cinderela aconselha sua filha a ser sempre gentil e corajosa, ou seja: sempre bondosa! A madrasta surge na história para trazer outra dimensão à personalidade de Cinderela. A figura da madrasta vem para complementar a ingenuidade e a doçura sem limites da moça.

Cinderela é aquela que busca a sua individualidade, por isso é a heroína e também por isso sofre perseguições. Se observarmos grupos de meninas podemos ver que elas se comportam e se vestem de forma igual para se sentirem aceitas e pertencentes. Aquelas que de certa forma não se encaixam nesses padrões são postas de lado e perseguidas.

Ser aceita é parte do comportamento e busca do feminino, e não ser traz muito sofrimento a mulher, como vemos em Cinderela. No entanto, esse sofrimento é compensado com uma personalidade mais sólida e mais individuada. Vemos que Cinderela busca a individuação quando ela pede ao pai um galho de árvore e não o mesmo que suas irmãs. A árvore é símbolo do processo de individuação, simbolizando o crescimento natural da personalidade.

Agora se observarmos do ponto de vista da madrasta (que aqui possui uma dimensão mais humana que no conto), ela faz de tudo para ser aceita e inclusa. Seus atos são validados pela dor de competir com a esposa morta pelo amor do marido. É bem notório que quando alguém morre passa a ocupar um status de alguém impecável e sem defeitos. Pois bem, a madrasta é humana e sofre pelo fato de competir com uma “deusa”, por essa razão ela passa a perseguir a filha dessa mulher, uma vez que ela lembra a esposa morta.

Ella então se torna uma serviçal e passa a dormir entre as cinzas.  As cinzas representam a humilhação, descida de classe social, bem como a contrição e a humildade. Elas podem ser associadas a operação alquímica da mortificatio, que representa a experiência da morte e da transformação do corpo em cinzas por meio da queima no fogo das emoções. É uma derrota para o ego, um encontro com seus aspectos sombrios.

Isso significa que o aspecto ingênuo e infantil da psique de Cinderela deve morrer, antes que ela possa entrar contato com o masculino. Ella passa então a se chamar Cinderela, ou Gata Borralheira. Houve uma iniciação e agora ela não é mais a mesma pessoa. A garota indignada foge para a floresta e encontra o príncipe que está em uma caçada a um cervo.

Nesse ponto há uma mudança significativa em relação ao conto: passamos a ver o dilema do príncipe! Coisa que no conto original não há. Descobrimos então que o príncipe, não tem mãe e está com seu pai doente. Sendo necessário que ele encontre uma esposa para que possa assumir o posto de rei. Mas essa esposa deve ser uma princesa. Nos contos de fadas clássicos é comum termos um rei que está doente, ou velho demais e que precisa ser substituído.

O rei que simboliza a manifestação do Self na consciência coletiva precisa se renovar. Isso significa que os símbolos coletivos do Self se desgastam. As religiões, as convicções e as verdades, tudo envelhece e precisa ser renovado. Tudo o que dirigiu uma sociedade por determinado tempo é deficiente, no sentido que envelhece (VON FRANZ, 2011). E o rei doente é justamente esse símbolo e o príncipe é aquele que trará essa renovação.

No filme vemos que o reino é composto apenas por figuras masculinas. Isso significa que a consciência coletiva está se dirigindo unilateralmente e sendo pautada apenas pelo princípio masculino. Há carência de Eros nas relações e tudo deve ser seguido conforme as normas e as regras estipuladas, e elas devem ser mantidas. Von Franz (2011) aponta que o feminino é muito mais subjetivo e voltado para a exceção. A mulher rompe as regras em função dos sentimentos. O feminino traz a flexibilidade.

Portanto há uma ênfase exagerada na consciência coletiva para os princípios masculinos. E todo exagero é prejudicial. É extremamente importante que busquemos o equilíbrio desses aspectos complementares uma vez que temos que conviver com eles tanto interna quanto externamente.

O príncipe ao encontrar Cinderela desiste de caçar a corça, pois percebe que isso era algo que ele fazia de forma automática, apenas porque todos faziam. Ele se apaixona por ela, uma simples camponesa, e não desiste de fazer dela sua esposa. Ou seja, ele abre a exceção em função do seu sentimento. Podemos então dizer que ele possui uma relação mais saudável com o feminino e com sua função sentimento. Ele está apto então a trazer esse equilíbrio para a consciência.

O rei nos contos deve ser fértil para que o reino também seja, e ele não pode ser fértil sem sua contraparte feminina. Assim como a mulher também não se torna fértil sem sua contraparte masculina. Ao encontrar Cinderela e se volta para uma nova dimensão de sua alma, a da exceção em favor do sentimento, e ela se volta para uma coragem e uma força interior desconhecida. Acontece então o famoso baile e Cinderela é proibida de ir pela madrasta. E nesse instante aparece a famosa fada madrinha.

A fada como interpretamos anteriormente simboliza o espírito da boa mãe que permanece na heroína e no filme ela também aparece com o aspecto de velha sabia. Como no conto ela usa de magia para transformar os animais em cocheiros, a abóbora em carruagem e o vestido rasgado em um novo. O ato de usar magia nos contos de fadas para escapar de um perigo ou conseguir algo, significa que não se está pronto para enfrentar um conflito diretamente e para isso se usa um subterfúgio para contornar a situação.

Psicologicamente significa que, por vezes, não podemos enfrentar diretamente um conflito e precisamos aguardar o momento certo para isso. Esses conflitos muito difíceis não devem ser enfrentados apenas pelo ego, eles precisam da ajuda do Self. No filme, então, Cinderela não enfrenta a sociedade com sua identidade real. Ela precisou da magia para fingir quem não era e assim poder ser aos poucos conhecida pela sua beleza interna.

É interessante observar que a única coisa que a Fada Madrinha não transformou foi o sapato. Esse ela criou “do nada”! Os sapatos, assim como a roupa, estão ligados a persona. Com eles mantemos os pés na terra, simbolizando a atitude da realidade. Com ele podemos seguir um caminho e também pisar em alguém, mostrando o aspecto de poder do indivíduo (VON FRANZ, 2002). No filme e no conto eles mostram a classe social da pessoa.

Cinderela então está em busca de uma realidade própria, sua autoafirmação na sociedade e no mundo exterior sem seguir as convenções e padrões. O sapato no filme é de cristal.  Cristal em grego krystallos, significa “gelo” e simboliza tudo o que é puro, espiritual, se assemelhando ao diamante. Ele seria uma indicação da luz divina. O diamante é uma pedra de uma dureza imensa, sendo capaz de cortar até o ferro. Em contos de fadas é comum o herói ao final de sua jornada encontrar um diamante ou outra pedra preciosa, simbolizando a meta da individuação.

O cristal então assim como o diamante, então são símbolos da pedra filosofal. Ou seja, da meta da individuação, do Self. Ele simboliza a individualidade mais profunda do indivíduo e que não pode ser destruída. O sapato de cristal é a única coisa que sobrevive após o término da magia e é a única coisa que realmente pertence à Cinderela e que vai mostrar a sua verdadeira identidade ao príncipe. Ele é o símbolo da realidade única da personalidade de Cinderela, seu valor mais profundo diante da aparente pobreza. Ela pode se tornar rainha agora e enfrentar as irmãs e a madrasta, pois encontrou a sua meta.

Para Jung, é a anima no homem e o animus na mulher que indicam a meta da individuação. Ou seja, o amor pelo príncipe a fez seguir algo que ela nem sabia bem ao certo o que era e se era possível de alcançar, mas ela já não conseguia mais ficar parada sem agir. O príncipe então já rei, devido à morte do pai, vai ao encontro de Cinderela com o sapato perdido. E assim como no conto o sapato só cabe no pé da verdadeira dona.

No conto original as irmãs chegam a mutilar os pés para poder colocar o sapato, o que foi suprimido no filme para que não chocasse o público. Mas mutilar os pés significa que ninguém pode viver a vida de outro sem mutilar uma parte de sua própria personalidade. O Self nos manda sempre aquilo que devemos viver. A porção que nos cabe e que é só nossa.

Cinderela então se torna rainha e o reino encontra a renovação e o equilíbrio temporários, pois em breve uma nova aventura aparecerá, uma vez que esse reino uma hora precisará de outra renovação. Outros aspectos inconscientes deverão ser encarados. E é assim com a nossa vida também, constantemente somos forçados a olhar para outros aspectos desconhecidos de nós mesmos.

Referências:

EDINGER, E. F. – Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.

JUNG, C. G. A Interpretação Psicológica do dogma da Trindade. Vozes. Petrópolis: 1979.

VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.

VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

VON FRANZ, M. L. A sombra e o mal nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2002.

VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fada. 3 ed. Paulus. São Paulo: 1999.

VON FRANZ, M. L. O gato – Um conto da redenção feminina. 3 ed. Paulus. São Paulo: 2011.

 

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FICHA TÉCNICA DO FILME

Título Original (EUA): Cinderella
Direção: Kenneth Branagh
Música composta por: Patrick Doyle
Duração: 112 minutos
Ano: 2015

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.