Diante da Dor dos Outros

“Há a sensação de que existe algo moralmente errado na ementa da realidade oferecida pela fotografia: de que não se tem o direito de experimentar à distancia o sofrimento dos outros, despido da sua força crua; de que pagamos um preço humano (ou moral) demasiado alto por esses atributos da visão até agora admirados – o afastamento da agressividade do mundo, posição que nos deixa livres para a observação e a atenção eletiva. Mas isso é apenas descrever a própria função da mente.” (p.98)

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Diante da Dor dos Outros é o último ensaio de Susan Sontag, ensaísta, crítica social e ativista norte-americana. Publicado e editado pela Companhia das Letras em 2003, mesmo ano de publicação nos Estados Unidos, é constituído por nove tópicos que traz como temática a iconografia do sofrimento. A obra não apresenta sumário nem títulos em seus tópicos. De narrativa não linear, prima por um encadeamento de ideias que conduz o leitor a um passeio que vai desde a pintura de Goya “Tampoco” estampada na capa do livro, passando pelas imagens pseudopresentes produzidas na Guerra Civil Americana, Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil Espanhola, nos campos nazistas até o atentado ao World Trade Center em setembro de 2001.

No primeiro tópico a autora inicia com as observações da escritora Virgínia Woolf sobre as fotos da Guerra Civil Espanhola em seu livro Três Guinéus (1938). Woolf professa a crença de que a fotografia deva falar por si mesma, sem necessidade de legendas, pois o que importa é o caráter arbitrário da guerra. Ao contrário de Woolf, Sontag acredita que uma fotografia pode ser utilizada para diversos fins bastando mudar apenas a legenda. Daí a importância ao analisar imagens. O espectador deve levar em conta o conflito e os atores que participam dele. A grande questão que permeia a obra é: Como agimos diante da dor dos outros?

Woolf disponibiliza a um leitor fotos de guerra sobre a mesa no que ela chamou de uma “experiência mental”. As fotos retratam a violência, as atrocidades, a nova paisagem urbana. A guerra dilacera, despedaça, esfrangalha, eviscera, esquarteja, devasta.  Com essa experiência, a escritora questiona se somos capazes de sentir repugnância, de sofrer diante das fotos. Para Woolf, a nossa “indiferença” seria reação de um monstro moral. E, diz ela, não somos monstros, mas membros de classe instruída. “Nosso fracasso é de imaginação, de empatia: não conseguimos reter na mente essa realidade.” (p.13). Sontag aponta que por um longo tempo as pessoas acreditaram que “se o horror pudesse ser apresentado de forma bastante nítida, a maioria das pessoas finalmente apreenderia toda a indignidade e a insanidade da guerra.” (p.17). Trata-se da fotografia como terapia de choque.

“Desde quando as câmeras foram inventadas, em 1839, a fotografia flertou com a morte” (p.24)

No segundo tópico é abordada a evolução tecnológica dos aparelhos fotográficos que trouxe ao fotojornalismo uma nova linguagem marcada pelo dinamismo. Por exemplo, até a Primeira Guerra o combate estava fora do alcance das pesadas câmeras – apoiadas em um tripé – o que dificultava as saídas ao campo. A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi a primeira que teve uma “cobertura” jornalística, pois fotógrafos profissionais foram contratados e estavam na linha de frente. Seus registros eram estampados em jornais e revistas da época. Na Segunda Guerra Mundial, em 1945, com câmeras de pequeno porte (Leica) e filmes 35mm, foi possível a mobilidade dos fotógrafos e os registros instantâneos do campo de batalha. A guerra que os Estados Unidos travaram no Vietnã foi a primeira a ser testemunhada dia-a-dia pelas câmeras de tevê. A população civil americana teve uma nova “teleintimidade com a morte e a destruição.” (p.22). É como se a catástrofe vivenciada ganhasse representações cinematográficas. O que parecia “irreal” passa a ser “surreal”. Sontag acredita que o fluxo de imagens (televisão, vídeo e cinema) constitui o nosso meio circundante, mas quando se trata de recordar, a fotografia fere mais fundo. Para ela, “a fotografia oferece um modo rápido de aprender algo e uma forma compactada de memorizá-la.”(p.23). É como se o poder da fotografia fosse além de, meramente, registrar. Ela traz uma nova narrativa, uma espécie de “democracia fotográfica”. A esse respeito, Sontag coloca que a fotografia é a única arte em que um aprendizado profissional e anos de experiência não conferem uma vantagem insuperável sobre os inexperientes e nos não preparados. Há o acaso, a sorte no ato de fotografar. Isso define a força do registro, o poder da imagem.

No terceiro tópico, Sontag apresenta a evolução da iconografia do sofrimento.  Ao trazer a escultura de Laocoonte e seus filhos a se retorcerem e inúmeras versões da Paixão de Cristo, a autora deixa claro que, na Idade Média, a representação do sofrimento tinha uma relação direta com o desejo de purificação. As obras eram “destinadas a comover e estimular, instruir e dar exemplo. O espectador pode condoer-se ante a dor do sofredor.” (p.37). Já no século XVIII as representações do sofrimento, a exemplo da obra de Goya, tinham como temática a ira humana e não a ira divina. Sontag chama atenção que, a partir do século XX, as imagens de sofrimento se tornaram comuns com a profusão dos meios de comunicação – o que não nos deixa esquecer como esse tipo de representação é recente. A autora, a cada exemplo dado, nos convida a ser espectadores ou covardes, no ato de olhar. A questão que nos atormenta é: Conseguimos olhar para isso? Somos capazes de suportar? Para ela, não há nenhuma acusação moral que recai sobre a representação dessas crueldades; “apenas uma provocação: você é capaz de olhar para a imagem sem titubear. Existe o prazer de titubear.” (p.38). As narrativas da crueldade têm o intuito de abalar, chocar, ferir o espectador. Elas são horripilantes, mas irresistíveis; são testemunhos de verdade, mas “encenadas”. Sontag relata casos como “O vale da sombra da morte” de Roger Fenton; “A morte de um soldado republicano” de Robert Capa; “Um jovem casal beijando-se na calçada perto do Hotel de Ville, em Paris” de Robert Doisneau; “O levantamento da bandeira americana em Iwo Jima” de Joe Rosenthal. Nesse contexto, a depender da linha editorial e a “quem” essas imagens servem, é que a “consciência” do sofrimento é (re)construída.

É no quarto tópico que Sontag deixa claro que não existe guerra sem fotografia. Atividades que tem em sua gênese a mirada do olhar – na guerra o disparo da arma, na fotografia o disparo da câmera. Até a Primeira Guerra Mundial as fotografias mostravam imagens românticas dos combates. Com a evolução das câmeras, faz-se exigências novas à realidade. Para ser mais convincente, é preciso trazer o espectador para perto. Na Guerra do Vietnã, a fotografia de guerra tornou-se, como norma, uma crítica à guerra. A Guerra do Golfo, em 1991, que ficou conhecida como a guerra midiática, foram imagens da tecnoguerra: “o céu […] repleto de rastros luminosos dos mísseis e das bombas” (p.57) eram transmitidas ao vivo pelas emissoras de tevê.

No quinto tópico a autora se dedica ao poder de memória da fotografia. Para ela, “toda memória é individual, irreproduzível […] o que se chama de memória coletiva não é uma rememoração, mas algo estipulado.” (p.73). Para Sontag, a “repetição”, a familiaridade de certas fotos constrói a ideia do presente e do passado imediato. As fotos traçam rotas de referência e servem como totens de causas: um sentimento se cristaliza mais facilmente perante uma narrativa visual do que uma narrativa verbal. As fotos são mais do que “lembranças de morte, de derrota, de vitimização. Elas evocam o milagre da sobrevivência.” (p.74) As imagens nos obrigam a pensar, a compreender a extensão da violência.

É no sexto tópico que Sontag discute o prazer que as pessoas têm em contemplar fotos de dor, mutilação. Para a autora, o repugnante é também sedutor. O desejo de ver algo horripilante, “mórbido” sugere uma aberração rara, mas a “atração por esse tipo de imagem não é rara e constitui uma fonte permanente de tormento interior.” (p.80). A autora aponta que a atração por essas imagens não é novidade, desde o século 4 a.C, em A República, Platão descreve como a razão pode ser esmagada por um desejo vil. O filósofo desenvolveu a ideia de uma teoria tripartida da função mental – constituída pela razão, pela raiva ou indignação, e pelo apetite ou desejo – numa “antevisão do esquema freudiano formado de superego, ego e id.” (p.81). Sontag acredita que, como objetos de contemplação, imagens de atrocidades podem atender a diversas necessidades. Podem nos deixar mais fortes, tornar-nos mais sensíveis, levar-nos a reconhecer a existência do incorrigível.

No tópico sete, Sontag nos questiona sobre o papel da mídia e do embotamento do espectador diante da dor dos outros. Aqui, a autora relata a afirmação apresentada em seu livro “Sobre Fotografia” (1977), ela acreditava que apesar da verossimilhança suscitada pela fotografia e, ainda, a repetição da sua exposição, tornaria o assunto explorado “menos real”. De lá para cá, a autora mudou de opinião em razão de não ter sido levado em conta a subjetividade do espectador. Em Diante de Dor dos Outros, ela considerou que nem todas as pessoas são insensíveis diante da repetição de imagens da violência. Questiona aqui a concepção da “sociedade do espetáculo” – ideia que generaliza a sensibilidade das pessoas diante da dor dos outros, reduzindo-as a meros consumidores da notícia – Esse modo de ver se “atualiza” com Debord, Berger, Baudrillard.

O oitavo tópico é dedicado às imagens de guerra e à força que essas narrativas nos “atropelam”. Há agora um vasto repertório de imagens que torna mais difícil a manutenção dessa “deficiência moral”. As imagens atrozes nos perseguem. Para Sontag, “recordar é um ato ético, tem um valor ético em si mesmo e por si mesmo. A memória é, de forma dolorosa, a única relação que podemos ter com os mortos.” (p.96).  Pontua a autora que recordar demais gera rancor, assim fazer as pazes significa esquecer. Para reconciliar-se, é necessário que a memória seja imperfeita e limitada. Na vida moderna, parece normal dar as costas para imagens que nos fazem sentir mal, simplesmente viramos a página, mudamos de canal.

“As imagens têm sido criticadas por representarem um modo de ver o sofrimento à distância, como se existisse algum outro modo de ver. Porém, ver de perto – sem a mediação de uma imagem – ainda é apenas ver.” (p.98).

No nono e último tópico, a preocupação de Sontag é o cenário ideal para a análise das imagens. Para ela, as imagens podem ser usadas como advertências, como objetos de contemplação destinados a aprofundar o sentido de realidade de uma pessoa; por isso a importância do cenário, este que tem o poder de (re)siginificar o “conceito” da imagem. Em revistas, as fotografias dividem a página com anúncios publicitários. No museu, as fotos mortificantes ganham uma áurea épica, status de arte. Para tanto, acredita a autora que “o peso e a seriedade de tais fotos sobrevivem melhor em um livro, onde elas podem ser vistas de modo privado, em silêncio.” (p.101). O tempo de reflexão é outro. A emoção forte se tornará passageira, mas presente na memória do espectador.

De certa forma, olhar, conferir o sofrimento do outro nos traz a “satisfação” de saber que “isto não aconteceu comigo!”, “não estou doente, não estou morrendo!”. É fato que nem todas as reações a imagens violentas estão sob a supervisão da razão e da consciência. A maioria das representações suscita, na verdade, um interesse lascivo. A grande questão é o que fazer com o turbilhão de sentimentos que vieram à tona? E a sensação de que não há nada que “nós” possamos fazer? Será mesmo? Devemos ficar inertes, entediados, apáticos diante da dor dos outros?

FICHA TÉCNICA DO LIVRO:

DIANTE DA DOR DOS OUTROS

 Autor: SONTAG, Susan
Ano: 2003

Sobre a autora:

Susan Sontag, ensaísta, crítica social e ativista norte-americana estudou filosofia, literatura e teologia. Ao longo de sua carreira escreveu romances, ensaios, peças de teatro e roteiros de filmes. Entre seus trabalhos mais conhecidos, estão Notes on Camp (1964), Against Interpretation and Other Essays (1966), On Photography (1977), Illness as Metaphor (1978) e The Volcano Lover (1992). Entre os prêmios de sua carreira, recebeu o National Book Critics Circle Award (1978), o National Book Award (2000), o Peace Prize do German Book Trade (2003) entre outros. Contrária à guerra, foi uma das primeiras a discordar da política norte-americana pós 11 de setembro de 2001. Manifestou-se contra a opinião que exaltava a covardia dos ataques aos EUA de 11 de setembro, afirmando que o ato foi de coragem e que o mesmo não pretendia ferir a humanidade, mas sim manifestar-se contra os EUA como superpotência mundial. Morreu em 28 de dezembro de 2004, em Nova York, vítima de leucemia. Sontag se definia como “esteta afeiçoada” e “moralista obsessiva”.

Biografia da autora disponível em http://www.brasilescola.com/biografia/susan-sontag.htm. Acesso no dia 13 de julho de 2012.

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com