Hoje Eu Quero Voltar Sozinho: pensando diferente

“Existem momentos na vida
onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa,
e perceber diferentemente do que se vê,
é indispensável para continuar a olhar ou a refletir.”

Michel Foucault

Imagine ser tomado por uma paixão platônica avassaladora, mas sem nunca ter visto o rosto de seu objeto de desejo! Um sentimento jocoso e singelo que acontece devagar, pela convivência. No ouvir do som grave do timbre de voz, e da leveza como essa pessoa toca no seu ombro.

É assim que nasce o amor que da liga à história de dois adolescentes de uma mesma escola paulista.

Estou falando do longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que conta a história de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente com deficiência visual que está atravessando a adolescência: uma fase de vários questionamentos e conflitos internos. A trama se dá entre os desafios de Leo em conseguir autonomia juntos à sua mãe, diante de sua deficiência versus o dilema factual: Com quem será seu primeiro beijo?

A adolescência é uma fase da vida caracterizada pelo foco no presente, sem cogitar as consequências futuras dessas decisões (COLL, 1995). Para dar vazão aos conflitos (os internos e os familiares), Leonardo conta com o apoio de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim), seu porto seguro, principal parceira e confidente.

A história começa com o início do ano letivo e a chegada de um aluno novo na escola, Gabriel (Fábio Audi), que logo se aproxima dos amigos Leo e Giovana.

Logo, os três adolescentes começam uma grande amizade que atravessa vários desafios: Giovana se vê apaixonada por Leo, e não suporta os ciúmes de vê-lo estar cada vez mais próximo de Gabriel, que por sua vez enfrenta a descoberta da sexualidade de ordem homoafetiva e o desejo que sente em segredo pelo seu novo amigo.

Para Cória-Sabini (2001) é durante a adolescência que ocorre a interação entre o sujeito com grupo de iguais, envolvendo gêneros distintos. É comum surgirem neste momento os relacionamentos de ordem sexual e afetiva entre os integrantes desses grupos com seus pares.

O Despertar da sexualidade na adolescência está diretamente ligado à puberdade e maturação dos órgãos genitais. O desenvolvimento de laços afetivos nesta fase, tem forte ligação ao grupo com o qual o jovem forma seus pares, o que envolve característica pessoais e de expressão da personalidade.

Arminda Aberastury (1981) afirma que o adolescente tem necessidade em romper seu elo com o mundo infantil, mortificando fases anteriores. Sua postura diante de tal “luto”, seria a justificativa para a postura que este sujeito toma diante do grupo social no qual está inserido.

A inquietação e comportamento rebelde, também comuns nesta fase, estariam diretamente ligados a perda da infância e necessidade de assumir uma nova postura de vida e ideais, o que nem sempre é bem aceito pelos pais, que não aceitam muito bem o fato de que o jovem está crescendo, encerrando assim o vínculo de dependência.

Leonardo sente essa necessidade de romper com a dependência da sua mãe, sobretudo pela deficiência visual, ele vê a necessidade de mostrar à ela que ele pode sim, ter uma vida normal, e gerir sua existência sem precisar da atenção constante da mãe frente à sua particularidade, a deficiência visual.

Ao falarmos em adolescência, é preciso entender que a Puberdade é vista tão somente como uma fase biológica de mudanças fisiológicas e hormonais no corpo do adolescente. Não apresenta faixa etária fixa, podendo variar dos 09 aos 14 anos de idade, ou mais, pesquisas atuais indicam que seu termino, no mundo contemporâneo, acontece por volta dos 25 anos.

É uma fase caracterizada por transformações bruscas no corpo da criança, resultando na maturação dos órgãos genitais masculinos e femininos. Estudos comprovam uma relação direta entre as mudanças físicas e o enfrentamento psicossocial do sujeito nessa etapa do desenvolvimento humano, demonstrando uma sobreposição entre Adolescência e Puberdade, ainda que ambas sejam estudadas e concebidas separadamente. Assim, torna-se necessário entender a adolescência como um fenômeno psico/sócio/cultural, e puberdade como um fator bio/sócio/cultural (COLL, 2004).

