“Contatos de 4º Grau” e os milagres forjados para entreter

“A crença pós-modernista no relativismo da verdade, aliada à velocidade dos meios de cultura de massa, nos quais os intervalos de atenção são medidos em minutos, nos deixa com um atordoante conjunto de alegações de verdade medidas em unidades de ‘infonimento’, ou seja, de informação entretenimento. Deve ser verdade – vi na televisão, no cinema, na internet” – Michael Shermer

A maior característica do cinema é fazer o expectador acreditar, dentre outras coisas, que se pode crer em homens que voam, em viagens para outros universos, conspirações demoníacas e até em vampiros apaixonados. Entramos em uma sala escura para, geralmente, sermos enganados e ludibriados. Cabem aos envolvidos – roteiristas, maquiadores, diretores e outros – demonstrar todo o seu talento em carregar o público pelas mãos até onde ele quer. Porém, há dois problemas: quando o filme se predispõe a ser baseado em fatos reais ou quando é uma ficção que afirma os fatos narrados como verídicos.

Na primeira, temos o dilema de seguir, independente do fato escolhido, a visão dos responsáveis – vide os filmes de guerra americanos onde, geralmente, seus soldados são bravos heróis de coração justo e destemido, “cruzados” escolhidos para lutar contra o mal disforme e desumanizado que quer dominar o mundo. A favor do telespectador, temos a internet, livros e documentários que podem ampliar a sua visão e preencher lacunas históricas que ficaram fora do enredo “baseado em fatos reais”.

O segundo problema está na nova onda de Hollywood, os famosos found footage, ou filmes perdidos, filmagens caseiras, apresentadas em forma de documentários, expostas como uma série de acontecimentos verdadeiros, o paradoxo está de que em sua maioria, os temas tratados envolvem, de algum modo, o sobrenatural. Um dos filmes mais famosos foi A Bruxa de Blair(The Blair Witch Project, 1999), o primeiro do mercado mainstream, e Atividade Paranormal(Paranormal Activity, 2007). Ambos utilizaram de diversos meios para levar o público a crer em tudo o que estava vendo, pois o sucesso desse estilo de filme é resultado da credibilidade forjada; o expectador tem que criar alguma ligação com a história retratada, isso por que é sua mente que vai desenvolver e cunhar grande parte da tensão da trama, já que visualmente pouco se vê e muito é sugerido. Logo após os lançamentos, muitas pessoas acreditaram na veracidade dos filmes citados acima. Passado algum tempo, e o anúncio das continuações, era percebido a brincadeira. Logo passou a ser piada o que antes era verossímil. Mas no meio disso tudo há um “bastardo” que ainda gera dúvidas pela campanha de marketing duvidosa criada: Contatos de Quarto Grau (Fourth Kind, 2009).

Já no trailer, temos Milla Jovovich, atriz que interpreta a protagonista do longa, afirmando categoricamente que tudo que iremos ver é baseado em relatos reais. Tal campanha publicitária é perfeita para uma sociedade que busca e quer acreditar no sobrenatural.

Segundo o material promocional do filme, o cineasta Olatunde Osunsanmi estava na Carolina do Norte, EUA, quando soube por uma colega que havia uma psicóloga que acabara de se mudar do Alaska com uma história muito interessante. Osunsanmi foi atrás da moça, e esta lhe relatou os resultados de um estudo sobre um grupo de pessoas com distúrbios do sono. Ele ficou tão entusiasmado que não só decidiu contar a história como usou as gravações e filmagens dos pacientes da terapeuta e acrescentou uma entrevista com a própria.

Segue abaixo a sinopse utilizada na divulgação do filme para a imprensa:

No outono de 2000, os pacientes da terapeuta Abigail Tyler, sob hipnose, exibiram comportamentos que sugeriam encontros com não humanos. Antes de dormirem, todas as pessoas se lembravam de uma coruja branca do lado de fora da sua janela. Elas acordavam paralisadas, ouvindo barulhos assustadores por detrás das suas portas antes que um desconhecido os arrancava dos seus quartos aos gritos. As lembranças subsequentes ficavam obscuras.

Investigando o fenômeno, a médica descobriu uma história de pessoas desaparecidas e atividade bizarra da região, datando da década de 1960. Quanto mais ela vasculhava, mais ela acreditava no inacreditável: as histórias dos seus pacientes não eram memórias falsas, mas prova abrangente de abduções alienígenas.

Usando filmagens de arquivo nunca antes vistas integradas ao filme, Osunsanmi expõe as aterrorizantes revelações de múltiplas testemunhas. Suas descrições sobre terem sido visitadas por alienígenas compartilham detalhes perturbadoramente idênticos, a validade do que é investigado ao longo do filme.”

Adicione a isso fatos inexplicáveis ocorridos no Alaska, como avistamento contínuo de OVNI’s na região, o desaparecimento misterioso de alguns habitantes e homens estranhos vestidos de preto rondando as cidades; pronto, cria-se uma lenda urbana. Digo isso, porque, fora a cidade chamada Nome, que realmente existe, o que temos são habitantes revoltados com a publicidade distorcida que Hollywood fez dela. Após cinco anos, não é difícil ver comentário em sites discutindo a “veracidade dos fatos” e os “momentos aterrorizantes” documentados e adicionando informações ao fenômeno. Ao invés de ocorrer uma indagação, há aderência sem depuração da informação apresentada, é mais fácil acreditar em qualquer coisa indiscutivelmente do que pesquisar a fundo os relatos. Bem, vamos aos verdadeiros fatos.

  • Em 2005, detetives do FBI foram designados para investigar uma série de desaparecimentos não resolvidos e mortes em Nome, Alaska. A maioria das vítimas eram habitantes nativos. Entre 1960 e 2004, 20 pessoas morreram ou desapareceram em circunstâncias misteriosas. Em 2006, o FBI concluiu que “o consumo excessivo de álcool e o inverno extremamente rigoroso” eram a causa dos fatos ocorridos.

 

  • No filme, Milla Jovovich interpreta a Dr. Abigail Tyler, psiquiatra que descobre as “abduções alienígenas” durante as sessões de hipnoterapia dos seus pacientes. Em um Site, chamado “Alaska Psychiatry Journal”, você pode encontrar uma “biografia” da Dr. Tyler com artigos relacionados: há tópicos sobre terapia de distúrbios do sono, distúrbios emocionais, hipnoterapia e regressão. Entretanto, não há no site informações para entrar em contato com a profissional. O site “Alaska Psychiatry Journal” foi registrado em GoDaddy em agosto de 2009. Não há registros de licença ou fichas para atendimento de nenhuma doutora Abigail Tyler no Alaska. A disponibilidade de uma única publicação on-line desta “especialista” validaria os fatos, como o mesmo não é possível, podemos concluir que tudo não passa de um estratagema viral para a promoção do filme. Já os pacientes que aparecem no “documentário” nunca foram vistos entre os habitantes de Nome, segundo moradores locais.

 

  • Habitantes de Nome reclamam da falta de veracidade dos fatos relatados e a ausência de consideração com os familiares dos desaparecidos. Muitos deles não estão, até hoje, insatisfeitos com a conclusão do caso e esperavam que ele fosse reaberto. Mas, agora, com os “novos fatos” expostos por essa produção hollywoodiana só dificultaram mais que a verdade, um dia, possa vir à tona.

 

Aqui, podemos discutir dois pontos. O mais preponderante é a maneira que o cinema pode influenciar o público a ponto de reconstruir a história. Lembro-me de um fato, onde um amigo, professor que passava o filme bélico 300 para os seus alunos terem uma noção da vida dos gregos no passado. Esse tipo de ação preguiçosa é que cria modelos e crenças difíceis de contornar posteriormente – vide a veracidade histórica sobre as imagens de Cristo feitas pelos pintores renascentistas até extremos bizarros em filmes recentes, como Êxodo, onde nem na figuração encontramos negros. É simplista redarguir que isso tudo não passa de entretenimento, mas em uma sociedade de massa que prima pela falta de profundidade o que não é visto não existe, não tem voz e nem substância. Atualmente é mais certo ter afirmações veementes em defesa a seres de outras galáxias e seus objetivos transcendentais ou fantasmas com mensagens pacíficas do além, do queuma abordagem com negros, mulheres e homossexuais.  Isso nos leva ao outro extremo, a facilidade de manter e criar crenças da sociedade atual pelo simples capricho e vontade de crer. Mal contemporâneo onde tudo que era crível no passado foi explicado, modificado e reciclado a bel prazer do consumidor.

