Encontros & Desencontros: a melancolia e a fragmentação de ser adulto na contemporaneidade

O segundo filme de Sofia Coppola continua a explorar os meandros dos espaços infinitos que não permitem a aproximação e a completude das pessoas com elas próprias e com aqueles que as cercam. Depois da sensação de deslocamento e insegurança vista pelos olhos das adolescentes Lisbon, em Virgens Suicidas, agora temos como acréscimo a melancolia constante e o sentimento de fragmentação do adulto contemporâneo em Encontros e Desencontros.

 O filme estende as questões sobre a existência humana e parece brincar com elas, porque, independente de sermos jovens ou adultos, permanecemos com os mesmos medos e inseguranças, a diferença é que em uma fase temos todos os sonhos e esperanças que o mundo comporta e na outra só resta o pragmatismo contemporâneo para justificar a existência humana. Pode haver razões para a irracionalidade dos exageros e arroubos das emoções juvenis, no entanto, o amadurecimento do ser humano surge imposto em sua existência, lhe cobrando, muitas vezes, ações incongruentes com suas experiências… não lhe permitindo, simplesmente, experimentar essa vida em todas as suas possibilidades.

A história segue Bob Harris (Bill Murray), decadente ator que está gravando um comercial em Tókio e seu encontro com Charlotte (Scarlet Johansson), jovem recém-casada, negligenciada pelo companheiro, um fotógrafo workaholic. São estrangeiros em um país onde tudo que os cercam não reflete nem o seu exterior e, tão pouco, seu interior. Quando não obtemos eco do ambiente onde estamos, começamos a procurar segurança nas nossas lembranças e pensamentos. No entanto, se este é frágil, surge a insegurança, o medo e a questão: quem sou eu? O que estou fazendo da minha vida?

Bob, Bill Murray surpreendentemente sincero e frágil, não está somente deslocado externamente; o incômodo “interno” é visível em seu intenso olhar, uma mistura de insegurança e procura infantil. Nos primeiros minutos do filme, seus olhos cansados parecem buscar algo que perdeu em algum lugar ou tempo e seu semblante triste é de alguém que não tem esperanças em encontrar “isto” novamente, seus “anos dourados” estão distantes – e o seu emprego o lembra disso constantemente – e agora só existe a melancolia negra e profunda da espera do inevitável.

Já a solidão de Charlotte está na firmação do que construiu até aquele momento em sua vida, resultando no seu precoce casamento. Seus sonhos, desejos e até sua própria personalidade parecem não ter muito valor para o seu companheiro. Então o que vale realmente a pena? Ela está naquela bifurcação da vida onde suas escolhas moldarão o rosto que ela irá encarar todos os dias no espelho – pode ser de alegria, de satisfação, de fracasso ou de tristeza. Em ambos os casos, de Bob e Charlotte, existe uma necessidade latente de “se encontrarem”, mas essa percepção só será possível se ambos forem “encontrados” ou percebidos na sua verdadeira existência, sem máscaras. E em um cenário totalmente estranho, é mais fácil, em toda a sua fragilidade, alguém olhar para você, sem as máscaras de pai, marido ou esposa dedicada; sem essa “vestimenta”, o que resta para explorar é só a essência.

Os dois, apesar de casados, são solitários e seus relacionamentos são mais sociais que sentimentais – em que pese o tempo e o comodismo no que se refere ao casamento de Bob e as expectativas e o medo de fracasso no de Charlotte. Mas basta um momento onde as armaduras estão recolhidas, um estado de presença, sem palavras, na sutileza e a sensibilidade de um verdadeiro olhar, para eles se “perceberem”, no sentido figurado ou literal da expressão. Isso tudo sem apresentações e formalidades, só a naturalidade e a honestidade que surgem inerentemente de uma boa companhia, tão rara nos nossos dias.

Este elo forte entre Bob e Charlote é uma resposta à necessidade de uma conexão verdadeira e única que as pessoas procuram. E em um país estrangeiro esse sentimento pode ser ainda mais forte. Há, com isso, a percepção de que as pessoas que deveriam se importar, escutar e apoiar você – no caso de Charlotte há o marido e a irmã; e, no caso de Bob, a esposa – não atendem às expectativas, e quando tentam não se dão ao trabalho de entender ou simplesmente ouvir… só resta o julgamento e a incompreensão. Então, o sentimento interno é de realmente estar falando outra língua. É doloroso quando, ao telefone, a mulher de Bob indaga a ele – “eu preciso me preocupar com você?”, e ele responde – “só se você quiser”; resumindo, o relacionamento deles toma forma na praticidade de uma escolha, como o tipo de carpete do escritório – mais fácil essa decisão ao invés de procurar entender o comportamento de quem está do seu lado. No entanto,  é uma escolha o modo como construímos as relações e as mantemos.

No outro extremo, Charlote busca de todas as formas entender o que está acontecendo com seu casamento e um dos conselhos que ouve é de um “guru” de auto-ajuda que justifica os acontecimentos a nossa volta com um determinismo conformista, onde, segundo ele, a vida teria sido planejada anteriormente em outro plano. Este pensamento é momentaneamente acalentador por não apontar culpados e nem exigir uma ação de mudança. Mais à frente, em sua prática de Ikebana, ela encontra a resposta que procurava e sua maior lição: no final, é você que decide como “construir” tudo; a beleza está em pensar na melhor maneira de encaixar as peças, com paciência e coerência, para que o resultado seja o mais perto que você conscientemente buscou, mas sempre unindo sua sensibilidade com sua racionalidade.

Quando os dois personagens colocam em cheque suas experiências, é perceptível que ambos começam a caminhar para um estado de sujeitos de ação. Bob, na sua maturidade e amargura, diz – “Quanto mais você sabe quem você é e o que você quer, menos deixa que as coisas o perturbem”, e ela na sua insegurança e sabedoria responde – “Mas eu não sei quem eu sou”. Quando Bob definiu sua personalidade, ele colocou muros à sua volta, não permitindo a possibilidade que houvesse mudanças em sua personalidade. É como se tornar cobaia de algum experimento de Pavlov, sempre respondendo aos mesmos estímulos até a morte. Charlotte, desde o início, é inconformista, ainda existe aquela fagulha de esperança que a coloca em movimento e, conseqüentemente, tem forças para tirar ela e Bob do estado letárgico.

Ao final percebe-se a diferença no semblante de Bob, seu ar de satisfação não por ter tido aquela experiência, mas por permitir-se vivê-la. A última cena de intimidade de ambos, abraçados no meio da multidão, com o primeiro beijo e palavras ditas no pé do ouvido – onde só eles sabem o que foi dito, em uma escolha sábia da diretora – é um grande modelo do amor moderno. É esse o recado que Sofia Coppola deixa, com um pouco mais de esperança que em Virgens Suicidas… a vida é como uma ikebana. Outra pessoa que olhar vai enxergar algo estranho, meio sem nexo, uns vão achar bonito e muitos outros vão julgá-lo feio e desengonçado, mas só quem montou sabe como foi difícil harmonizar os detalhes e deixar todo o conjunto belo no final. Talvez, com sorte, alguém olhe para o que você construiu, pare e tenha o mesmo sentimento de completude e compreensão, e a mensagem que Encontro e Desencontros deixa é que sempre tem, é só dar uma olhada mais cuidadosa à volta.


FICHA TÉCNICA DO FILME

ENCONTROS & DESENCONTROS

Título Original: Lost In Translation
Gênero: Drama
Direção e Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
Produção: Sofia Coppola & Ross Katz
Fotografia: Lance Acord
Lançamento no Brasil:  23 de Janeiro de 2004
Duração: 101 minutos

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.
Autor / Co-Autores: