Menina Má.com: quem tem medo do lobo mau?

“Chapeuzinho Vermelho voltou alegremente para casa e ninguém nunca mais fez nada para machucá-la novamente.”
(Os Irmãos Grimm)

Hard Candy, que no Brasil teve o infeliz título de “Menina Má.com”, é um suspense psicológico que trata de vários temas complexos e controversos. Assim, dizer que este é um filme sobre pedofilia reduz muito as várias camadas que compõe a personalidade dos dois personagens principais e o embate que eles vivem na tela.

O filme é iniciado com uma típica conversa virtual entre um homem e uma mulher. Até que as frases trazem à tona o fato de que as duas pessoas que estão conduzindo esse chat picante é um homem de mais de 30 anos e uma menina de 14. Num ímpeto, eles resolvem se encontrar pessoalmente, e quando Hayley (numa interpretação impressionante de Ellen Page) aparece pela primeira vez na tela, a imagem da menina frágil e ingênua é extremamente contrastante com o homem que foi encontrá-la. E esse primeiro encontro já causa um certo incômodo, especialmente pela forma que o diretor explora os ângulos das cenas. São feitos grandes closes das expressões de Hayley e Jeff (Patrick Wilson, também excelente), mostrando situações aparentemente coloquiais, mas que carregam em si um forte teor de sedução e malícia.

Geralmente, a imagem estereotipada de um pedófilo que busca suas presas na internet é de uma pessoa fracassada profissionalmente, que tem pouca habilidade social e possui aparência obscura. Jeff não se encaixa nesse padrão. É carismático, educado, capaz de ser notado em qualquer lugar, não apenas pela sua aparência física, mas pelas suas boas maneiras.

É interessante quando a imagem que construímos sobre algo cai por terra. Aquilo que definimos como mau ou perturbador é mais aceitável quando os sentidos que edificamos sobre isso no decorrer da nossa vida contribuem para interpretarmos os fatos com certa coerência. Agora, quando os padrões que erigimos são sumariamente destruídos, perdemos a segurança, é como se deslizássemos sobre uma fina camada de gelo, pois já não é possível ficar agarrado àquela ilusão de que o outro pode ser colocado em uma categoria, nem ao menos temos a certeza de que os atributos que compõem uma dada classe sejam, de fato, preponderantes para nos fazer entender o outro (ou a nós mesmos).

Hayley se convida para ir à casa de Jeff, pois ele é divertido, fala de assuntos que ela deseja ouvir (mesmo que esses assuntos sejam bem específicos, como uma desconhecida banda de rock) e parece gostar da sua companhia, já que aprecia sua conversa. Na casa dele, serve-se de bebida alcoólica e começa a dançar de forma insinuante, tirando algumas peças de sua roupa.

Ele não faz nada para impedi-la, apenas observa sorridente. Mas, sua ação não é passiva, vem de todo um contexto bem elaborado que mais parece um cenário de “caçador e presa”. Ele buscou meninas com o seu perfil na internet, com a sua idade, tentou parecer divertido, fingiu gostar de uma banda que nem conhece, tudo para fazê-la se aproximar, sentir-se à vontade. Mas, mesmo sem o cenário da caçada virtual, sua passividade e consentimento não é uma atitude coerente, pois há um adulto na casa e esse deveria proteger a menina, não se aproveitar de sua pretensa rebeldia.

É nesse ponto que o roteiro de Brian Nelson tira a segurança de qualquer interpretação que até então tínhamos construído sobre o filme e, com isso, as certezas que pensávamos ter sobre qual é o lado bom (se é que ele existe) da história. De um lado, tem-se Jeff, um fotógrafo cuja casa é repleta de imagens de jovens mulheres, que teve uma relação frustrada na adolescência, que foi acusado ainda criança de agir de forma errada com uma prima. Do outro, a menina que atribuiu para si a responsabilidade (e o direito) de fazer justiça com as próprias mãos, que age, na maior parte do tempo, com a frieza de um psicopata. Desta forma, não enxergamos mais a adolescente ingênua de antes e aquele que até então era o predador torna-se a caça. Jeff é drogado e amarrado e fica a mercê de sua “presa”.

Sem certezas, sem entender bem que pessoas são essas que se olham com um misto de ódio, desprezo e medo, inicia-se a principal premissa do filme, que tem relação com a metáfora do cartaz de divulgação, em que a menina está numa espécie de armadilha, mas é – ao mesmo tempo – a armadilha.

O horror é amplificado justamente por causa das incertezas. O diretor David Slade, na forma que conduz as cenas, coloca quem assiste dentro do filme, é como se a pessoa trouxesse para si a responsabilidade de julgar aqueles dois indivíduos, mas não há informação suficiente para saber que decisão é mais justa ou mais humana.

Jeff, humilhado e rendido, tenta atingir a menina com histórias tristes do seu passado ou nas potenciais consequências de seu ato para sua vida adulta, acreditando nas inseguranças que são comuns na adolescência. Mas não tem sucesso. Assim como ele a estudou pela internet, ela também fez o mesmo. Entendeu que ele procurava um tipo de mulher específica, ou seja, procurava propositadamente adolescentes. Uma menina havia desaparecido na cidade, ele, agindo como um pedófilo, segundo ela, era culpado também, logo devia ser punido.

Quem tem o direito de fazer justiça? A vítima pode trazer para si o direito de punir seu algoz? O desejo de vingança de Hayley, justamente por parecer ser uma característica tão humana, torna-se cada vez mais assustador.

Jeff: Quem é você?
Hayley: Eu sou cada menininha que você observou, tocou, machucou, matou.

 Nada é dito no filme sobre o passado de Hayley. Assim, não é possível entender como sua raiva foi se transformando em algo totalmente fora de controle. Ela não se satisfaz em apenas chamar a polícia e mostrar as fotos das adolescentes que Jeff esconde embaixo do tapete, pois acredita que a punição pelos meios normais não será suficiente. Ela até traz à tona um caso real, do diretor Roman Polanski e sua relação com uma adolescente de 13 anos, para mostrar que a justiça é relativa demais, já que a carreira desse diretor sobreviveu ao escândalo. Sua ideia de justiça é mais radical, assim, numa ode ao “olho por olho, dente por dente”, ela traz à tona a punição que acredita ser adequada, resolve cortar, literalmente, o mal pela raiz, aterrorizando Jeff com uma cirurgia (feita por ela mesma) de castração.

Mas, nem isso parece ser suficiente…

Assim, como é tênue a linha que separa a procura incessante de uma obsessão, também parece ser confusa as verdades sobre o outro que são construídas quando não há qualquer traço de empatia.

A característica mais perturbadora de “Hard Candy” parece ser essa incapacidade do público de se colocar no lugar dessas duas pessoas. É como se ambos fossem terríveis demais para que alguém pudesse aceitar ter qualquer identificação com eles. E como o filme é todo embasado no encontro desses dois sujeitos, sobra para quem assiste aquela sensação estranha e complexa de ser um juiz ou um observador imparcial, o que, em ambos os casos, é algo um tanto doentio.

E entre a menina inteligente e o homem bem sucedido há uma semelhança perturbadora. Parece que ambos estão doentes demais para conseguir enxergar o mundo e as pessoas sem tantos artifícios cruéis e obscuros. Diante disso, uma frase do Monge Zózima, dos Irmãos Karamázov de Dostoiévski, parece-me adequada para finalizar essa análise: “se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso”.

FICHA TÉCNICA:

MENINA MÁ.COM

Título Original: Hard Candy
Direção: David Slade
Roteiro: Brian Nelson
Elenco: Ellen Page, Patrick Wilson
Ano: 2005
Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: