Imagem: familia saude mental

Família e Doença Mental de Jonas Melman

Melman, em seu livro, discorre sobre várias estratégias de acolhimento ao familiar de pessoas com transtornos mentais severos. Ele problematiza o posicionamento dos profissionais da saúde frente a esse acolhimento e a posição dos familiares e usuários frente ao que se chama de doença mental.

Melman aponta que há duas formas de se sujeitar os indivíduos à imobilidade frente a um determinado problema: a individualização frente à possibilidade de mudança (qualquer possibilidade de cura depende somente do corpo que adoece responder bem à terapêutica prescrita) e a taxação de que cada indivíduo tem uma identidade sabida, conhecida e imutável. Muitos dos familiares das pessoas que são usuários dos serviços de saúde mental podem se influenciar por essas formas de imobilidade. Como se quebrar tal imobilidade?

Primeiramente, ele aponta a necessidade de se produzir um ambiente que acolha as dificuldades desses familiares, ou seja, um ambiente que exale respeito e possibilite a construção de laços de confiança. O autor aponta que resgatar a esperança frente ao desânimo de se viver dificultosamente o sofrimento mental é o primeiro passo para que a família mude sua postura frente a esse sofrimento e consiga quebrar seus próprios preconceitos e limitações.

Os familiares quando procuram o serviço normalmente apresentam a sensação de impotência e de solidão frente às vivências. Por isso, o recurso de grupo de familiares tem um grande potencial para que cada um saiba da experiência alheia e coletivize a questão do sofrimento mental num nível de apoio entre os membros desse grupo. São comuns os sentimentos de culpa e medo em familiares e a vivência em grupo, através de questionamento e troca de experiências, tendem a quebrar os preconceitos e a construir outras formas de se viver a trajetória de cada um para fora das lentes da culpabilização e lastimação. No grupo, tende-se a se desviar da tentativa de se achar causa e efeitos dos problemas vividos e a iniciar um caminho de reflexão através do qual nunca se chega a uma verdade final, já que o sujeito é sempre constituinte. Isso se dá através da identificação que os membros de um grupo vão tecendo em relação às suas próprias histórias.

A postura dos profissionais frente ao grupo de familiares não deve ser a de tutela, ou seja, prescrever formas e receitas com regras para se lidar com o sofrimento próprio e do familiar. Cada núcleo familiar tem suas próprias concepções, crenças e valores e não precisam de receitas construídas a priori. Deve-se incentivar a utilização dos recursos que se tem no seio familiar e das relações sociais mais próximas (localizadas naquilo que se chama, no campo da saúde, de território) para construir outra maneira de se lidar com o sofrimento, em respeito aos valores de cada família. Encerrando, deixo uma frase do autor de profunda reflexão: “o louco na cultura implica em convidar a cultura a repensar suas relações com a loucura para reinventar seus limites e suas possibilidades de conexão”.