Monismo e Epifania – “Lucy” e a (re)descoberta da grandiosidade que é a própria vida

 

Dirigido pelo francês Luc Besson, “Lucy” (2014) conta a estória de uma bela americana que, por acidente, se envolve com integrantes de uma máfia em Taipei (Taiwan), onde é “obrigada a trabalhar como uma mula de drogas para a organização criminosa”. A substância, implantada no corpo da jovem, acaba por vazar e atingir a corrente sanguínea e, de quebra, incide sobre as funções do cérebro, ampliando suas capacidades cognitivas. À medida que a droga alarga a ação sobre o seu sistema nervoso, Lucy passa a “absorver conhecimento instantaneamente, é capaz de mover objetos com a mente, e não pode sentir dor e outros desconfortos, como o medo”.

 

O filme é distribuído pela Europa Corp e Universal Pictures. Nos EUA, estreou em primeiro lugar nas bilheterias, e no Brasil foi o longa que mais arrecadou nos últimos dias. As principais críticas dizem respeito ao caráter “superficial” das abordagens, tendo em vista que em Lucy há o uso de alguns “mitos” que, de longe, já foram amplamente debatidos pela comunidade científica, como a falsa ideia de que os humanos só usam apenas 10% 1 da capacidade cerebral. Além disso, a obra é permeada por conceitos da Física Quântica, da Teoria da Evolução e, no âmbito filosófico/metafísico, pelas abordagens do Monismo, da “inseparatividade” 2 entre sujeito e objeto e da Epifania. Toda esta mistura resultou num bom produto de entretenimento, desde que não seja levado tão a sério, já que para cada uma destas abordagens, separadamente, é possível escrever uma quantidade interminável de teses (o que ocorre frequentemente, no meio acadêmico).

 

Duas das temáticas abordadas no filme, no entanto, merecem especial atenção. O Monismo metafísico é uma delas. Trata-se de um termo usado para designar que todas as coisas resultam de uma única substância (Una) e que, dela, derivam “uma só realidade” (Ferrater Mora, 2001, pág. 483). E o filme tenta mostrar que, pela ação de uma droga, Lucy acessa estados de consciência que lhe permitem ter uma sensação de unidade com tudo à sua volta, num panorama em que “dentro e fora, o âmbito da dualidade”, cede lugar a uma visão completa, absoluta, universal. Ao compreender tais circunstâncias, o proponente é revestido de um poder especial, poder este que beira à definição da onipotência.

 

Na Filosofia, há várias formas de Monismo e, este, é abordado principalmente por Parmênides, Plotino e Spinoza. Entre as tradições religiosas, destaca-se a visão de “inseparatividade” do Budismo, que rejeita a substancialidade, mas aceita a interdependência (todas as coisas são interligadas, e dependentes umas das outras). Quando Lucy avança no seu entendimento, percebe que é desprovida de um “eu intríseco”, ou seja, as “manifestações de individualidades” são expressões provisórias de algo muito maior, que a tudo permeia, mas que ao mesmo tempo não é dotada de personalidade, nem é transcendente. Portanto, está disponível aqui e agora.

 

 

Em Spinoza, considerado por muitos pensadores contemporâneos como um filósofo que sintetizou parte da dinâmica das antigas tradições, há o aprofundamento do chamado “monismo panteísta”, que aponta para a imanência dos seres. Sendo assim, como se propõe o filme, “ao acessar estados elevados de consciência” (o que os místicos budistas só aconselham fazer através de austeros processos meditativos, sob orientação de mestres qualificados), a suposta separação entre corpo-espírito tão comum no dualismo cartesiano cede lugar à “ideia da unidade última, absolutamente interdependente”, mas ao mesmo tempo não transcendente. Ou seja, ao “dissolver-se” na experiência da unidade, Lucy acaba por compreender os conceitos de “Natureza e de Espírito” que se apresentam alternativamente como sujeito ou como objeto, sendo que nenhuma “realidade é independente (do observador) mas, pelo contrário, está relacionada ou integrada ao Todo, que é, em última análise, a única realidade”.

Vale ressaltar, como bem lembra José Ferrater Mora, que na Filosofia Moderna o que prevalece em termos de definição do Monismo é a abordagem naturalista, cuja explicação “foi convertida por seus representantes num Monismo Idealista, pois nele se considera que a matéria experimenta um processo de contínua elevação no sentido da autoconsciência, até alcançar o autoconhecimento” (Ferrater Mora, 2001, pág. 484). Nota-se semelhança entre esta abordagem e a própria Teoria da Evolução de Darwin. É, no fundo, uma posição frontalmente oposta à exegese3 cristã das Escrituras Sagradas, para quem os homens são frutos da Criação, sendo necessária a transcendência (e não imanência) para que se acesse o âmbito do sagrado (ou a união com Deus, na linguagem cristã).

 

Outro aspecto abordado, a epifania de Lucy, ganha contornos à medida que a própria personagem se aprofunda no entendimento acerca da interdependência de todas as coisas. Como reação primeira – e talvez mais forte – está o gradativo fim do medo da morte, tendo em vista que, no processo de reconhecer-se como “integrante do Todo”, amplia-se a percepção de não-extinção, e de constante transformação (impermanência). E aí entra um ponto que gera controvérsia, tendo em vista que, para muitos mestres orientais, esse caminho não pode ocorrer por nenhum estímulo que não pela própria vontade do proponente, pela “inclinação ao despertar”. Daí a taxativa proibição do uso de qualquer substância que altere estados de consciência. Desta forma, apesar de a epifania ser definida como “uma súbita sensação de realização ou compreensão das coisas”, ela não surge por acaso, sendo necessário um treinamento mental/espiritual adequado para que tal fenômeno aflore. Na acepção de James Joyce, que popularizou o uso da palavra e do sentido de epifania no vocabulário secular, “trata-se de uma súbita manifestação espiritual, presente quer na banalidade da fala ou do gesto quer num estado memorável da própria mente”.

 

 

Mas há no filme o diferencial de que, assim como ocorre em muitos setores contemporâneos, tal conquista (do entendimento da Unidade de todas as coisas e, portanto, da experiência epifânica da personagem) pode ser “adquirida” através dos estímulos provocados por algo que se possa “comprar”, algo empacotado e “sintetizado” e que, portanto, está ao alcance de todos, sem muito esforço. Nada mais ilusório, no entanto. Para dispor do alvedrio propiciado pelo despertar, é necessário um longo e diligente caminho para a “sabedoria”, da qual a própria epifania é apenas um de seus efeitos colaterais. E esta [sabedoria], como bem pontuou Epicteto (Diat., II, 1, 22, 105), é resultado primeiramente de um enorme empenho pela autotransformação. Esse esforço requer tempo, disciplina e, acima de tudo, “um modo de ser” correto que, a cabo, resulta na “completa liberdade”.

 

Notas:

1 – O quatro mitos sobre a nossa mente. Fonte: http://hypescience.com/4-mitos-da-nossa-mente/ – Acessado em 07/09/2014.

2 – Lama Padma Samten no TEDxAmazônia fala sobre a “inseparatividade entre o mundo interno e externo”. Disponível em http://bodisatva.com.br/lama-padma-samten-no-tedxamazonia/ – Acessado em 07/09/2014.

3 – Exegese é um “comentário ou dissertação que tem por objetivo esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma palavra”. Fonte: Dicionário Houaiss. Disponível emhttp://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=exegese – Acessado em 07/09/2014 [acesso apenas com senha].

 

Referências:

Lucy – o filme. Sinopse disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Lucy_(filme) – Acessado em 07/09/2014.

Definição literária para Epifania – Disponível em http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&link_id=990:epifania&task=viewlink – Acessado em 07/09/2014.

COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: WMF, 2011.

O Livro da Filosofia (Vários autores) / [tradução Douglas Kim]. – São Paulo: Globo, 2011.

NADLER, Steven. Um livro forjado no inferno: o tratado escandaloso de Espinosa e o nascimento da era secular; tradução de Alexandre Morales. – São Paulo: Três Estrelas, 2013.

Biografia de Baruch Spinoza – Info Escola: navegando e aprendendo. Disponível emhttp://www.infoescola.com/biografias/baruch-spinoza/ – Acesso em 04/01/2014

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Trailer:

FICHA TECNICA DO FILME

LUCY

Dirigido por Luc Besson
Elenco: Scarlett Johansson, Amr Waked, Analeigh Tipton, Jan Oliver Schroeder, Julian Rhind-Tutt, Loic Brabant, Luca Angeletti, Min-sik Choi, Morgan Freeman
Duração: 89 minutos
Classificação 14 – Não recomendado para menores de 14 anos
Gênero: Ação, Ficção Científica, Thriller
Países de Origem: Estados Unidos da América e França
Ano : 2014

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).
Autor / Co-Autores:
  • Vitor Gama Barreto

    Gostei muito do seu texto. Já havia assistido a Lucy, mas não estava nos estudos de filosofia como estou agora, então não conhecia nada em relação a monismo e dualismo. Agora que, concomitantemente, ao momento que li Deus, de Ética, Spinoza, assisto ao filme. Foi uma excelente interpretação a que eu fiz, que não foi a de ver a crítica ao capital – que achei magnifico -, que iria em sentido a análise técnica do filme e indo além, de um jeito que ainda não sei explicar, mas está pela quântica.
    Espero ler mais sacadas como essa. Parabéns.