Pesquisa feita em 2009 nos EUA demonstrou que o americano crê mais em anjos, demônios e imortalidade da alma do que na Teoria da Evolução de Darwin. Em outra pesquisa feita pela revista Reader’s Digest com britânicos adultos, 43% dos entrevistados afirmaram serem capazes de ler o pensamento de outras pessoas ou ter os pensamentos lidos (Shermer, Michael, 2012). Nos comentários de filmes sobrenaturais, a exemplo de Contatos de 4° Grau, não é difícil encontrar relatos de pessoas que tiveram ou conhecem alguém que teve experiências semelhantes. Para o psicólogo Michael Shermer, primeiro surgem as crenças, depois as explicações. Isso porque o cérebro naturalmente procura e encontra padrões, aos quais depois insere significado.

Chamo ao primeiro processo de padronicidade: a tendência de encontrar padrões significativos em dados que podem ou não ser significativos. Ao segundo processo chamo de acionalização: a tendência de dar aos padrões significado, intenção e ação. Não podemos evitar isso. Nosso cérebro evoluiu para conectar os pontos de nosso mundo em padrões significativos, capazes de explicar por que as coisas acontecem. Esses padrões significativos se tornam crenças(SHERMER, Cérebro e crença, 2012).

Ou seja, somos algozes e vítimas da própria armadilha, pois o cérebro, esse órgão ainda pouco conhecido do nosso corpo, parece agir segundo suas próprias regras, se aquele que o carrega é um indivíduo desatento. Para Shermer, o filósofo escocês David Hume tinha a resposta para assegurar o equilíbrio entre ser cético e ser crente:

A consequência óbvia é (e trata-se de uma máxima geral que merece a nossa atenção) “que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer algo como milagre, a não ser que seja de tal espécie que a sua falsidade se mostre mais milagrosa do que o fato que ele se esforça por estabelecer”.

E exemplifica:

Quando alguém me conta que viu um homem morto voltar à vida, imediatamente pondero comigo se é mais provável que essa pessoa esteja querendo me enganar (ou esteja sendo enganada) ou, então, se o mais provável é que o fato que ela relata tenha realmente acontecido. Quer dizer, eu avalio um milagre em relação ao outro; e, segundo a superioridade que venha a descobrir, pronuncio a minha decisão, sempre rejeitando o milagre maior. Se a falsidade do seu testemunho for mais milagrosa do que o evento que a pessoa relata, então, e só então, é que ele poderá pretender fazer jus à minha crença ou opinião ([1758] 1952, pág. 491.).

A contemporaneidade está repleta de experiências e milagres, algo que no passado era da alçada apenas dos santos; hoje, no entanto, o que não falta são os auto-santificados, multiplicados a exaustão nas mídias sociais. Hollywood é um instrumento massificador desse processo, chegando a momentos paranóicos e extrapolando a máxima “ver para crer”. Assim, há muitos crentes e poucas coisas para ver, os fatos existem per se stante; ao contrário do que prega Hume, a verossimilhança está do lado do “milagre maior” na contemporaneidade.

 

FICHA TÉCNICA DO FILME

CONTATOS DE 4º GRAU

Título Original: The Fourth Kind
Direção & Roteiro: Olatunde Osunsanmi
Elenco: Milla Jovovich, Will Patton, Corey Johnson
Produção: Paul Brooks & Joe Carnahan
Fotografia: Lorenzo Senatore
Ano: 2009

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.