Loucas Pra Casar: quem olha para dentro desperta

“Quem olha para fora sonha,
quem olha para dentro desperta.”
Carl Gustav Jung

O cinema nacional apresenta mais uma produção no gênero comédia. A fórmula: humor, somada a um roteiro leve e a um elenco de grandes atrizes/comediantes fizeram do “Loucas pra casar” uma das maiores bilheterias do ano de 2015 no cenário nacional. No longa, três mulheres: Malu (Ingrid Guimarães), Lúcia (Suzana Pires)  e Maria (Tatá Verneck) dividem a atenção de Samuel (Márcio Garcia), o homem com quem elas querem se casar.

 

A primeira nuance apresentada é a de Malu, uma mulher inteligente, organizada, competente, comprometida e bem sucedida. Ela é secretária e braço direito do seu chefe, Samuel, com quem tem um relacionamento amoroso há três anos. Malu, apesar de uma independência pessoal e profissional, cultiva um sonho antigo, o de ter uma família com marido e filhos. Aos 40 anos ela sente que precisa realizar esse sonho o quanto antes, por causa de sua idade. Nesse momento, Malu começa a investir todas as suas fichas para que Samuel peça sua mão em casamento. Já Lúcia é uma mulher forte, determinada, que explora sua sensualidade para alcançar seus objetivos. Maria, por sua vez, apresenta através do seu semblante de pureza virginal, o estereotípico da mulher que nasceu para casar e constituir família.

A grande surpresa do longa-metragem se dá quando percebemos que as três mulheres, que carregam em si personalidades tão antagônicas, são na verdade a mesma pessoa: Maria = Lúcia = Malu. Em busca de uma compreensão para as múltiplas personalidades de Malu e de como elas vieram à tona nesse momento da vida da personagem, podemos levantar algumas hipóteses baseado nas informações que o filme nos apresenta.

 

Segundo o DSM V, O Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) é caracterizado, em outras coisas, por: amnésia assimétrica distorção de comportamento (geralmente ligadas a um histórico de abuso sexual na infância), manifestação de sintomas pós-traumáticos (por ex., pesadelos, flashbacks e respostas de sobressalto), automutilação, agressividade e/ou comportamento suicida também podem ocorrer. O tratamento envolve uma aproximação entre as personalidades distintas até o ponto em que elas possam convergir para uma única.

Se entendermos as múltiplas personalidades de Malu como facetas dela própria e nas quais seu ego entende que não há uma realização plena do Eu, as outras personalidades que apareceram ao mesmo tempo, quando ela iniciou o relacionamento com Samuel, são na verdade expressões de características que seu ego real considera necessárias em um relacionamento amoroso, mas com as quais seu superego não conseguia conviver.

Consta no DSM IV que a transição entre as personalidades das pessoas que apresentam TDI tem uma relação com situações de intenso estresse emocional. No caso da personagem o fato ocorreu em sua infância quando sua mãe, ao ser abandonada por seu pai, fala que a filha precisa ser independente.

Em uma análise mais profunda, podemos perceber que as três facetas de Malu: a mulher executiva, a mulher dona do lar e a mulher sexy se completam de tal forma que conquistaram o amor do mesmo homem. Mas, um fato marcante na infância de Malu a fez suprimir essas qualidades que não podiam coexistir em sua psique. Assim, para que essas características pudessem de fato coexistir, foi necessária a criação de novas personalidades. É preciso salientar que este processo é de todo inconsciente, e feito para manutenção da própria psique, evitando que ela se rompa.

 

Outro elemento que chama atenção é o fato de que Samuel, o pretendente, aos olhos da personagem também se mostrava como outra pessoa, com atributos físicos que ela valoriza nos homem, mas que na realidade, ele não os tinha. Podemos acreditar que Samuel era de fato o Animus de Malu, seu parceiro ideal, com atributos e características que ela busca no seu par (Emma Jung, 1991). Ela se identificava tanto com seu parceiro que preferiu projetar nele essas características que valoriza no par do que trocar de parceiro. E antes que alguém pense que isso é um comportamento exclusivamente patológico, preciso esclarecer que fazemos isso o tempo todo em nossos relacionamentos amorosos. Sempre que ignoramos em nossos pares uma gafe ou um comportamento que em outros contextos recriminamos, apresentamos um comportamento semelhante ao de Malu para com Samuel.

 

Com o desejo do casamento cada vez mais forte, a psique de Malu percebe que não tem mais como sustentar as múltiplas personalidades que disputam a atenção do mesmo homem. Enfim elas são obrigadas a conviver até o determinado momento em que elas convergem e Malu percebe que as três mulheres são, na verdade, Ela. Quando percebe sua situação, a personagem entra em choque, e pensa que só pode casar se for acompanhada das outras duas. Malu chega a tentar cometer suicídio. Esse ápice serve para que ela comece a rever seus valores e prioridades, assim, supervalorizar e investir todas as suas energias em um casamento sem antes considerar outras questões como sua própria felicidade, agora parece fora de questão.

FICHA TÉCNICA:

LOUCAS PRA CASAR

Direção: Roberto Santucci
Roteiro: Julia Spadaccin, Marcelo Saback
Elenco principal: Ingrid Guimarães, Tatá Werneck, Suzana Pires
Ano: 2015
REFERÊNCIAS:

JUNG, Emma. Animus e anima. (Tradutor. Dante Pignatari). Um volume (13×20 cm) com 112 páginas. São Paulo: Editora Cultrix, 1991.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5 ed. Porto Alegre: ARTMED, 2014.

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com