Luiz Fernando Carvalho: “o público não é burro”

Foto: Divulgação / Canal Brasil

Cineasta e diretor de televisão, Luiz Fernando Carvalho de Almeida (Rio de Janeiro, 28 de julho de 1960) estudou Arquitetura e Letras. Aos 18 anos, fez seus primeiros trabalhos em cinema, ainda como estagiário para, pouco depois, começar a trabalhar no núcleo Usina de Teledramaturgia da Rede Globo, onde conheceu o diretor de fotografia Walter Carvalho com quem realizou diversos trabalhos. Nesse núcleo, foi diretor assistente das minisséries O Tempo e o Vento (1985) e Grande Sertão: Veredas (1985).

Durante seu trabalho na Rede Globo, pôde conviver com muitos diretores, com os quais teve conhecimento teórico e prático. Com eles aprendeu o enquadramento de câmera e produção até a direção de grandes atores. Segundo Carvalho (2002, p. 18),

[…] Avancini foi uma figura importante também na minha formação prática, porque veio nesse momento em que eu buscava fazer essa transfusão entre cinema e televisão, o que eu poderia receber como um ensinamento de uma linguagem e de outra, sem ser preconceituoso: Ah, televisão é ruim, cinema é bom… Eu não acredito nisso. No caso específico da dramaturgia, eu percebo que existem coisas boas tanto num veículo quanto no outro, e coisas ruins tanto num como no outro […].

Durante esta época, Carvalho abandonou definitivamente a faculdade de Arquitetura e foi cursar Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), pois acreditava que essa escolha podia ajudá-lo no seu percurso.

Em 1986, escreveu e dirigiu o curta-metragem A Espera, baseado no livro Fragmentos de um Discurso Amoroso de Roland Barthes. Esse filme recebeu os prêmios de Melhor Filme, melhor atriz (Marieta Severo) e melhor fotografia (Walter Carvalho) no Festival de Gramado, melhor curta metragem (Concha de Oro) no Festival de San Sebastian, Espanha e o Prêmio Especial do Júri no Festival de Ste Therèse, Canadá.

Seguindo uma tendência de levar obras literárias às telas, dirige, em 1987, ao lado de Denise Saraceni, a telenovela Helena, na Rede Manchete, adaptação assinada por Mário Prata, Dagomir Marquezi e Reinaldo Moraes. Também dirigiu a telenovela Carmen (1987), Vida Nova(1988), e esteve na equipe de direção da telenovela Tieta (1989). Depois disso, teve uma fase produtiva na televisão em que trabalhou na equipe da minissérie Riacho Doce (1990), das novelas Pedra sobre Pedra (1992), Renascer (1993) e O Rei do Gado (1996) e os especiaisOs Homens Querem paz (1991), Uma Mulher Vestida de Sol (1994) e A Farsa da Boa Preguiça (1995).

Cena de O Rei do Gado

Com Lavoura Arcaica (2001), baseado no romance homônimo de Raduan Nassar publicado em 1975, recebeu muitos prêmios no Brasil e no exterior. A exploração do texto é, segundo Carvalho, parte para a construção imagética, a começar pela equipe de produção, com o auxílio de especialistas sobre a obra em construção. A minissérie Os Maias (2001) foi construída a partir de tais cuidados: a pesquisa sobre a obra de Eça de Queirós, a discussão com especialistas na obra, a viagem aos lugares descritos na obra literária. Nessa minissérie, houve uma atenção especial para a composição dos cenários que começou desde a limpeza dos monumentos e reformas na casa do “Ramalhete” e a preparação do figurino da minissérie seguiu a mesma linha do processo de criação.

Cena de Lavoura Arcaica

Ainda na televisão, na área da transposição de textos literários para o audiovisual, vale destacar a microssérie Hoje é Dia de Maria (primeira e segunda jornadas), de 2005. De acordo com o sítio da emissora, estas minisséries apresentaram-se como inovadoras, já que, para compor a história da menina Maria, os realizadores buscaram elementos folclóricos e míticos presentes em contos populares compilados por Câmara Cascudo, Mário de Andrade e Sílvio Romero. E mais: a história é repleta de metáforas e simbolismo, com linguagem, estrutura narrativa e estética baseada nos sonhos. Neste caso, Luiz Fernando Carvalho assinou a direção e também o roteiro, sendo também muito premiado.

Foto: Divulgação da minicrossérie Hoje é Dia de Maria

Em 2005, surge a primeira realização do projeto Quadrante: Pedra do Reino. A minissérie foi filmada em 16 mm e finalizada em alta definição, o roteiro foi assinado por Braulio Tavares, Luís Alberto de Abreu e Luiz Fernando Carvalho, que também foi o responsável pela direção da trama. O projeto Quadrante foi idealizado para mostrar a diversidade cultural do país, a partir da adaptação de obras literárias nacionais filmadas na região onde se passa a história original, com a participação de elenco e mão-de-obra locais. O projeto visa a descentralizar o processo artístico e de produção, além de ajudar na formação de novos profissionais, criando um viés educacional. A Pedra do Reino teve como cenário a cidade de Taperoá, no sertão da Paraíba.

O Quadrante foi o primeiro projeto de teledramaturgia da TV Globo trabalhado em multiplataforma, com conteúdos complementares exibidos em diferentes mídias. O canal GNT realizou um documentário sobre a vida e a obra de Ariano Suassuna. O Multishow exibiu uma edição especial do Revista Bastidor, mostrando o processo de criação, entrevistas e o dia-a-dia das filmagens. E o Sistema Globo de Rádio transmitiu entrevistas com os atores da minissérie e artistas ligados ao Movimento Armorial.

A segunda produção do projeto Quadrante foi Capitu. O roteiro foi assinado por Euclydes Marinho, mas o texto final e a direção por Luiz Fernando Carvalho. Ao inserir elementos modernos como os aparelhos de mp3 usados pelos dançarinos para ouvir a valsa na cena do baile, assumir a tatuagem no braço da protagonista Letícia Persiles (Capitu jovem) e adotar músicas clássicas, samba, rock e músicas de bandas internacionais e nacionais, a direção quis reforçar o caráter atemporal e universal da obra de Machado de Assis, reafirmando sua modernidade. Também foi uma tentativa de investir no público jovem, desfazendo o preconceito que muitos têm sobre o escritor. Temas como modernidade, costumes, feminilidade, maternidade, amor, ciúme, homoafetividade, crueldade, ambiguidade e dúvida foram discutidos pelos seguintes profissionais: o pesquisador e escritor Antônio Edmilson Martins Rodrigues; os psicanalistas Carlos Byington, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas e Maria Rita Kehl; o jornalista e escritor Daniel Piza; e os ensaístas Gustavo Bernardo e Sergio Paulo Rouanet.

Cena de Capitu

Em 2010, Luiz Fernando Carvalho dirigiu a microssérie Afinal, o Que Querem as Mulheres? escrita por João Paulo Cuenca com a coautoria de Cecília Giannetti e Michel Melamed. Melamed é ainda responsável por interpretar o protagonista, André Newmann, um estudante de psicologia que pesquisa qual seria a resposta para a fundamental pergunta nunca respondida por Sigmund Freud: “Afinal, o que querem as mulheres?”, assunto de sua tese de doutorado.

O último trabalho de Luiz Fernando Carvalho exibido na televisão foi a microssérie Subúrbia (2012), produzida e exibida pela Rede Globo. A série foi escrita por Luiz Fernando Carvalho e Paulo Lins, com direção-geral de Carvalho.

O percurso trilhado por Luiz Fernando Carvalho na direção de suas obras revela uma atenção dispensada às obras literárias. Ele pertence a um momento em que surge uma geração de diretores ligada nas possibilidades expressivas do meio. Essa geração está voltada para o aprimoramento da linguagem televisiva, especialmente da teledramaturgia, trazendo a possibilidade da impressão de marcas de autoria na direção, efetivando a “TV de autor”.

O diretor explica o que entende por televisão no trecho retirado de uma entrevista concedida àFolha de São Paulo, na época em que estava sofrendo fortes críticas com relação ao suposto hermetismo de A Pedra do Reino. 

[…] Pertenço ao grupo daqueles que acreditam que o público não é burro, mas doutrinado debaixo de um cabresto de linguagem. Luto contra isso. Sabendo da dimensão que a televisão alcança no Brasil, tratá-la apenas como diversão me parece bastante contestável. Precisamos de diversão, mas também precisamos nos orientar e entender o mundo […] (www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1006200712.htm)

Carvalho surge como referência ou inspiração para os profissionais audiovisuais que estão à procura de uma nova forma de se fazer TV.

Foto: Divulgação/http://tvg.globo.com/programas/capitu/capitu/platb/2008/11/26/com-a-palavra-o-diretor/

Há, portanto, certa semelhança, ao menos no nível de discurso, entre os interesses da emissora e do diretor Luiz Fernando Carvalho: suas obras são, geralmente, influenciadas pelos grandes textos da literatura ou são adaptações destes. A alta qualidade estética e audiovisual de seus produtos convém, evidentemente, à emissora, que também é beneficiada pelo marketing, premiações nacionais e internacionais, parceria e lançamento de produtos em outras mídias.

Referências:

CARVALHO, Luiz Fernando. Sobre o filme Lavoura arcaica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

____. Capitu: minissérie. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008.

 

Kyldes Batista Vicente
Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA (PosCom-UFBA). Mestre em Letras e Linguística (UFG). Licenciada em Letras (UFG). É professora da SEDUC e da Unitins. Atua em pesquisa e desenvolve projetos nas áreas de literatura, televisão, teleficção seriada e adaptação literária. Desenvolve, com outros pesquisadores do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Mídia, os projetos de Extensão “Cinema e Literatura em Debate” e “Interlúdio Literário”. E-mail: kyldesv@gmail.com