Harry Potter e a Pedra Filosofal: a jornada do herói

Harry Potter é uma saga de grande sucesso escrita por J. K. Rowling e adaptada as telas de cinema em 2001. A historia trata de um garoto órfão de pai e mãe, prestes a completar 11 anos e que vive com os tios desagradáveis. Até descobrir que na verdade ele é um bruxo e que esta sendo convocado a ingressar a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde seus pais, também bruxos, estudaram.

Ele também descobre que seus pais foram assassinados por um bruxo das trevas Voldemort e que ele miraculosamente sobreviveu ao ataque, ficando apenas com uma cicatriz em formato de raio em sua testa e assim se transformando em uma celebridade.

Gif: Harry Potter
Gif: Harry Potter

Iniciando a análise vemos que Potter é o herói da saga. E como herói ele representa um ego arquetípico, que está em harmonia com a totalidade da psique. O herói é aquele que está em consonância com as determinações do Self e nos contos de fadas é aquele que vem restabelecer uma atitude saudável da consciência coletiva (Von Franz, 2005).

Nos contos e mitos o herói costuma nascer de forma prodigiosa. Ele pode nascer falando, andando ou realizando alguma proeza. Além disso, ele pode ter um nascimento miraculoso (nascer de uma virgem, a mãe ser fecundada por um ser mágico, ou os pais serem estéreis), ou possuir uma marca ou defeito de nascença que o distingue dos outros.

Gif: Harry Potter 2
Gif: Harry Potter 2

E vemos essa marca em Potter. Apesar da marca não ser natural, mas produzida pelo confronto com o mal, observamos que o garoto terá um destino incomum, especial. Esse nascimento miraculoso e especial dos heróis costuma representar uma necessidade intrínseca do ser humano pelo milagre, ou seja, pelo numinoso, por aquilo que nos tira da dura realidade da vida e nos transporta para algo que transcende ao ego e que dá sentido a essa dura caminhada.

Com o herói aprendemos que seguindo o caminho que o Self nos determina e seguindo nossos instintos e ouvindo a voz do inconsciente podemos transmutar as dificuldades e assim os milagres começam a acontecer em nossas vidas. O fato de ser produzida pelas forças do mal mostra que Potter é marcado por seus aspectos sombrios. Que os enfrentou e saiu ileso. E esse é o grande feito do nosso herói.

Ao encararmos nossos aspectos sombrios desenvolvemos uma espécie de faro e de vacina contra o mal. Deixamos de ser presas fáceis de influencias malévolas. Conforme Von Franz (1984), quando uma pessoa conhece todas as possibilidades do mal contidas em si mesma, desenvolve uma espécie de segunda visão, ou seja, a capacidade de farejar a mesma coisa nos outros.

Potter de certa forma é semelhante a Voldemort – ele inclusive usa a mesma varinha mágica que seu antagonista – e, mesmo a despeito de Voldemort tentar destruir o garoto, isso o torna invulnerável a ele, tornando-o o único capaz de enfrentar essa força. Harry também mostra que a criança desamparada geralmente cria a fantasia de que alguém chegará e a tirará do mundo de miséria – financeira ou emocional – em que vive. E, de certa forma, todas fazem isso. Elas fantasiam que vivem um conto de fadas, pois o ego infantil ainda não tem estrutura para encarar a realidade como ela é.

Então a criança vive esse mundo mágico imaginando que é um herói salvador para que o ego de desenvolva e que possa seguir um modelo arquetípico quando partir em sua jornada ao mundo, uma vez que o herói nos contos e mitos representa esse ego arquetípico que se encontra em harmonia com a totalidade psíquica. É uma pena que, quando adultos, percamos essa conexão com os mitos e contos e passemos a encarar como atividades infantis.

Os pais de Potter estão mortos e são substituídos por pais postiços desagradáveis. É muito comum nas crianças, por volta da idade de 11 anos, imaginarem que não são filhos de seus pais, mas de figuras importantes, de reis e rainhas, heróis e heroínas. Nessa época a criança passa a enxergar os pais como seres humanos e seus defeitos começam a saltar aos olhos. Ocorre a retirada da projeção das imagens parentais.

Conforme Carl Jung (2008), quando ocorre o despertar da consciência começa a ocorrer concomitantemente uma separação da consciência do ego da criança de sua mãe pessoal, com a qual vivia em estado de participação exclusiva e identificação inconsciente. Assim todas as qualidades fabulosas e misteriosas da imagem arquetípica desprendem-se da imagem materna. E quanto mais o arquétipo se afasta da consciência, mais clara esta se torna e o primeiro assume uma forma mitológica cada vez mais nítida.

E é isso que ocorre com Potter, seu consciente se afasta da inconsciência e assim a imagem da Mãe se transforma em uma bruxa do bem, que se sacrificou por ele, como um ser divino. E essa imagem passa a ser projetada na escola Hogwarts, a escola que o recebe e acolhe. O arquétipo então subiu de categoria.
Temos exemplos em contos de fadas de heroínas sendo feitas de empregadas pelas madrastas ou bruxas, como, por exemplo, Cinderela. No entanto não é comum vermos um herói masculino sendo subjugado dessa maneira.

A heroína geralmente deve suportar o sofrimento até que algo miraculoso aconteça e ela pode agir, enquanto que o herói parte para a ação matando dragões e monstros. Isso mostra uma mudança de paradigma necessário para a sociedade ocidental que se baseia na ação extrovertida. Potter suportando os desaforos dos tios e do primo e esperando até que miraculosamente ele saia da situação mostra que às vezes o ato heróico é justamente suportar a situação pacientemente até que ela se resolva por si mesma.

Os tios tentam sem sucesso impedir que Potter receba a carta de Hogwarts e descubra seu destino especial. Isso representa a tendência da consciência a tentar impedir a mudança. Nós sempre tentamos impedir e questionamos as mudanças que surgem do inconsciente, pois queremos permanecer naquilo que é conhecido, mesmo que não seja mais adequado a nós e seja destrutivo.

Mas é impossível conter o fluxo do inconsciente e ele sempre acaba encontrando um meio de se manifestar. E isto esta simbolizado na enxurrada de cartas na casa dos Dursley. Outro aspecto importante e que não pode ser ignorado é o fato dos bruxos chamarem as pessoas normais de trouxas. Isso remete a ideia de normose. Ser muito normal e adequado ao que a sociedade prega e aos costumes sem consciência é nocivo ao desenvolvimento da personalidade.

Gif: Harry Potter 3
Gif: Harry Potter 3

Os bruxos alcançaram uma autonomia e não seguem os ditames da sociedade. Eles são o que são e transgrediram as leis da família de origem e sociedade, dessa forma é natural que vejam os seres comuns com desdém. Potter então segue para sua nova vida em Hogwarts e lá é recebido como celebridade, causando admiração de uns e inveja de outros. Lá ele faz dois amigos Hermione e Rony, que serão seus leais aliados em sua jornada iniciática.

Deixar a casa dos pais e seguir para uma nova vida e encontrar amigos e novos interesses é a primeira fase da iniciação dos jovens para a vida adulta. Os contos de fadas mostram de forma bastante evidente a simbologia da iniciação, onde os heróis precisam passar por provas para provarem o seu valor e merecimento para atingir um objetivo e mudar de fase de vida.

Primeiramente ele rejeita a proposta de Draco para se inserir em um grupo. Isso mostra que Harry quer seguir o caminho da individuação e buscar quem ele é, sem estar inserido em um grupo que lhe dita as regras de comportamento. Quando nos diluímos no coletivo perdemos a nossa individualidade.

Potter inicia então seus ritos de iniciação. Ele precisa provar seu valor no quadribol primeiramente para provar a si mesmo o seu valor e que está a altura do desafio. Ele também precisa enfrentar o espelho que mostra seus desejos mais profundos. Ao olhar para o espelho ele vê seus pais perdidos e anseia por te-los novamente. Isso mostra que para alcançarmos a autonomia precisamos lutar contra desejos regressivos, o anseio pelo paraíso perdido da casa parental.

Potter não pode mais voltar, regredir, ele deve aceitar a morte simbólica desse paraíso para que possa progredir em sua jornada. Em seguida, juntamente com os amigos salva a pedra filosofal das mãos de Voldemort. A pedra filosofal era o ideal dos alquimistas na Idade Média. Ela teria o poder de transformar qualquer metal em ouro e assim produzir o elixir da imortalidade. Ela é a meta da Opus Alquímica.

Carl Jung se debruçou sobre o estudo da alquimia e percebeu que se tratava de uma projeção de conteúdos psíquicos e que essa meta é a individuação e os processos alquímicos da matéria são simbólicos. Processos esses pelos quais a alma deve passar para se purificar e chegar a meta de se tornar si mesmo. O ouro, material incorruptível é um símbolo do Self e daquilo que em nós é nobre e incorruptível. O centro do nosso ser, nossa verdadeira essência.

A pedra filosofal é o maior desejo de Voldemort, uma vez que ela poderá traze-lo de volta a vida e mantê-lo eternamente jovem. Essa sede pela pedra mostra algo comum em nossa sociedade: o de querer a juventude eterna a custa de muito sofrimento psíquico. Não aceitamos o envelhecimento e conseqüentemente a morte.

O que Voldemort não compreende é que essa juventude é a da alma. Encontrar a meta de nossa vida e nos relacionarmos com o inconsciente traz a renovação para a alma, um novo alento nos enche de esperança. Isso se manifesta de forma clara no fato de Potter ser uma criança ainda. A criança é símbolo de juventude, do vir a ser e de renovação. Ela também é um símbolo do Self.

Concluindo, nossa sociedade precisa aceitar que a renovação e a fonte da juventude é interna e da alma. Ela é, portanto, simbólica. Ao fixar apenas no aspecto físico da juventude e literalizá-la nos transformamos em Voldemort e nos tornamos verdadeiros vampiros que sugam a energia e mortos-vivos. Com medo da velhice e da morte, passamos a viver uma vida pela metade e nos tornamos parasitas de outros.

Portanto Potter é um alento para a consciência tanto individual como coletiva, pois ele mostra que a meta é interna e que deve trazer a ética ao individuo. Mesmo quando Potter e os amigos burlam as leis eles fazem de forma a seguir uma ética interna. Ou seja, de seguir esse desejo imperioso do Self. Em uma sociedade pautada no individualismo, que visa apenas o externo, os ganhos e a juventude eterna Harry Potter vem e nos mostra o caminho contrário: o da ética, da firmeza, da cooperação e solidariedade.

FICHA TÉCNICA

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

Direção: Chris Columbus
Série de filmes: Harry Potter
Música composta por: John Williams
Duração: 2h 39m
Ano: 2001

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
Autor / Co-Autores: