Harry Potter e a Ordem da Fênix

O filme se inicia com um ataque dos dementadores ao mundo dos trouxas. Harry usa seus poderes para livrar seu primo Duda do ataque dos dementadores e vai a julgamento por isso, pelo Ministério da Magia Harry inicia essa nova jornada ainda no estágio da mortificatio, como citado no texto anterior: Harry Potter e o Cálice de Fogo. Aqui partes do ego do herói ainda precisam morrer para que ele se desenvolva e amadureça mais ainda.

O Ministério da Magia não acredita que “Aquele que não se pode pronunciar o nome voltou” e sobre isso é importante colocar algumas observações.

Quando algo, ou alguém, não tem um nome também não possui existência. Ao nascermos, recebemos nomes e um registro de nascimento. No nome está a nossa personalidade. Ao não nomear o mal, estamos nega-se a sua existência. Essa é uma atitude muito comum no Cristianismo, que se refere ao Mal como a ausência do Bem.

Pois, por mais paradoxal que isso possa soar, ao não nomear o Mal e ignorar a sua existência lhe damos mais força. É comumente dito pela psicanálise e pela psicologia analítica que todo conteúdo psíquico ignorado retorna ao inconsciente se transformando em um complexo autônomo, com força e energia para tomar o ego e deixá-lo subjugado.

Em psicoterapia ao nomear um problema é colocado um rótulo nesse problema. Ao dizer ao paciente: “Isso é um Complexo Materno!”, rotula-se o problema e se utiliza a racionalização. Conforme Von Franz (1984) nomear um complexo é um produto da esperteza humana. Uma forma de aprisionar, por meio de sua sagacidade e inteligência, coisas que comumente lhe escapam.

Nós comumente desaprovamos a racionalização, pois usamos a palavra no sentido depreciativo. Dizemos: ‘”Não racionalize!”. Mas como em tudo mais, existe um duplo aspecto nisso: de fato, constantemente temos que utilizar a mente e a inteligência para aprisionar gênios e outros demônios.”(VON FRANZ, 1984).

A questão é que usar um pouco de racionalização pode auxiliar a pessoa a sair do estado caótico e seguir em frente. Essa é obviamente uma solução temporária e o conteúdo aprisionado pelo rotulo deve ser encarado. E é justamente a luta pela aceitação por parte da consciência de que existe um problema, ou seja, um complexo autônomo sombrio atuando, que o herói trava nesse filme da série.

Harry então é levado até a casa de Sirius Black e lá ele conhece a Ordem da Fênix. Uma ordem secreta de bruxos que acreditam em Harry e estão em prontidão de combate contra o Voldemort e seus aliados. Harry, Hermione e Rony retornam a Hogwarts e lá há outra professora de Defesa contra as Artes das Trevas, contratada do Ministério da Magia. A irritante Dolores Umbridge, que resolve ensinar a eles por um livro, ao invés da prática. Ela também desacredita Harry dizendo, que Lord Voldemort não voltara. Ela passa a perseguir Potter e praticar bullying com ele e com quem se aliasse ao garoto.

Depois de algum tempo, Dolores é colocada pelo Ministério como Alta Inquisidora de Hogwarts. Com isso, Harry e alguns de seus amigos fazem um grupo secreto chamado Armada de Dumbledore para ensinar verdadeira Defesa contra as Artes das Trevas. E o professor é Harry!

Sobre essa Inquisição imposta por Dolores é importante colocar que a professora é o símbolo da repressão que a consciência impõe a qualquer conteúdo do inconsciente que está aflorando. Toda e qualquer mudança não é bem vinda pelo ego, em um primeiro momento. Vide as principais mudanças da humanidade: todas precedidas por perseguições e guerras.Sobre o bullying sofrido por Potter é importante salientar que existe uma tendência na consciência a se manter no mesmo estado. Há uma força que nos impele a nos manter inconscientes e dissolvidos no coletivo.

Quando uma pessoa se individua, deixa de ser um carneiro do rebanho e o equilíbrio do grupo deve ser restabelecido. No momento em que um dos fatores se retira os outros sentem como uma ameaça a lacuna assim criada; tornam-se então agressivos e tentam forçar o infiel a retornar ao nível inconsciente anterior (VON FRANZ, 2010).

Harry está seguindo no caminho da individuação e não está mais no estado inconsciente a respeito dos aspectos sombrios reprimidos e esquecidos. Por essa razão a figura da Inquisidora aparece. É como a pessoa que empreende um processo de analise e em seguida a família toda começa a ficar agitada e agressiva com essa pessoa.

No entanto, no aspecto positivo, quem segue o processo de individuação consegue influenciar sem esforço, outras pessoas; pois existe uma força no interior de cada ser humano que impele à consciência.
Essa força de atração para a consciência se vê no filme, quando Potter se torna professor. Sua vivencia com o inconsciente e com os desafios e as dores superados, o acionam como alguém que pode ensinar a outros a seguir seu próprio caminho.

Como citado ano começo do texto, Harry ainda está no processo alquímico denominado Mortificatio, que se iniciou com a morte de Cedrico. Ele parte com seu grupo de amigos em busca da profecia a respeito dele e de sua ligação com Voldemort, e descobre que um só pode viver se o outro morrer. A mortificatio está associada à nigredo, ou seja, ao negrume e à cor negra.

A nigredo é um estado muito doloroso muito difícil, pois se refere à sombra. No filme Potter reclama, xinga e é injusto muitas vezes, principalmente com Hermione e Rony. Ele está em contato com o que há de pior em sua alma, ele está se conscientizando sobre sua própria sombra. Esse negrume tem origem com a morte de alguma coisa. Como visto no filme anterior, o que morreu foi uma parte de Harry identificado com uma persona perfeita.

Conforme Edinger (2006), explosões de afeto, ressentimento, prazer e exigência de poder devem se submeter à mortificatio para que a libido emaranhada em formas infantis e primitivas se transforme. E Potter vai submeter essas explosões de afeto infantis suas à mortificatio. Ao buscar a resposta sobre sua condição seus amigos se tornam presas do grupo e Voldemort. A Ordem da Fênix então vai até lá e se inicia o confronto; um embate entre opostos onde Harry se encontra.

E nesse embate Sirius Black morre.

Sirius, como visto em O Prisioneiro de Azkhaban, é o padrinho de Harry e um símbolo do complexo paterno do menino. Von Franz (2010) diz que quando alguém morre em um sonho, isso indica que essa pessoa não representa mais de maneira válida o conteúdo inconsciente que nela se encarnava. Mas a energia psíquica que estava investida sob essa forma não se perderá; reaparecerá em outro nível.

A energia então investida em Sirius Black foi transformada e Potter agora terá que investi-la em algo mais evoluído. O arquétipo do Pai que está por trás do complexo paterno de Potter será investido em algo mais evoluído. Potter admira e busca figuras paternas em pessoas mais velhas. Observamos esse complexo atuando, quando o bruxo busca constantemente a atenção e aprovação de Dumbledore.

A questão do complexo paterno para o menino está ligada a formação de sua identidade masculina. Na relação com Sirius e Dumbledore, o menino descobriu o pai humano e acessível e essa imagem deixou de ser distanciada da realidade e idealizada. Agora ele consegue ver as qualidades e defeitos do pai. Potter está em processo de afirmação de sua identidade masculina e assimilando em sua personalidade as características desse pai da qual ele foi privado de contato afetivo. Por essa razão Potter é tão inseguro quanto a si mesmo.

É o pai que permite que o filho se lance no mundo externo com segurança. Ele sai do âmbito familiar para a sociedade, para colocar seus dons e criatividade a serviço do coletivo. A relação com o pai permite que o menino não caia na imagem do puer aeternus e assuma a sua virilidade e passe a ter um papel social. Potter então terá que colocar seus dons a serviço de algo maior. Ele assumirá a responsabilidade de ser o herói. Veremos então esse desenvolvimento da personalidade do herói nos próximos filmes da série.

REFERÊNCIAS:

EDINGER, E. F. Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.
VON FRANZ, M. L. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.
VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fadas. 3 ed. Paulus: São Paulo: 1984.
VON FRANZ, M. L. O feminino nos contos de fada. Vozes. São Paulo: 2010.

FICHA TÉCNICA 

HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX

Adaptação de: Livro Harry Potter e a Ordem da Fênix
Direção: David Yates
Série de filmes: Harry Potter
Duração: 2h 22m
Ano: 2007

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
Autor / Co-Autores: