Clube de Compras Dallas: na tragédia, a mudança

Com seis indicações ao Oscar:

Melhor Filme, Melhor Ator (Matthew McConaughey) e Melhor Ator Coadjuvante (Jared Leto), Melhor Edição, Melhor Maquiagem e Melhor Roteiro Original.

 

 

O “Clube de Compras Dallas” (EUA – 2014), dirigido por Jean-Marc Vallée é um filme que soube explorar de forma criativa o sempre espinhoso tema da AIDS, já tão “batido” em Hollywood (lembremos de “Meu Querido Companheiro” (1989);“Filadélfia” [1993], com Tom Hanks; “Kids” [1995]; “Angels in America” [2003], com Al Pacino; “Yesterday” (2004), só para citar alguns). A trama, baseada em fatos reais, se passa no “difícil” Texas dos anos 80, estado norte-americano conhecido pela “rusticidade” de seus homens que trabalham nos inúmeros campos de petróleo (atividade até então ligada exclusivamente ao sexo masculino).

“Clube de Compras Dallas” tem como protagonista o eletricista Ron Woodroof (Matthew McConaughey), a personificação do “macho” que não demonstra ternenhum interesse pela vida, a não ser quando está acompanhado pelas prostitutas da região ou em cima de um touro. De resto, sempre que instado sobre a existência, não hesita em dizer que a verdade é que um dia “todos temos de morrer, seja do que for”. No entanto, num fatídico dia depois de ser acidentado no trabalho, Woodroof descobre (ao passar por exames simples no hospital) que contraiu o vírus HIV. Mais que isso: que já está com a AIDS instalada em seu organismo e que só lhe restam 30 dias de vida.

Homofóbico, o primeiro incômodo de Ron Woodroof não é com o diagnóstico em si, mas com a possibilidade de ser confundido com um homossexual, já que naquela época a síndrome era tida como uma espécie de “praga gay”, por ocorrer com maior frequência entre as pessoas deste tecido social. Apesar de estar muito magro (o ator McConaughey causou espanto ao perder 20 quilos para filmar o longa) e combalido por uma tosse persistente, Woodroof esnoba do diagnóstico e resolve voltar à rotina.

Neste momento o filme retrata um episódio comum já amplamente descrito pelos estudiosos da mente, de que diante de uma tragédia (nos anos 80, ser diagnosticado com AIDS era ter uma sentença de morte), uma das primeiras reações é negar-se a se ver em tal situação. E isso Woodroof tentou fazer desesperadamente, inebriando-se nas drogas e nas orgias. Num dado momento, percebe que não teria muitos dias caso não aderisse a um programa de tratamento. As fichas começam a cair para o cowboy hedonista. Perceber a fragilidade da vida e a possibilidade de uma extinção iminente, mesmo diante de uma existência que ele sempre negligenciou, fez com que Woodroof iniciasse uma jornada de vida ou morte em busca de um tratamento adequado.

 

 

Até então, o único medicamento autorizado pelo FDA (a agência que credencia os medicamentos nos EUA) era o famigerado AZT, que em suas altas dosagens mais matava que curava os portadores da doença. Woodroof se opôs a esse tratamento e inicia uma longa e desgastante, mas fascinante busca pela sobrevivência. No caminho, o protagonista tem que se deparar com todas as construções subjetivas que permeavam seu imaginário, sobretudo àquelas que lhe causavam repulsa. Aliás, ele não só teve que revisitar tais concepções, como aos poucos foi diluindo tais impressões. O laboratório para todas estas mudanças, além da terrível patologia, estava justamente no “Clube de Compras Dallas”, um dos grupos independentes que se proliferaram naquela época, cujo objetivo era encontrar em qualquer parte do mundo as maneiras alternativas de tratamento da AIDS.

 

 

No “Clube”, Woodroof estreita os laços com a travesti Rayon, interpretada brilhantemente por Jared Leto (também irreconhecível no longa), que gradualmente passa de objeto de desprezo para fiel escudeiro (ou escudeira) do cowboy. No decorrer dos dias, Woodroof começa a ver em Rayon mais que uma travesti; na partilha da mesma situação trágica, não havia diferença entre eles. E é neste ponto que o protagonista transforma a aversão numa amizade até então incomum.

Além deste fascinante enredo de alteridade, o filme toca por mostrar como as indústrias farmacêuticas agem para obter vantagens mesmo no mais terrível dos acontecimentos. Diante de uma anunciada pandemia de AIDS, e com vários estudos internacionais já demonstrando o alto grau de toxicidade das hiperdosagens de AZT (que já havia sido descartado do tratamento do câncer, nos anos 60, por destruir células sadias), a insistência na permanência deste protocolo ceifou muitas vidas (no Brasil, o caso mais conhecido foi o de Cazuza).

 

 

Enfim, no despertar para a vida Woodroof deve enfrentar não apenas o minúsculo mas altamente destrutivo vírus da AIDS; antes e/ou concomitantemente, também enfrenta o “dogmatismo cientificista” imposto pela indústria. Ele assume os riscos de provar em si próprio (e nos demais integrantes do “Clube”) os efeitos das drogas “alternativas” (porém, mais eficazes).

O cowboy, apesar de nesta altura já ter mudado de forma substancial sua visão sobre a vida, e sobre vários aspectos do mundo (como a sua antiga pré-concepção sobre a homossexualidade), ainda assim age sob a batuta do lucro (por ser o líder do “Clube”) e da busca pela própria cura. A mais profunda mudança ainda estaria por vir. E ela ocorre no momento em que Woodroof se dá conta de que ao se perder uma grande amizade, parte dele também fica irremediavelmente incompleto. Para as dores desta ainda mais trágica circunstância não haveria remédio.

 

 

Mesmo que Ron Woodroof tivesse que encarar pela frente um futuro de discriminação e de rigor no tratamento da doença, o “rito de passagem” havia se concluído. O egoísmo já estava dissolvido e a existência, enfim, se expressava como “vida” que pulsava – mesmo na doença. Antes, ao que parece, ele experimentava apenas as sombras da vida (para lembrar o estilo platônico). Um exemplo e tanto para nos fazer perceber que, de fato, grandes mudanças internas podem ocorrer em situações trágicas.

 

FICHA TÉCNICA:


Gênero: Drama
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Denis O’Hare
Fotografia: Yves Bélanger
Ano: 2013
País: Estados Unidos

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).