Eu não quero voltar sozinho

“Tem-se uma sexualidade desde o século XVIII, o sexo desde o XIX. Antes, tinha-se, sem dúvida, a carne”. (Foucault, [1977] 1994: 313)

Falar de assuntos complicados, mas de uma forma simples, com uma linguagem leve e casual, do jeito que deve ser. Esse é o desafio do diretor Daniel Ribeiro em “Eu não quero voltar sozinho”, (2010). Afinal, como falar da descoberta do amor entre dois adolescentes gays?

 Gabriel (Fabio Audi), Leonardo (Guilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim).

O curta promete ser polêmico, não apenas por tratar da homoafetividade na adolescência, mas também por trazer à tona tabus de nossa sociedade, como a resistência de uma parcela das instituições educacionais em falar de homoafetividade na infância e adolescência dentro das escolas. Diante disso, há o despreparo e o sofrimento de crianças e adolescentes que não sabem como lidar com sua afetividade de orientação homossexual.

O assunto se torna mais grave no caso do protagonista do curta-metragem. Leonardo (interpretado por Guilherme Lobo), além de se descobrir apaixonado por seu colega de escola: Gabriel (Fabio Audi), é deficiente visual e ainda, precisa administrar os ciúmes de sua melhor amiga: Giovana (Tess Amorim) que demonstra estar apaixonada por ele.

O curta se propõe a trabalhar um assunto desafiador: o despertar da sexualidade na adolescência de um deficiente visual de orientação homossexual. Como ele não conta com a visão para perceber seu objeto de desejo, Leonardo tem que explorar outros sentidos no ato da conquista como o tato, a audição e o olfato. Nesse jogo, ele começa se aproximar ainda mais de Gabriel. O seu dilema está em não saber se o sentimento é reciproco.

A leveza e a simplicidade com que o assunto é tratado parece ser a fórmula de sucesso que fez do curta o ganhador de mais de 80 prêmios nacional e internacional. Como a repercussão, o filme foi inserido noprograma Cine Educação por meio de uma parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos. Mesmo assim, ele foi censurado no estado do Acre, pois o governo associou o curta ao “kit anti-homofobia” distribuído pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), fortemente criticado e rebatido pelo seguimento religioso.

Em carta aberta, a produção do curta enfatiza a importância do uso de recursos alternativos como os filmes em sala de aula, pois além de serem excelentes instrumentos de auxílio pedagógico na prática do docente, têm potencial de formação crítica e da construção do perfil cidadão em crianças e adolescentes.

É fato que existe a resistência das instituições educacionais em abordar temas como a homoafetividade no ensino básico, fundamental e médio. A resistência também aparece na dificuldade em abordar a orientação sexual homoafetiva em sala de aula, prova disso são os fortes movimentos de resistência contrários ao – assim denominado – “kit anti-homofobia” do MEC.

As limitações são diversas. Às vezes pelo despreparo do profissional ou pela própria intolerância da instituição que (mesmo que involuntariamente) carrega valores da sociedade civil e/ou religiosa, que por sua vez, insiste no caráter patológico da homoafetividade. Nesse sentido, vale ressaltar, o que é orientado pela Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que afirma: a homossexualidade “não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão”, existe “na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio-culturalmente” e “a Psicologia pode e deve contribuir com seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a superação de preconceitos e discriminações” (CFP, 1999: s/p).

Em seu artigo “Diversidade Sexual na Escola”, resultado de mais de 2 anos de pesquisa realizando oficinas em escolas públicas do Rio de Janeiro para tratar do tema homoafetividade, Bortolini (2008) – entre outros dados –  mostra que os educadores de escolas públicas do Rio, ao falarem sobre demonstrações de afeto no ambiente escolar por casais homoafetivos, mesmo sob permissão da instituição, em seus discursos

apontaram não apenas que a homossexualidade é algo que deve ficar restrito à vida privada dos homossexuais (embora o mesmo não seja pedido aos heterossexuais), como também entendem a expressão das identidades sexuais (seja pelo afeto, seja pelo jeito de ser em contradição com as normas hegemônicas de gênero) como algo que pode “agredir” aos heterossexuais. Ou seja, a simples expressão dessa sexualidade não-hegemônica já seria, em si, uma violência aos que compartilham da norma (BORTOLINI, 2008, p.667).

Para além de demagogias, é preciso recordar e instituir valores perdidos que dizem respeito a uma educação democrática, pública e inclusiva. É preciso entender a diversidade como um direito de ser. Na expressão dessa diversidade está o sentido para a transformação e para o desenvolvimento humano.

A escola precisa reconhecer que estes alunos (homossexuais, transexuais, travestis, bissexuais, bem como aqueles –inclusive heterossexuais – que não seguem os padrões hegemônicos de comportamentode gênero) têm sim direito à educação pública. E educação plena,que não tenha como preço a invisibilização de suas identidades, a negação dosseus jeitos de ser, muito menos a mutilação de seus próprios corpos (BORTOLINI, 2008, p.687).

Nesse sentido, acredita-se que ao abordar temas como a homoafetividade em sala de aula de maneira rotineira, seja positivo no sentido de eliminar preconceitos e de melhor orientar/acolher crianças e adolescentes que se identifiquem como homossexuais. A utilização de filmes como o curta: “Eu não quero voltar sozinho” pode ser um importante instrumento de auxílio pedagógico aos docentes para fomentar outro aspecto da homossexualidade muitas vezes negligenciado pela sociedade: o direito a singularidade e de amar alguém do mesmo sexo, independente de faixa etária e/ou limitações físicas.

Referências:

BORTOLINI, Alexandre. Diversidade Sexual na Escola, 2008. Disponível em:http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/39/Documentos/diversidade_sexual_na_escola.pdf

Carta aberta – Censura do curta no Acre: http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho/censura.html

Assista ao curta metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”:  http://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI&feature=c4-overview-vl&list=PLE47C76FAE9FC0663


FICHA TÉCNICA DO FILME

EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO

Data de lançamento18 de julho de 2010 (mundial)
DireçãoDaniel Ribeiro
Duração17 minutos
RoteiroDaniel Ribeiro
Música composta porJuliano Polimeno, Tatá Aeroplano
ElencoGuilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Nora Toledo, Júlio Machado

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com