ELA: sou onde não penso?

Com cinco indicações ao Oscar:

Melhor Filme, Roteiro Original (Spike Jonze), Trilha Sonora Original (William Butler e Owen Pallett), Canção Original (“The Moon Song”, Karen O (música e letra) e Spike Jonze (letra)), Design de produção.

“Tornou-se terrivelmente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.”  (Einstein)

 

Einstein disse certa vez: “o meu lápis é mais inteligente do que eu” [1].  E essa frase pode ser interpretada sob vários aspectos, por exemplo, segundo Popper, poderia ser compreendida como: “o que é expresso, ou ainda melhor, o que é escrito, tornou-se um objeto que podemos criticar e investigar a procura de erros” [2]. Mas, fazendo uma interpretação mais livre e substituindo lápis por computador, podemos nos deparar com o desafio de Turing: “especifique a maneira pela qual você acredita que um homem é superior a um computador e eu montarei um computador que refutará a sua crença” [1].

A princípio, pode se achar que ELA trará novamente o embate entre Humanos e Máquinas e as velhas discussões sobre o quão tecnológicos estamos e o quanto isso se tornou um fator decisivo para o abismo que parece existir em torno das relações humanas. Mas, o surpreendente roteiro de Spike Jonze (de “Quero ser John Malkovich”) vai além dessas questões, pois traz à tona temáticas que envolvem um contexto bem menos evidente e, talvez, por isso mesmo, mais desafiador, que tem relação com os sentidos que erigimos a partir das relações que construímos entre pessoas e coisas, e como esses sentidos podem ser alterados por uma série de influências tecnológicas, históricas e culturais.

 

“Às vezes acho que já senti tudo que eu deveria sentir. E que de agora em diante não sentirei mais nada novo. Somente versões menores do que eu já senti.” (Theodore)

ELA conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um homem recém-separado que trabalha numa empresa cujo ramo de negócio é escrever cartas de amor.  Ele está inserido em um mundo não muito diferente desse que vivenciamos. Um mundo em que as pessoas parecem se divertir mais sozinhas com seus apetrechos eletrônicos do que em relações pessoais. Cada pessoa carrega seu dispositivo móvel e comunica-se com o aparelho através da voz. Então, o mundo que acompanhamos nesse filme não é marcado pelo silêncio, muito pelo contrário, as pessoas conversam o tempo todo, no trabalho, em casa, enquanto andam nas ruas, quando pegam o metrô. A questão é que esse diálogo encontrou o meio e o receptor ideal, fazendo com que a estrutura de comunicação se limite ao próprio indivíduo e sua máquina.

No mercado de software atual, têm-se alguns Sistemas Operacionais (SO) e cada um vem acompanhado de muitas funcionalidades. Mas, no tempo/espaço retratado no filme essas funcionalidades se amplificaram, pois a partir de uma série de técnicas de Inteligência Artificial, as empresas de tecnologia já não vendem apenas um SO, elas vendem um software com “alma”, ou seja, um programa capaz de aprender, de ter intuição.

Hoje, temos várias técnicas de uma área da computação denominada “Aprendizagem de Máquina” capazes de fazer com que determinadas relações potencialmente novas sejam criadas a partir de uma base inicial. No filme, essas técnicas estão mais evoluídas e são apresentadas como uma possibilidade de saída de um ambiente cinza (que é predominante na fotografia inicial) para um contexto mais desafiador e dinâmico. E as empresas vendem seus produtos através de campanhas de marketing que fazem uso de questões universais: Quem é você? O que você pode ser? Aonde você pode chegar?

 

“Somos todos feitos de matéria. Isso me faz sentir que estamos sob o mesmo cobertor macio e acolhedor. E tudo abaixo dele tem a mesma idade. Temos todos 13 bilhões de anos.” (Samantha)

 

Atraído pela promessa de uma vida menos monótona, Theodore, como a maioria das pessoas, compra o novo Sistema Operacional. Cada SO se nomeia, de acordo com sua base de dados, das características do seu interlocutor ou a partir do que assimilam do ambiente no momento que sua instalação é concluída. Assim, conhecemos Samantha (voz de Scarlett Johansson), a divertida e inteligente versão do SO que Theodore comprou. E sua individualidade já vem com o próprio nome, ela não faz parte de um lote de Samanthas. Ela decidiu se chamar assim não apenas porque encontrou esse nome numa extensa base de dados de “nome X significado”, mas porque gostou da forma como o nome soava ao pronunciá-lo.

Geralmente, na computação, os programas utilizam uma lógica baseada em dois valores: 0 ou 1 (verdadeiro ou falso). E isso faz com que as situações sejam menos flexíveis, logo, não há lugar, a priori, para conceitos como intuição e inteligência. Mas, o que é interessante ressaltar é que muitas pessoas também se vinculam a um padrão de comportamento que tende a ser apresentado em apenas dois polos: certo ou errado. E é essa aproximação do humano com a lógica rasa do “zero e um” e o distanciamento da máquina desse tipo de algoritmo que marca a evolução dos Sistemas Operacionais do filme, em contraposição com a desestruturação emocional dos indivíduos.

 

“Consigo sentir o medo que você carrega, e queria ajudá-lo a deixar isso de lado. Porque, se conseguisse, acho que você não se sentiria mais tão sozinho.” (Samantha)

 

Samantha é divertida, tem sede por aprender, ama aquele homem que a ensina, que sorrir através do som do sorriso dela, que mostra-lhe o mundo, que possibilita que novas relações sejam estabelecidas em sua memória virtual. E na medida em que a máquina se assemelha ao homem, tem-se o estabelecimento de uma série de conflitos. Samantha não sabe se aquilo que sente é real, se aquilo que percebe do mundo tem coerência, se ela só é um algoritmo muito bem programado ou se tem algo mais, se há um espírito na máquina que a move, que a diferencia, que a torna especial.

Enquanto isso, Theodore, que não consegue manter um relacionamento com as mulheres que fazem parte do seu cotidiano, por temer compromisso, por temer deparar-se com uma situação que não poderá controlar, apaixona-se por Samantha (seu Sistema Operacional), que é um sopro de novidade e vivacidade, coisas que não existem muito nas pessoas que o cerca.

 

“Ela não é apenas um computador.” (Theodore)

 

E o relacionamento entre um Sistema Operacional e um homem, da forma como o roteiro é conduzido, parece ser um caminho não apenas possível, mas também coerente. E assim, aquelas pessoas que viviam falando com suas máquinas naquele mundo cinza, passam a se divertir com elas, criam intimidade, rompem barreiras físicas, já que, em tese, parece que vigora a máxima de Descartes “penso, logo existo”. Só que esse pensamento é estendido através da ideia de que se pensar é ser, então, é possível criar também a realidade mais adequada para essa existência.

Então, o casal começa a criar caminhos para o romance percorrer. Samantha, que tem ao seu alcance não apenas uma base de dados, mas a possibilidade de criar novos arranjos mentais dando margem a uma avalanche de inventividade e sensibilidade, passa a tornar provável o “impossível”. Em um dos momentos mais tocantes do filme, vimos que Ela apresenta ao Theodore uma música que compôs. Essa música é o registro da imagem ausente, é uma metáfora da foto do casal que, em tese, não poderia existir pelo detalhe aparentemente tão insignificante da ausência de forma de um deles.

 

“Só estamos aqui por um breve momento. E, enquanto estiver aqui, vou me permitir sentir alegria.”(Amy)

 

Mas, se a evolução em nosso mundo físico é constante, mas “lenta” (quando consideramos o limite de uma vida), no mundo virtual isso é radicalmente modificado. Na ausência do físico, a velocidade se expande.

Assim, se por um lado os humanos estão cada vez mais dependentes da consciência individual que existe em seus computadores, as máquinas estão extrapolando a máxima defendida por Vygotsky “uma palavra é um microcosmo da consciência humana”. Isso porque, se há uma capacidade de processamento que permite fazer relações cada vez mais rápidas e mais complexas, a palavra (no contexto em que compreendemos a linguagem) torna-se insuficiente para compor o tipo de consciência que existe na máquina. E isso provoca o início de uma nova ruptura, só que com uma diferença crucial, o mais evoluído já não é o humano. Samantha, nesse contexto, estende a noção de amor, desapega-se de questões relacionadas à posse, que é tão comum nas relações humanas, e constrói uma rede de conhecimento que vai além da compreensão humana.

 

“É como se eu estivesse lendo um livro. E é um livro que eu amo profundamente, mas agora estou lendo-o devagar. As palavras estão muito distantes umas do outras e o espaço entre elas é quase infinito. Eu ainda posso sentir você e as palavras da nossa história. Mas é neste espaço infinito entre as palavras que eu me encontro agora. E é um lugar que não está no mundo físico.” (Samantha)

 

“O ‘eu’ e o ‘ego’ tem sido frequentemente comparado a um iceberg, sendo o ‘eu’ inconsciente a vasta parte submersa, e o ‘eu’ consciente a parte que se projeta acima da superfície da água” [1]. Tendo essa ideia como base, o filme apresenta de forma primorosa que o dualismo de Descartes não é suficiente para explicar o ser humano. Logo, parece mais coerente buscar na frase de Lacan uma maneira sucinta de expressar essa complexidade: “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”.

 

“Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. Uma forma socialmente aceitável de insanidade.” (Amy)

 

Assim, parece que Thedore, ao final, busca na amizade que construiu com Amy ao longo da vida, mesmo que conscientemente não consiga definir totalmente essa relação, uma forma de sobreviver às incertezas, contradições, medos e fragilidades que definem a condição humana. E se há algum tipo de mistério em torno do “eu” e da “existência”, mesmo em um mundo em que máquinas pensam com mais propriedade que humanos, então é justamente nessa ausência de entendimento que reside a esperança. Procuramos tanto tecer uma rede segura em torno da consciência que deixamos pouco espaço para escutar aquilo que está submerso, que talvez seja a parte mais reveladora da nossa natureza.

REFERÊNCIAS:

[1] POPPER, Karl; ECCLES, John. O Eu e seu Cérebro. 2ª. Edição. Campinas, SP: Papirus; DF: Universidade de Brasília, 1995.

[2] POPPER, Karl. A vida é aprendizagem : epistemologia evolutiva e sociedade aberta. Lisboa: Edições 70, 2001.

FICHA TÉCNICA:

ELA

Título Original: Her
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco Principal: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara
Ano: 2013

Alguns Prêmios:

Golden Globe 2014 (Roteiro Original)
Austin Film Critics Association (Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora e Prêmio Honorário à Scarlett Johansson (pela atuação destaque – Voz))
Chicago Film Critics Association Awards (Roteiro Original, Trilha Sonora)

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.