Harry Potter e a Câmara Secreta: a transformação do herói

O filme Harry Potter e a Câmara Secreta inicia com o garoto de férias novamente na casa dos desagradáveis tios. O bullying sofrido pelo herói agora se intensifica e a sua raiva e indignação também.
Conforme Kawai (2007), quando um ser humano quer se tornar independente e quebrar a identificação com os outros, ele precisa se conscientizar dos defeitos deles.

Isso é comum na puberdade, onde os jovens passam a ter sentimentos hostis em relação aos pais – alguns chegam ate a pensar que não são filhos de seus pais. Essa fantasia permeia Potter e ele cada vez mais se afasta de sua família consangüínea e retira as projeções do arquétipo paterno e materno dos pais pessoais. Um dia um elfo doméstico, Dobby, vai ao encontro de Potter na casa dos tios para alertá-lo a não voltar a Hogwarts, pois ocorrerão coisas terríveis com ele se ele voltar para lá. Mas com a ajuda dos Weaslay, o garoto foge dos tios e chega a Hogwarts.

Novos personagens se apresentam na saga: Gilderoy Lockhart, famoso bruxo escritor e galã, que não perde uma oportunidade de fazer marketing pessoal e Lúcio Malfoy, pai de Draco, que era um dos seguidores mais fiéis de Voldemort.

Em Hogwarts os jovens Potter, Hermione e Rony vão se deparar com o problema da aceitação e do bullying, pois Hermione é chamada de “sangue ruim”, por não ser filha de bruxos, mas de trouxas.
Nos grupos de jovens e crianças o bullying ocorre contra aquele que não se enquadra nos papeis do grupo, ou seja, com aquele que é diferente.

Sabemos que nos contos de fadas o herói mostra um ego arquetípico que está em harmonia com a totalidade da psique e que segue a jornada rumo à individuação. Pois bem, Harry no primeiro filme da série rejeita a proposta de Draco para se inserir em um grupo, mostrando que está no caminho da individuação e que não pode se identificar com o rebanho, correndo o risco de ter sua individualidade engolida.

Hermione também não segue o padrão da sociedade, ela é uma trouxa que quer se tornar bruxa. Ela segue os anseios de sua alma, e sabe muito bem que nasceu para ser bruxa, pois é uma das melhores de Hogwarts.

Sobre essa perseguição Von Franz (2010) diz:

“Em seu estado nascente, a realização do Self torna pessoa inadaptada e difícil para os seus, porque perturba a ordem instintiva inconsciente; Jung dizia que é como se um rebanho de carneiros percebesse que um dos seus membros deseja seguir seu próprio caminho.”

Potter se alia a Hermione e a defende, pois compreende esse sentimento de inadequação. Quando entramos nesse processo acabamos nos sentindo um estranho no ninho e um sentimento de solidão nos invade. Instintivamente iremos nos aliar àqueles que também estão nesse movimento de desidentificação com o grupo.

Além disso, é importante colocarmos aqui algumas observações que não foram comentadas no texto anterior. Os contos de fadas tratam de figuras arquetípicas presentes no inconsciente coletivo, por essa razão cada conto mostra aspectos coletivos, como forma de compensação da atitude unilateral da consciência. A escola Hogwarts pode ser interpretada como o inconsciente com seus arquétipos, especificamente o arquétipo do bruxo, ou mago.

O Mago, assim como o bruxo, é aquele que executa truques por meio da magia. Ele está sempre pronto a iludir e enganar com esses truques. Ele também é sedutor, pois afinal quem não gostaria de ter magia para poder tornar a vida mais fácil? Assim como Hermes – o Deus das revelações – ele pode nos pregar peças ou nos trazer soluções miraculosas para situações difíceis.

O Mago pode iniciar o processo de autocompreensão, que Jung denominava individuação, e guiar nossa viagem pelo mundo inferior dos nossos eus mais profundos (Nichols, 2007). Ele mostra milagrosa realidade do nosso mundo interior como os nossos dons e potenciais criativos. Ele então representa um poder que transcende o ego, ou seja, o poder do inconsciente. O ego humano sempre compreendeu esse poder e lhe proporcionou a ele a manifestação por meio de ritos mágicos.

