Dois Dias, Uma Noite: o inferno são os outros

Concorre ao Oscar 2015 de Melhor Atriz

 

Sandra, após um tempo afastada do emprego por motivos de saúde, descobre que perdeu sua vaga em uma votação onde seus colegas deveriam escolher entre seu retorno ou um bônus salarial. Ao conversar com o seu patrão para tentar reverter a situação, recebe uma nova chance: no início da semana ele fará uma nova votação, se nove dos dezesseis trabalhadores votarem a favor de mantê-la no emprego, ela será aceita de volta. Agora cabe a Sandra ir atrás de cada um deles e convencê-los a desistir de seus bônus salariais a favor de sua readmissão.

Ao longo dos noventa minutos de “Dois dias, uma noite”, assiste-se a odisseia de Sandra para tentar salvar um dos poucos elos que a mantêm ligada a sociedade após um diagnóstico de depressão. Para alguns, deve ser extenuante ver uma protagonista que na maioria das cenas está a choramingar e prestes a desistir da empreitada que, a julgar pelos esforços, pode definir sua vida. Quando muito pressionada, Sandra recorre aos remédios e ao recolhimento, dormir é sua fuga não só do mundo externo mas, principalmente, do que há no seu interior, do que julga não conseguir superar. Prefere se enfiar debaixo das cobertas a, em suas palavras, “mendigar” por seu emprego, pois inicialmente, lutar não é uma opção nobre, mas degradante.

 

Ao seu lado está Manu, firme e confiante, que a motiva a continuar sua busca. Seu marido, ao incitá-la a ação não está preocupado com as contas que deve pagar, ele sabe que além das demandas cotidianas, outras coisas estão em jogo. Seu papel de pai e marido está ligado ao resultado desse processo de Sandra em se perceber indivíduo antes de reassumir os papeis de mulher e mãe.

 

“O inferno são os outros”

E, dentro do drama de Sandra, temos outros orbitando á sua volta. A cada encontro uma surpresa, uma chama de esperança, uma palavra de apoio seguida de ações tempestivas de rejeição e violência. Do mesmo jeito que ela luta por seus direitos, cada um dos seus colegas tem motivações para aceitar o dinheiro em detrimento do bem-estar da colega. Quem estaria agindo com egoísmo e avareza, aqueles que optaram pelo bônus ou Sandra que “mendiga” que todos se sacrifiquem por ela?

 

A odisséia individual de Sandra é a espinha dorsal de “Dois dias, uma noite”; não é difícil torcer por ela e ficar contra aqueles que escolhem o dinheiro ao invés da sua permanência no emprego. Mas toda a consistência do filme é baseada não só em como nossas escolhas tem efeitos além do conforto das nossas residências, e sim em como colocamos em prática conceitos morais e suas influências na nossa ética.

Cada um dos trabalhadores faz parte de uma sociedade que optou por certas regras para manter a “política da boa vizinhança”. Não chega a ser um papel a ser interpretado, mas sim uma máscara a ser usada. Podemos ser contra a pena de morte, ao desmatamento e ao trabalho escravo. Posso deixar comentários em redes sociais, opinar veementemente na roda de amigos, mas, em termos de consistência, muito pouco sabemos dos resultados das nossas escolhas, principalmente quando não temos consciência da sua extensão.

A votação no filme é um momento em que o indivíduo é forçado a identificar seu papel. A máscara não serve mais, agora é necessário um posicionamento. Uma ação é solicitada, cabe ao indivíduo uma escolha que irá gerar uma reação, aí terá materializado nossa moral, que muitas vezes não condiz com a ética vigente. Sartre dialoga sobre a responsabilidade dos nossos atos. Para o filósofo francês, estamos “condenados a ser livres” porque nossas escolhas moldam o mundo que nos rodeia. Assim, o resultado que esperamos de um mundo “bom” ou “mau” estaria estrito a estas escolhas. Mas o que seria uma escolha correta?

 

“Digo-lhes que não deixem passar um dia sem falar da bondade…”

Para Sócrates, o virtuosismo está ligado à paz de espírito. Em linhas gerais, uma pessoa boa é sábia, diferente de alguém que age com maldade, classificada como uma pessoa ignorante. Assim, a virtude não é relativa, já que é inerente ao ser humano, porém é necessário um esforço de autoconhecimento para exercê-la e expressá-la na forma de bondade. Um exame árduo e contínuo é necessário para chegar a esse estágio, que seria definitivo; se ainda há dúvidas sobre o que é bom ou mal é porque o indivíduo ainda permanece ignorante sobre quem é. Os irmãos Dardenne compreendem o voto dos colegas de Sandra como uma escolha de sábios e ignorantes. Um argumento comum entre aqueles que decidem votar a favor do bônus é a necessidade do dinheiro, o que tornaria a jornada de Sandra egoísta, mas os problemas financeiros deles são pré-existentes, o bônus não.

 

O que fica subentendido é a capacidade que alguns têm de sacrificar o que for necessário em prol das suas demandas pessoais enquanto outros tendem a defender suas questões morais, independente dos meios. Àqueles que aceitam o bônus parece não passar pelas suas consciências que eles podem estar em uma situação parecida. Em uma abordagem pragmática, podemos citar o professor e escritor afro-americano William Du Bois, que afirma que “não importa os pensamentos e crenças, mas também as implicações práticas delas”.

 

As avaliações não se limitam a duas vertentes, ao positivo e ao negativo. A consciência das implicações é perceptível em vários dos votantes a favor do bônus ou que se arrependeram. Em contraste, no meio termo temos aqueles que reconhecem “a virtude” mas não são “virtuosos”. Essa virtude que Aristóteles prega, é a mesma que pais tentam impingir nos filhos, mas que por vezes não é experienciado. Bons exemplos são a mulher que pede para a filha atender e dizer que não está e o homem que, ao encontrar Sandra, pede para o seu pequeno filho sair antes de colocar seu ponto de vista. São os pais que definem parte dos nossos conceitos morais e éticos, e ao serem incapazes de demonstrar isso na prática, fica perceptível sua falta de bondade.

 

“Eu não sou nada, eu não existo”

A personagem central, Sandra, em um momento de desolação, se vira para o marido e diz, cabisbaixa: – “Eu não sou nada, eu não existo”. Essa declaração pode, aparentemente, expor uma vitimização da protagonista, que se nega a lutar pelos seus direitos. No entanto, o que observamos é o sintoma de uma das doenças mais mal compreendidas do nosso século: a depressão.

As informações sobre quem é a mulher Sandra são esparsas. Sabemos que é casada, mãe de dois filhos e que acabou de financiar uma casa. Sobre seu estado de saúde descobrimos aos poucos que foi diagnosticada com depressão e, provavelmente, com agorafobia, devido a alguns ataques que ela tem durante sua busca. Em outro momento, um dos seus colegas agradece por ela ter levado a culpa em seu lugar, situação que exemplifica o caráter da protagonista. Mas, o que a levou a esse estado? Não nos é informado. O estado depressivo não é como as outras doenças, com um diagnóstico e medicamentos definitivos. Assemelha-se mais como uma nuvem de tempestade, quando você olha para o céu, antes azul, de repente aparece aquela massa negra a cobrir tudo o que tem vida; só que essa nuvem é interna. O roteiro é claro ao associar o uso de remédios controlados ao desejo de fuga de Sandra; todas as vezes que ela fala em desistir ela está ingerindo Xanax.

 

A busca da protagonista por sua aceitação, metaforicamente, é uma luta interna por sua existência. Se expor a cada um dos dezesseis colegas é um exercício de firmação, não haveria possibilidade de uma luta externa se ela não travasse, concomitantemente, essa batalha interna. O emprego é o estopim do seu movimento, mas é essa jornada externa que colocará em perspectiva sua vida e suas escolhas. Quem é Sandra? Sentada do lado do marido ela observa um passarinho cantar e deseja ser como ele: cheio de contentamento, porque a natureza, independente do que ocorra ao redor, simplesmente é.

E ao final, Sandra prova sua virtude indo além do seu objetivo. Sua última escolha a liberta e define sua existência. Na última cena, ao fazer planos, sonhar novos rumos, com uma coragem adquirida de uma pessoa que sabe qual é sua verdadeira natureza, Sandra sabe de onde tirar suas forças. E a câmera, antes em uma conjunção quase epidérmica, a abandona, deixa-a caminhar sozinha rua abaixo. Ao fundo podemos escutar passarinhos cantando despreocupados.

 

Trailer:

FICHA TÉCNICA DO FILME

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DOIS DIAS, UMA NOITE

Título Original (França): Deux Jeurs, une nuit

Direção & Roteiro: Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne
Elenco:Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée
Produção: Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne
Fotografia: Alain Marcoen
Duração: 135 minutos
Ano: 2014

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.
Autor / Co-Autores: