Modernidade Líquida: andando sobre uma fina camada de gelo

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem-se do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido”.
 DALAI LAMA

Imagine a cena em que alguém tem que atravessar um lago gelado, cuja superfície está coberta por uma fina camada de gelo. Neste caso, ou a pessoa atravessa correndo, sem olhar para trás, ou enfrenta o risco de afundar nas águas “cortantes”. Pois bem, nobre leitor, de acordo com a alegoria do filósofo Luís Felipe Pondé, é assim que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman enxerga a pós-modernidade.

Trata-se de um território lamacento e movediço, onde a instantaneidade dita as regras de tudo, sobretudo das relações pessoais. É por esse prisma que Bauman pauta o livro “Modernidade Líquida” (Zahar Editor), a agradável surpresa do mercado editorial nos últimos 10 anos.

Para o polonês, o grande problema do “viver na modernidade”, é que as projeções (e perspectivas futuras) têm que ser colocadas em prática a qualquer custo, sob o risco de a vida não obter significado e importância. Isso tudo, claro, dentro de um escopo de transitoriedade e relativismo. Em outras palavras, as pessoas são instadas constantemente a desenvolver a “autodeterminação compulsiva e obrigatória”, em detrimento de vida derivativa das ações heterônomas e/ou contemplativas.

A questão central é que, no processo de individuação extrema a que parece estar chegando à contemporaneidade, o “indivíduo torna-se o pior inimigo do cidadão”, pois todas as suas demandas estão alinhadas a prerrogativas de direitos mais pontuais, e menos em relação às causas mais comuns. Por outro lado, e como agravante, se a cada pessoa lhe é dada a possibilidade de ter tudo (pelo menos em tese, e como perspectiva de “mundo como projeção interna”), o conflito impera durante o longo e ardoroso processo onde se percebe que nem sempre as coisas saem como o planejado, e muitas vezes é um maiúsculo NÃO que vem em substituição ao esperado sim.

Bauman não vislumbra um futuro sem que a individualização esteja totalmente fora do cenário. Antes disso, há outro componente que reforça esta realidade: a “volatilidade” da perspectiva pessoal e profissional, onde aspectos como “territorialidade” e “tradição” são definitivamente suplantados. Assim, desde cedo, a pessoa é “treinada” para abolir o local e abraçar o global, numa falsa dicotomia e indesejável crença de que a vida de lá, com certeza, é muito melhor do que a de cá.

Um mundo onde as relações são “líquidas” parece, num primeiro momento, algo atraente. Mas por trás desta sedutora receita contemporânea pode haver uma construção subjetiva sem “marcações”, sem “totens luminosos” de referência social (e observe que, aqui, não necessariamente precisa-se entrar no tema da parentalidade, e sim no próprio sentido de viver em sociedade, com objetivos comuns, mais abrangentes). Isso tende a tornar a pessoa uma “forasteira” dentro da própria casa, com infindáveis processos de comparação e rebuscadas metas a ser atingidas. E quando atingidas, outras têm que estar a postos, afinal o sentido de realização/felicidade está no objeto desejado (que tem que ser constantemente renovado) e não no percurso consciente, compartilhado.

Essa busca, que é qualificada como uma permanente “busca de aptidão”, no sentido de que há no imaginário um “obrigatório objetivo de excelência” a ser atingido, gera uma “auto-recriminação e auto-depreciação permanentes” e faz lembrar as atuais maratonas por corpos perfeitos, ou mesmo as longas jornadas para passar num concurso público para cargos de salários elevados, mesmo o candidato já trabalhando com estabilidade numa divisão menos cobiçada. Mas “quanto mais escolha parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolhas parece ser insuportável para todos”. Ou seja, na vida do outro (fora da perspectiva altruísta) há o cerne de toda a “estabilidade”. Há, neste modo de ver as experiências externas, uma negligência em relação ao reconhecimento e aprimoramento dos próprios processos de estruturação interna (construção de subjetividade).

A “romantização” da vida do outro, sobretudo quando o outro é rico e, logo, atarefado (pelo menos se presume isso) é uma constante desta época. Para ilustrar esse recorte, Bauman lembra o filósofo francês Yves Michaud, que diz que “com o excesso de oportunidades, crescem as ameaças de desestruturação, fragmentação e desarticulação”. Ou seja, se não bastasse a “eterna luta” para se atingir o pódio, depois de estar lá, há uma luta ainda maior para manter-se no topo (e, de novo, existe aqui uma contradição, pois se se busca o efêmero e transitório durante a jornada, na verdade há um medo terrível de se atingir e logo em seguida perder a estabilidade). Por tudo isso, não adianta alcançar determinadas metas se não puder mantê-las por muito tempo. Há aí uma fonte de angústia e sensação de impotência. O ápice desse processo pôde ser visto no atual embate entre um príncipe saudita e a revista Forbes. O fidalgo se sentiu “ofendido” porque sua fortuna teria sido subestimada. Logo, processa a publicação americana por “difamação”.

Além de todas as questões que foram levantadas, há o aspecto político que, certamente, é um dos mais atingidos pela “modernidade líquida”. Para Bauman, uma das características desta época é o esvaziamento dos espaços públicos. Sendo assim, a possibilidade de aproximação social e de expressão como componente revelador do ser, vai perdendo força. Passo a passo outros panoramas decorrentes deste “primeiro encontro” também são afetados. Um exemplo é o “desencorajamento” da organização social e jurídica dos nichos. E sem essa organização, não há enfrentamento. Assim, cada um tende a lutar pelos “seus” direitos, em detrimento de uma vida pública comum.

Esse “desencorajamento” se dá, inclusive, pela própria estética das cidades modernas, com suas amplas e longas avenidas, e com as superpraças e monumentos. No entanto, não há bancos para se sentar. Sem poder sentar para contemplar não há como se aproximar do outro. E as ruas e praças podem até estar cheias em quantidade de pessoas, mas vazias de significados e de teias sociais que poderiam resultar em histórias genuínas.

Bauman cita o também sociólogo Richard Sennett para explicar que as relações sociais atuais tem um ar de falsidade. Isso porque, por se basearem em imagens de solidariedade que na verdade são forjadas, que não nasceram da convivência diária/comunitária, essas relações não passam de “mito de solidariedade”, tornando as pessoas covardes, que se escondem durante o processo de aproximação, entendimento ou enfrentamento do outro. Existe, portanto, uma “fabricação do sentimento de uma identidade comum”, mas isso se dá apenas como um “ritual de purificação”. Ou seja, funciona mais ou menos como aquele indivíduo que não utiliza boas práticas de sustentabilidade em sua casa, no entanto contribui mensalmente com uma ONG internacional que defende a preservação ambiental. Desta forma, ele (o indivíduo) se exime do envolvimento direto com a causa, mas ao mesmo tempo cria a ilusão de que está positivamente contribuindo com o processo.

Em relação à saúde, Bauman alerta que há uma verdadeira “esquizofrenia” bela busca da condição perfeita. A doença, neste modelo de percepção social, não só é vista como algo horrendo, como deve ser evitada nos círculos de conversas. Há um enorme esforço para tornar o organismo resistente a certas doenças. O problema é que, ao fazer isso, a pessoa também “o deixa vulnerável a outras doenças, pois diversas intervenções médicas são conhecidas pelas doenças iatrogênicas que provocam – doenças que resultam da própria intervenção, que não são menos (se não mais) perigosas que a doença que se pretendia curar”.

Essa ojeriza pela doença pode significar uma incapacidade crescente de se conviver com a limitação e com a diferença. Se não se gosta do atual estado de coisas porque não lhe é dado (ao estado de coisas) a possibilidade de compreensão e entendimento, provavelmente não tem como gostar da vida atual, corriqueira. A felicidade, então, estaria no eterno “vir a ser”.

O que se deduz disso tudo é um crescente estranhamento pelo diferente e uma exortação da homogeneidade. Assim, “quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera”.

Por fim, o sociólogo diz que atualmente o mundo é dominado por aquelas pessoas que se movem e agem com “maior rapidez”. Ou seja, o sucesso na “modernidade líquida” depende de quão próximo a pessoa está do próprio movimento das demandas. Na outra ponta – quem se movimenta pouco – estão justamente as pessoas que irão “obedecer às ordens”.

Esse panorama faz contrapor os modos de vida entre aqueles que estão “ligados” na aceleração, daqueles que por vezes preferem aderir à contemplação. Claramente, os aspectos contemplativos são totalmente negligenciados, e a imprevisibilidade é deixada de lado. Neste caso, a pessoa pode até se discutir o que irá comprar, mas jamais será discutida a possibilidade de não comprar. Essa hipótese é impensável. O resultado disso tudo, dessa falta de observação para as construções internas e externas (relacionais), gera uma sociedade profundamente frustrada e uma profusão de novas patologias, a maior parte delas relacionada a dissonâncias cognitivas ou derivadas de longos períodos de ansiedade. No final das contas, como certa fez falou o Dalai Lama, “os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem-se do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido”.

 

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

PONDÉ, Luis Felipe. Uma agenda para o Inverno – ambivalência, medo e coragem. Café Filosófico – CPFL CULTURA. Campinas: 2006. Disponível emhttp://www.cpflcultura.com.br/2008/12/24/o-diagnostico-de-zygmunt-bauman-para-a-pos-modernidade-uma-agenda-para-o-inverno-ambivalencia-medo-e-coragem/ . Acesso em 08/06/2013.

Revista Exame. Príncipe saudita processa Forbes por avaliar fortuna menor. Disponível emhttp://exame.abril.com.br/negocios/noticias/principe-saudita-processa-forbes-por-avaliar-fortuna-menor . Acesso em 06/06/2013.

Pensador UOL. Frases do Dalai Lama. Disponível em http://pensador.uol.com.br/frase/MzgwOTI/ . Acesso em 10/06/2013.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).