Harry Potter e as Relíquias da Morte: o sacrifício do herói

Harry Potter e seus amigos, Ron e Hermione, decidem não cursar o sétimo ano da Escola de Hogwarts. Após a morte de Dumbledore, a direção foi assumida por Severo Snape, que agora responde ao Lorde Voldemort. Os três amigos decidem encontrar e destruir as Horcruxes – objetos nos quais Voldemort depositou pedaços de sua alma para então se tornar imortal – antes que o vilão recupere totalmente seus poderes e mate Harry.

Antes de partirem, os três bruxos recebem itens deixados a eles por Dumbledore como herança: Hermione recebe uma cópia do livro “Os Contos de Beedle, o Bárdo”; Rony recebe o Desiluminador; e Harry, o primeiro Pomo de Ouro que ele pegou em um jogo de Quadribol com as inscrições “Abro no fecho”. Todos esses acessórios serão de grande utilidade a eles.

Mesmo com Voldemort ainda em busca da destruição de Harry, os três amigos vão em busca da Horcruxes. Um medalhão que está sob o poder de Dolores Umbridge no Ministério da Magia. A alma de Voldemort foi quebrada em sete pedaços e depositada em diversos objetos, para que assim continuasse vivo após ter o corpo destruído. Já comentei anteriormente que se trata da operação alquímica separatio, que consiste em pegar a prima matéria e separá-la em pedaços para que possa ser transformada.

Em nosso processo de digestão, as moléculas dos alimentos precisam ser quebradas e separadas para que o organismo consiga assimilar os nutrientes. Harry precisa confrontar cada parte da alma de Voldemort para que possa assimilar esse conteúdo sombrio. Sua alma e a do vilão na verdade são a mesma. O assassinato, a maldade são aspectos sombrios que Harry precisa encontrar e encarar. Tanto que em seus sonhos Potter consegue ver as ações de Voldemort.

Ron destrói o medalhão usando a espada de Grifinória, enfrentando seus maiores medos no processo. Cada Horcruxes representa um enfrentamento do medo e é um processo para que os jovens bruxos cresçam. Com isso, três Horcruxes estão destruídas (O diário de Tom Riddle, o anel de Tom Riddle e o medalhão de Salazar Sonserina), restando apenas três (Nagini, a taça de Helga Lufa-Lufa e o diadema de Rowena Corvinal), e também o pedaço da alma de Voldemort que ainda reside com ele.

Nesse ínterim os três jovens descobrem sobre as Relíquias da Morte: A Varinha das Varinhas, a Pedra da Ressurreição e a Capa da Invisibilidade, que juntos, dão ao seu mestre o poder de enganar a morte. Sobre essa história é importante salientar que as três relíquias formam uma reta, um circulo e um triângulo. Ou seja, elas seriam símbolos da vida tridimensional na Terra, ou seja, a vida humana.

Não é um símbolo de totalidade, pois falta um quarto elemento. Essa totalidade está no elemento sombrio e renegado pela consciência. No entanto, essas relíquias simbolizam a busca pela imortalidade que o ser humano anseia. A busca por vencer a morte. É o cerne a sociedade contemporânea. Cada vez mais se vê remédios e os cosméticos mostram essa ânsia pela juventude eterna e pela luta pela vida eterna. No entanto, a morte é extremamente importante. É por meio dela que se constela a vida. Fugir da morte só a atrai.

É o que se chama de enantiodromia.

Heráclito exemplifica esse conceito com o exemplo do arco e flecha: ao puxar a corda do arco em uma direção lançamos a flecha na direção oposta. O mesmo ocorre quando atiramos um objeto para cima: quanto mais forte o lançamos, maior é o impacto que causa ao retornar. Dessa forma, o retorno ao oposto da força seria uma lei natural da vida.

Em termos psicológicos, Jung (1973) dizia:

“Todo extremo psicológico contém secretamente o seu oposto ou está de alguma forma em estreita relação com ele. Na verdade, é desta contradição que ele deriva a dinâmica que lhe é peculiar. Não existe rito sagrado que eventualmente não se inverta em seu oposto, e quanto mais extremo se tornar uma posição, tanto mais se pode esperar a sua enantiodromia, sua reversão para o contrário”.

Portanto aquele que domina a morte é o senhor da vida. Para Jung (1995),

“Só escapa à crueldade da lei da enantiodromia quem é capaz de diferenciar-se do inconsciente. Não através da repressão do mesmo — pois assim haveria simplesmente um ataque pelas costas — mas colocando-o ostensivamente à sua frente como algo à parte, distinto de si.”

Harry então está em busca dessa diferenciação, se colocando a frente daquilo que mais teme: a morte.
Paralelamente, Voldemort abre a tumba de Dumbledore e rouba a Varinha das Varinhas, apontando-a para o céu e invocando a Marca Negra. Harry e seus amigos seguem em busca das Horcruxes restantes. Para isso precisam retornar a escola que agora está sob a direção da professora Minerva. E assim começa a batalha entre Voldemort e os comensais da morte e Harry e os seus aliados.

Voldemort assassina Snape. E Harry descobre que tudo foi armado por Snape e Dumbledore, inclusive a morte do ultimo. Harry vê, então, as memórias de Snape e descobre que ele mesmo é uma Horcrux. Ele decide se entregar à morte e, após ver, dentro do Pomo de Ouro, a Pedra da Ressurreição, Harry vê seus pais e Sirius o que lhe dá mais forças para fazê-lo e se juntar a eles na morte.

É muito comum os filhos quererem, por amor, seguir os pais (ou um dos pais) na morte. Harry se sente dessa forma, pois os pais e o padrinho morreram. Ao encarar que já vivia na morte ele se conscientiza de que precisa viver, e que o amor deles é o combustível para que viva a vida plenamente. Harry é “morto” por Voldemort percebe que além de Voldemort não poder matá-lo quando era bebê, ele não pode fazer isso porque usou seu sangue para reconstruir seu corpo.

Harry percebe que ele é a vitima sacrificial.

É importante salientar que quando há um encontro do ego com o inconsciente, o ego sempre sente a experiência como uma morte. Isso ocorre com o problema dos tipos psicológicos, no enfrentamento da função inferior. Todo encontro com a função inferior resulta em uma morte para o ego, pois há uma transformação total da personalidade.

Harry vai passar por uma transformação profunda em sua mortificatio. Ele ouve de Dumbledore que Voldemort não pode matá-lo, pois parte de sua alma está nele. Nesse instante Harry se torna consciente de sua identificação.

Conforme Newmann (1995) no desenvolvimento da personalidade da fase do herói solar ocorre o assassinato dos pais. Esses pais não são os pais pessoais, mas figuras transpessoais internas – as imagos parentais – que prendem o ego ainda em um estágio indiferenciado e dependente. O herói precisa com isso provar a sua masculinidade e força.

Harry tem os pais mortos por uma figura sombria. Newmann (1995) ainda cita que em contos é comum o herói enfrentar um dragão, uma bruxa, um monstro e também um bruxo. Após esse enfrentamento o herói encontra a cativa e começa a se relacionar com a anima e se torna ele mesmo pai e alguém responsável.

O jovem então retorna da morte e se torna apto a matar Voldemort, travando um longo duelo com o bruxo. A conscientização de Harry se deu pela separação do eu e não-eu. Harry olha para seu complexo paterno de forma objetiva e retira a desidentificação, adquirindo forças para matar o bruxo, ou seja, para superar esse complexo aprisionador.

Após esses eventos, Harry se casa com Gina, e após 19 anos seus filhos vão para Hogwarts, juntamente com os de Rony e Hermione. Mostrando que novas aventuras estão por vir, novos enfrentamentos e que o processo de individuação é cíclico.


REFERÊNCIAS:

EDINGER, E. F. Anatomia da psique: O simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo, Cultrix: 2006.

JUNG, C. G. Símbolos da Transformação. C.W. V, 2.ª ed. Petrópolis : Vozes, 1973.

JUNG, C. G. Psicologia do inconsciente. C.W. VII/1, 10.ª ed. Petrópolis : Vozes, 1995.

NEWMANN, E. História da Origem da Consciência. 10 ed. Cultrix. São Paulo: 1995.

VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fadas. 3 ed. Paulus: São Paulo: 1984.

FICHA TÉCNICA

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE

Direção: David Yates
Adaptação de: Harry Potter e as Relíquias da Morte
Série de filmes: Harry Potter
Música composta por: Alexandre Desplat
Autora da Série: J. K. Rowling
Precedido por: Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Adaptações: Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010), Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011);
Prêmio: Prêmio Andre Norton

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.