As alterações biológicas geralmente afetam emocionalmente o adolescente, interferindo em sua maneira de conceber o certo e distingui-lo do errado, nesta fase novos mecanismos de percepção estão à disposição do adolescente para auxiliá-lo a tomar decisões, contudo caberá a ele (o sujeito) distinguir.

É aqui que se dá a conflitiva de Leonardo: Como ser ele mesmo, diante de um mundo que a) pensa que ele é incapaz de ser autônomo e gerir sua existência e/ou b) o ridiculariza e se aproveita de sua limitação sensorial para demonstrar sua fragilidade. Em meio a tudo isso, há a descoberta da sexualidade acompanhada do desejo homoafetivo pelo novo amigo, o qual ele não sabe se irá corresponder às suas expectativas.

O grupo social de Leonardo está na escola e nos adolescentes dos quais ele está mais próximo. A maioria dos seus colegas de aula o aceitam no grupo independente da deficiência visual, isso se confirma ao longo do filme, exceto por eventos específicos nos quais alguns de seus colegas tiram vantagem de suas limitações com brincadeiras que podem facilmente serem comparadas a episódios debullying na escola.

Arrieta (2000) cita alguns estudos de Piaget que apontam para as interações sociais de agregação de valores culturais como resultantes das trocas de experiências do período escolar. Elas também seriam responsáveis pela formação moral do ser humano. Geralmente são os primeiros contatos, aqueles estabelecidos na segunda infância, que fornecerão à criança, regras de convívio social. A criança carrega esses valores consigo para o resto da vida. Lógico que em estágios futuros do desenvolvimento, onde ocorrem processos cognitivos e mais avançados, tais valores terão graus de complexidade maiores e melhores. Mesmo aqui, eles carregam bases desse primeiro contato na infância.

Na psicanálise, o Princípio da Dualidade Instintiva, é empregado para mostrar que o ser nasce reciprocamente com pulsões agressivas e amorosas. A estimulação desses instintos, ou maior estimulação de um deles, terá impacto no caráter do indivíduo. Quando falamos de estímulos, levamos em consideração, além de mecanismos internos de acomodação da informação, os estímulos externos, e fatores sócio-históricos (COLL, 2004).

A proximidade entre Gabriel e Leonardo cria, entre ambos, laços fraternos que logo culminam em um sentimento de amor, o qual eles demonstram não entender muito bem. Um dos pontos fortes da história está neles não se perderem em questionamentos sobre os motivos de seu interesse sexual de ordem homoafetiva, ou de sofrerem com a dúvida entre viver ou não essa relação? Os dois deixam-se levar pelo sentimento, e acabam se entregando ao amor que um sente pelo outro, que culmina num beijo tímido.

A cada nova aproximação, Leonardo conta com estímulos alheios à visão para tentar conhecer um pouco mais aquele garoto da escola que lhe desperta tanto interesse, e do qual sua melhor amiga não para de falar. Aqui, a audição, o olfato e o tato entram em jogo.

Aberastury (1981) afirma que na adolescência a percepção é bem mais detalhista que em fases anteriores do desenvolvimento. Nela, o sujeito pode distinguir em detalhes o que um estímulo sensorial lhe desperta. O sujeito, portanto, é capaz de discernir do que gosta ou não gosta, apresentando caráter seletivo. Começam a demonstrar características individuais e diferenciais quanto a gostos e interesses. Os adolescentes apresentam um pensamento abstrato, ilimitado e com ideais românticos.

Valores como amizade, cumplicidade, fidelidade e respeito são abordados na trama com uma linguagem leve e atual. O roteiro, apesar de muito próximo ao do curta metragem, do qual o filme é fruto  prende o expectador do início ao fim. Ao final, a atmosfera é envolvente, e valores como sexualidade e deficiência visual saem de cena para mostrar a história de dois adolescentes que estão descobrindo a vida e o amor.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Daniel Ribeiro
Duração: 96 minutos
Elenco: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Isabela Guasco
Ano: 2014

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com
Autor / Co-Autores: