Identidade

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“Enquanto eu subia as escadas havia um homem que não existia…
Ele não estava lá agora…
Eu queria…
Queria que ele fosse embora”

Hughes Mearns

O filme Identidade (2003) é um suspense americano baseado no romance policial de Agatha Christie, Ten Little Niggers. Conta a história de um grupo de pessoas que são obrigadas a passar a noite em um motel de rodovia sob uma forte tempestade. Misteriosamente, os membros do grupo começam a morrer em nome de um segredo que une todos.

Dentre as pessoas estão: Ed Dakota (John Cusack), um motorista de limusine, funcionário de uma estrela de TV; Caroline Suzanne, uma estrela da TV da década de 1980; o Policial Rhodes (Ray Liotta) encarregado de escoltar um assassino perigoso e condenado à morte; Robert Maine, o assassino condenado; Ginny e Lou, um casal que está a caminho de sua lua de mel; uma família com seu filho; Paris (Amanda Peet), uma jovem retornando para casa; e Lerry,o gerente do motel.

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Em meio à forte tempestade, na rodovia interestadual ocorre um acidente de carro em que está a mulher com seu filho.  Ed, o motorista da limusine tenta socorrer a mulher que ficou gravemente ferida, mas a rodovia está impedida por uma enchente. Todos eles retornam pela rodovia procurando ajuda até chegar ao motel, onde são obrigados a permanecer pelo mau tempo. Os telefones não funcionam e é impossível conseguir ajuda. Juntam-se ao grupo que já está no motel, um policial escoltando um assassino condenado à morte. Ambos também não conseguem seguir viagem por causa da chuva.

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E tudo parece normal até que misteriosamente Caroline Suzanne, a atriz, é assassinada e, em meio ao suspense, o principal suspeito é o assassino condenado. Em seguida, o rapaz que estava em lua de mel também é assassinado, e a suspeita continua sobre o assassino, mesmo estando ele preso. Logo, Robert também morre e todos incriminam o gerente do hotel que nega os crimes.

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Lerry esconde um segredo, ele não é o verdadeiro gerente do hotel, ele é um fugitivo que ao tentar assaltar o motel acabou matando o verdadeiro gerente do hotel e escondendo seu corpo no freezer. Em seguida, morre o casal; Ginny, que estava em lua-de-mel; a criança filho do casal; e Lerry, o gerente do motel.

Permanecem vivos Ed, Rhodes e Paris que começam a investigar se existe alguma relação entre os assassinatos e as vítimas. Eles descobrem que todas as pessoas naquele hotel têm em comum o sobrenome, que remete às grandes cidades americanas e a mesma data de aniversário.

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Nesse ponto da trama, revela-se que todas as pessoas naquele motel não passam de personalidades de um condenado que está sendo submetido a um tratamento psiquiátrico para se livrar delas, o que justificaria suas mortes.Muda-se o pano de fundo, estão em uma sala escura, um advogado de defesa, um promotor, um juiz e um psiquiatra. Todos discutem a vida de crimes de um famoso Serial Killer acusado de crimes hediondos, discutindo a melhor pena para o réu.

O réu sofre do Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI).  Segundo o DSM IV, O TDI se caracteriza pela presença de duas ou mais identidades, ou estados de personalidades distintos no indivíduo, sendo que uma prevalece à outra assumindo o controle do comportamento, resultado em episódios de amnésia.

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Baseado neste princípio, a defesa argumenta que o Serial Killer não tem culpa dos crimes do qual está sendo acusado, uma vez que quem os teria cometido não foi seu cliente, mas uma de suas múltiplas personalidades, que não é a original. Na tentativa de sustentar seu discurso, eles convocam o Dr. Malick (Alfred Molina)que tem uma técnica que promete isolar na psique do réu a personalidade original.

Consta no DSM IV que a transição entre as personalidades das pessoas que apresentam TDI tem uma relação com situações de intenso estresse emocional. Sua causa está ligada com traumas de abuso sexual na infância, no caso do personagem do filme Identidade (2003), o evento desencadeador do trauma teria sido o fato de a mãe do Serial Killer abandoná-lo ainda quando criança em um motel.

Dentre as características predominantes do Transtorno Dissociativo de Identidade, pode-se destacar: amnésia assimétrica distorção de comportamento (geralmente ligadas a um histórico de abuso sexual na infância), manifestação de sintomas pós-traumáticos (por ex., pesadelos, flashbacks e respostas de sobressalto), automutilação, agressividade e/ou comportamento suicida também podem ocorrer.

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Cada identidade funciona de forma diferente, no caso do filme, as várias personalidades estavam no mesmo local, mas tinham características singulares e história de vida completamente diferentes umas das outras. Mesmo quando uma das personalidades morria, as outras permaneciam intactas. Contudo, há uma identidade primária, geralmente passiva, fragilizada e dependente.

Nota-se que o transtorno pode trazer sérios prejuízos ou incapacidade de ordem cognitiva e/ou senso perceptivo à vida do paciente. No geral acredita-se que a dissociação de identidade seja um modo de responder a situações da vida com as quais o ego do sujeito não consiga suportar. Nesse contexto, as múltiplas personalidades são estratégias inconscientes do ego para se esquivar do estresse emocional.

A interação entre córtex frontal e formação hipocampal provavelmente inclui a mediação separada das propriedades temporais e representacionais das cognições na produção de memórias (narrativas) de eventos e a reconstrução flexível destes (NEGRO JUNIOR et.al. 1999).

Mais prevalente em mulheres, o Transtorno Dissociativo de Personalidade não aparenta ser resultado de efeitos fisiológicos diretos ou do excesso e nem da deficiência de alguma substância química. Esse transtorno pode ser melhor entendido como o fracasso em integrar vários aspectos da identidade, tais como memória e consciência (NEGRO JUNIOR et.al. 1999).

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De volta ao motel, verifica-se que todos morrem, exceto Paris. Ela está retornando para a cidade onde nasceu, onde pretende comprar um rancho e começar uma nova vida. Em meio ao tratamento, a personalidade assassina teria morrido na chacina do hotel, logo o réu não oferecia mais riscos à sociedade. Ele, portanto, não deveria ser condenado pelos crimes cometidos no passado, uma vez que esses crimes eram da autoria de uma de suas múltiplas personalidades e, agora, após o tratamento psiquiátrico, ele estava livre dessa psicose. Após o tratamento permanece apenas Paris, quem o psiquiatra acredita ser a personalidade principal, motivo pelo qual ele atesta a cura d cliente.

Paris está feliz, vivendo serena em um pequeno rancho quando é supreendida pela visita inesperada da criança (filho do casal que supostamente teria morrido no hotel). Paris então é assassinada pela real personalidade principal da psique do Serial Killer e responsável pelas mortes no motel, a criança. Nessa cena fica claro que a identidade primaria é a criança e não Paris, como o psiquiatra suspeitava. O erro no prognóstico do psiquiatra torna-se fatal, e no mundo objetivo, quando a personalidade principal finamente assume o papel principal na psiquê do Serial Killer, ele se enche de um desejo sanguinário e mata tanto o seu psiquiatra quanto o motorista da viatura que os guiam em direção ao asilo psiquiátrico onde o assassino seria internado.

O tratamento de TDI é complexo. Precisa envolver as personalidades distintas, o que pode demorar muito tempo para acontecer. No caso do filme, o erro no tratamento resultou no homicídio do psiquiatra e de um inocente, uma vez que a personalidade remanescente do Serial Killer era em suma, a criança.

REFERÊNCIAS:

DSM-IV-TR – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Trad. Cláudia Dornelles; 4 ed. rev. – Porto Alegre: Artmed, 2002.

NEGRO JUNIOR, P. J et. Al. Dissociação e transtornos dissociativos: modelos teóricos.Rev. Bras. Psiquiatr. vol.21 n.4 São Paulo Dec. 1999

SABER MAIS:

http://horadeterapia.blogspot.com.br/2010/05/disturbios-dissociativos-dupla.html (Acesso em 04/01/2014).

FICHA TÉCNICA:

IDENTIDADE

Direção: James Mangold
Produção: Cathy Konrad
Roteiro: Michael Cooney
Genero: Suspense
Idioma Original: Inglês
Ano: 2003

 

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com
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