Em termos coletivos, os contos de fadas se assemelham aos sonhos individuais, uma vez que possuem a função de compensar, confirmar, curar, contrabalançar e até criticar a atitude coletiva (Von Franz, 1984).
Harry Potter com sua magia compensa a atitude inconsciente do homem ocidental que deixou de acreditar no poder do inconsciente.

Em meus atendimentos psicoterápicos vejo as pessoas ficarem encantadas e embasbacadas com o poder mágico do inconsciente. Ao observarem seus sonhos e ao segurem as diretrizes do inconsciente, essas pessoas percebem verdadeiras mágicas acontecendo em seu dia a dia. Mas também existe o perigo da magia. Von Franz (1984) pontua que a alquimia, por longo tendeu para o aspecto mágico, tendendo assim para a inconsciência. Dessa forma o uso de rituais “mágicos” é uma forma de inconsciência, pois projetamos uma transformação interna desejada em objetos exteriores. A verdadeira magia ocorre, então, quando esse esforço transformador deve ser voltado para o interior.

Portanto, o quando o ego quer transformar algo em sua realidade ou algo dentro de si, precisa da ajuda do Self, pois ele tem capacidades mágicas e não o ego. A crítica da serie Harry Potter então está nessa falta de relação com o Self do ego do homem ocidental (trouxa), que tende a acreditar que pode resolver problemas de forma mágica, apenas com o seu próprio esforço.

Harry, Hermione e Rony descobrem então o segredo da Câmara Secreta. Uma lenda diz que um dos quatro Fundadores de Hogwarts, Salazar Sonseria queria que apenas estudantes “sangue puro” de famílias inteiramente de bruxos eram dignos de estudar magia, porém incapaz de persuadir seus três colegas a mesma opinião ele deixou Hogwarts, a lenda diz que antes de sair ele construiu uma Câmara Secreta escondida no castelo, que funcionaria como o lar de um Monstro, e que um dia o legítimo herdeiro de Sonserina voltaria à escola e abriria a câmara, libertando o monstro que mataria os alunos trouxas.

E é o que ocorre. A Câmara é aberta e alunos trouxas começam a serem petrificados, entre eles Hermione. Aqui então vemos novamente o problema da aceitação. Potter é sangue puro, contudo, ele compreende que a vocação é um caminho não determinado pelas convenções sociais e pela família. A nossa vocação é uma determinação do Self e nos leva ao caminho da individuação.

O grande conflito de Potter nesse filme é o de possivelmente ser o herdeiro de Sonserina. Pois ele consegue falar com cobras, sendo esse um dom raríssimo para bruxos e Salazar Sonserina também possuía esse dom. O herói novamente terá de enfrentar os poderes sombrios do inconsciente.

A cobra, assim como a serpente, é um animal consagrado as deusas ctonicas. Representa o renascimento, a renovação, o mistério, a sexualidade e a morte. O fato de a cobra pertencer as mães terríveis na Mitologia simboliza que Potter terá de enfrentar os aspectos regressivos da psique, ou seja, o seu desejo instintivo pela infância perdia. Harry está deixando a infância, entrando na puberdade e se anuncia um encontro com o feminino, com a anima.

Ele então descobre que Voldemort é o herdeiro de Sonserina e que seu nome era Tom Marvolo Riddle, que controlou Gina Weasley, por meio de seu diário obrigando-a a libertar o basilico, uma cobra gigante que mata todo aquele que a olha diretamente. Potter então mata o monstro e liberta Gina que está morrendo.

Em a Câmara Secreta então há uma mudança significativa no herói. Potter agora se transforma no típico herói de contos de fadas, que mata o monstro e salva a donzela, com quem futuramente ira se casar.O fato de Gina ser controlada por Voldemort mostra que em um primeiro acesso ao inconsciente os componentes da psique não são tão claros e podem se misturar. É comum em contos de fadas, a princesa ser presa e controlada por um demônio e o herói ter que redimi-la. Isso significa que a anima, o lado feminino no homem se encontra contaminada por elementos sombrios e precisa ser resgatada para que ocorra a diferenciação desse componente psíquico.

Novamente Potter, como herói, restabelece a condição saudável da psique, salvando a escola e os amigos. No entanto sua jornada está apenas começando e cada vez mais ele amadurece em rumo a individuação.

FICHA TÉCNICA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

Precedido por: Harry Potter e a Pedra Filosofal
Seguido por: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
Adaptação: Harry Potter e a Câmara Secreta (2002)
Ano: 1998

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.