Não seja bonzinho, seja real – como equilibrar a paixão por si com a compaixão pelos outros

“A força é a substituta universal da verdade.
A necessidade de controlar os outros se origina da falta de poder,
assim como a vaidade provém da falta de autoestima.
A punição é uma forma de violência, uma substituta ineficaz do poder.”

Kelly Bryson

Quantas vezes ao dia se colocam as máscaras de simpatia, bondade e solidariedade para com os outros, quando lá no fundo, na verdade, a pessoa queria estar fazendo o contrário? Por que é mais fácil falar um “sim” a contragosto do que um “não” espontâneo? Sem contar as várias situações onde se é “pressionado” a ceder continuamente – no emprego, com o chefe, no lazer, com os amigos e em casa, com a família.  E aqui se podem enumerar vários exemplos, dos aparentemente inofensivos, como quando a amiga, que está um pouco acima do peso, pergunta se está gordinha e o interlocutor, não querendo perder a amizade, diz que ela está ótima, até às mais drásticas, quando o relacionamento termina e uma das partes não sabe onde errou porque sempre fez ‘tudo certo’. Com certeza as situações citadas são familiares em algum grau para qualquer pessoa; no entanto, as diversas formas de se encarar estas situações é que faz toda a diferença. E, geralmente, os estragos que uma palavra mal dita causa, podem ser contornadas com mudanças de atitudes sutis que traz um grande diferencial para todos. Esta é a proposta do livro “Não Seja Bonzinho, Seja Real – Como equilibrar a paixão por si com a compaixão pelos outros”, do terapeuta americano Kelly Bryson.

Mais do que um “livro de receitas” comportamentais e longe de ser um daqueles monólogos de autoajuda, Kelly Bryson traça detalhadamente um perfil que não é somente fácil de verificar em várias pessoas próximas como também é visível na nossa personalidade. Em uma de suas listas de identificação, o leitor poderá descobrir se está seguindo os passos para o Autossacrifício (ou, como ele diz ironicamente, como tornar-se um capacho) enumerando, entre outras características, as seguintes:

1.    Ouve mais do que gostaria;

2.    Faz o possível para evitar que os outros pirem;

3.    Trabalha para ganhar a vida em vez de tentar descobrir como divertir-se trabalhando.

É claro que o intuito disso tudo não é demonstrar os malefícios da bondade, e sim os efeitos que ela traz quando não mensurada conscientemente aos limites de cada indivíduo. Se as pessoas são sempre solícitas, talvez, o que move as suas ações não seja a vontade de ajudar, independente de recompensas e agradecimentos, e sim o medo inconsciente de magoar o outro e suas expectativas. Para o terapeuta, em um curto prazo essa desonestidade com os próprios anseios pode levar o indivíduo a descontar sua frustração em outras pessoas (que muitas vezes nem estão relacionadas com o problema) e a longo prazo pode consciente ou inconscientemente escolher outra opção mais destrutiva: o próprio corpo – através de vícios ou doenças.

Tudo começa na infância

Quando uma criança faz uma boa ação, como realizar as tarefas da escola ou lavar o carro no final de semana, naturalmente os pais podem recompensá-lo por sua boa vontade, porém, quando o inverso acontece ninguém vai reprimir o pai ou a mãe de castigar essa criança travessa. Jean Piaget já afirmava que “a punição torna impossível a autonomia da consciência”, e segundo Alfie Kohn, autor do livro Beyond Discipline: From Compliance to Community (Além da Disciplina: da Complacência à comunidade) os efeitos repercutem na idade adulta “destruindo qualquer relacionamento respeitoso e amoroso entre o adulto e a criança e retardam o processo do desenvolvimento ético”.  E a sedução por recompensa também não é uma atitude louvável, principalmente se a criança começa a barganhar seus deveres morais e éticos por prêmios. Em uma interessante analogia, Kelly Bryson diz que castigos e recompensas são como beber água salgada, “dá um alívio a curto prazo, mas a longo prazo piora tudo.”

O livro “Não Seja Bonzinho” aborda outro paradigma na estruturação da personalidade na infância: o uso do poder dos pais para exigir determinados comportamentos dos seus filhos. O oposto do amor não é o ódio, mas o medo, e o respeito pela autoridade advém do medo das consequências por não cumprir as regras, quando o que deveria ser cultivado era o respeito verdadeiro advindo de uma natural ‘reverência amorosa’, ou seja, a bondade inerente da personalidade do individuo, sem afetações externas.

A Comunicação Não Violenta

A cada capítulo, Bryson inquire o leitor sobre os seus comportamentos guiando-o para o papel de observador. Ao distanciar-se das ações como sujeito, tornando-se objeto de análise, fica mais fácil reconhecer vários modelos de ações e reações em sua grande maioria automáticas, para não dizer irracionais. Um dos primeiros passos para sair do estado de “vitimização” é reconhecer que o sofrimento não é causado pelo outro, mas pelas carências pessoais não supridas. Segundo o terapeuta, a técnica de Comunicação Não Violenta (CNV) seria uma das formas do indivíduo respeitar o espaço do outro sem que este invada o seu espaço.

Segundo o autor, “é melhor primeiro ter compaixão e amor apaixonados por mim e depois tenho compaixão e amor apaixonados quando os outros piram”. Em sua análise, ceder às vontades e desejos do outro é uma forma de violência que anula e oprime, levando muitas vezes ao ódio.

“Nessa cultura educada, o consentimento fingido permeia todas as áreas da vida. Há pessoas que dizem que irão a um compromisso, mas não aparecem, fazem promessas e depois as quebram e fingem ouvir, mas mentalmente estão em outro lugar.”

Para que a CNV ocorra de maneira natural é necessário duas características essenciais: presença e assertividade. Assim, da próxima vez que aquela amiga lhe perguntar sobre o peso dela, você não precisa mentir, dizendo que ela está ótima ou ser maldoso e chamá-la de gorda. Olhe para ela e diga o quanto gosta dela e que você está preocupado com sua saúde. Mostre empatia com sinceridade e não simpatia por dever. “Não Seja Bonzinho, Seja Real” demonstra que entre a guerra dos extremos do cotidiano, às vezes, é melhor pegar o caminho do meio.

 

FICHA TÉCNICA DO LIVRO

NÃO SEJA BONZINHO, SEJA REAL –
COMO EQUILIBRAR A PAIXÃO POR SI COM A COMPAIXÃO PELOS OUTROS

Título original: Don’t be Nice, be Real – Balancing Passion for Self with Compassion for Others

Autor: Kelly Bryson
Tradução: Soraya Freitas
Editora: Madras
Ano: 2009

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.