nascidos em bordeis

Nascidos em Bordéis: a fotografia como um antídoto à invisibilidade social

Lembre-se moço,
você que invade a vida dos outros,
burla o tempo
e retém momentos que não são seus;
De seus compromissos com sua época,
e sua fraca verdade.

Lembre-se moço
dos que nos legaram a caixa mágica,
aparente brinquedo que aprisiona a luz,
e produz inquietantes resíduos,
reveladoras frestas de indesejadas faces,
insuspeitas grandezas,
dimensões nem sonhadas,
e, procurem honrá-las.

Luis Humberto

Foto: Avijit Bucket

Resultado de minhas andanças fotográficas compreendi que “olhar” implica em reflexão e que “não importam as respostas, apenas as perguntas”. Estou certa de que devemos questionar tudo e sempre. Parte desse pensamento, valida a minha incessante busca nessa aventura pelo conhecimento no território da fotografia. Talvez por isso, o documentário “Nascidos em Bordéis” tenha tido em mim um impacto muito forte, de modo que me fez repensar as minhas práticas como fotógrafa, psicóloga, professora, pesquisadora.

Num jogo de luz e sombra, as imagens iniciais são fortes e de uma realidade que clama por socorro. Em tons avermelhados, numa concepção sígnica, a iluminação aparece como um dos signos que caracterizam “Nascidos”, além de estabelecer uma relação direta ao nome do Distrito “Luz Vermelha”. Percebi que não seria fácil adentrar nesse novo mundo que me foi apresentado. A narrativa é um convite a reflexão sobre o impacto da fotografia na vida das pessoas e a conduta ética do fotógrafo ao documentar uma realidade. Até que ponto o fotógrafo tem o direito de invadir a vida dos outros?

Pergunta que anseia por respostas…

Zana Briski é fotógrafa e, após negociação com os proprietários dos bordéis e autoridades locais, vai a Calcutá – Índia para documentar o cotidiano do Distrito da Luz Vermelha. Ao vivenciar a realidade das mulheres que vivem do sexo, ela percebe que as crianças que ali vivem são marginalizadas e vítimas de preconceito. Estão à margem da sociedade e crescem esquecidas nos guetos da zona vermelha. A fotógrafa percebe que, sem perspectivas, só resta às meninas, a prostituição. E aos meninos trabalhar em subempregos. Diante dessa realidade, a fotógrafa decide que algo precisa ser feito.

As crianças que participaram do projeto, da esquerda para a direita: Puja, Suchitra, Kochi, Avijit, Tapasi, Gour, Manik e Shanti.

Foto: Zana Briski

Ao ganhar câmeras fotográficas, as crianças têm a oportunidade de aprender a  usar o equipamento e de perceber, cada uma a seu modo, uma nova história, novas perspectivas. Ao vivenciarem e documentarem o seu cotidiano por meio da fotografia.

E assim, as emoções se descortinam…

Foto: Zana Briski

As cenas das crianças em ação mostram que Briski dá as crianças muito mais que uma câmera fotográfica, dá a elas voz e esperança numa vida melhor.  É nítido perceber que tão importante quanto a produção das imagens, a exposição do resultado e as descobertas propiciadas pelos discursos elaborados, o simples ato da captura fotográfica propicia uma convivência extremamente agradável entre as crianças que dela participa. As saídas fotográficas propiciam momentos de interação, histórias e acontecimentos inusitados que reforçam laços do grupo. É belo de se ver a emoção das crianças ao conhecerem, sentirem, fotografarem o mar pela primeira vez.

Com Brisiki as crianças aprendem a ler as imagens. Suas vozes, até então silenciadas, começam a ecoar… “A foto é algo que posso olhar para o resto da vida”, “Quero expressar meus pensamentos”, “O que eu poderia ser? Se eu pudesse estudar teria um futuro melhor…”. Nesse ponto, validei o que eu já sabia: a fotografia é uma atividade fundamental para o contorno da identidade, seja para a autoafirmação, seja para o conhecimento. A possibilidade de se ter a própria imagem é um ato simbólico de apropriação do próprio ser. Propicia resgate nos quais se construirão a singularidade. A fotografia evoca sentimentos, lembranças, pensamentos e informações; resgata memórias e recupera percursos existenciais. Com a fotografia, o sujeito passa a existir para o outro e, num caminho inverso, o outro passa a existir para esse sujeito, num processo de olhar, fotografar e (re)olhar. Tal confirmação valida a experiência de cada sujeito em sua singularidade.

Foto: Suchitra

É imprevisível a implicação que essa suposta “apropriação do olhar” terá em crianças antes privadas de qualquer forma de poder, incluindo o poder referente a suas próprias vidas, a sua própria história. É certo que a fotografia, de alguma forma, recupera o poder do olhar e que, dessa maneira, propicia uma certa apropriação do mundo.

Diante dos desejos, antes sufocados, a fotógrafa percebe que munir essas crianças com aparelhos fotográficos não é suficiente. Era preciso dar além de esperança, condições de concretizar sonhos. E isso só viria por meio do estudo. Porém, seus esforços esbarra na incompreensão dos responsáveis pelas crianças e na burocracia das autoridades. Por meio dessa luta, há a descoberta de talentos que só puderam ser percebidos devido à intervenção da fotógrafa no Distrito da Luz Vermelha. O menino Avijit é um exemplo disso. Seu sensibilidade se materializa e seu olhar apurado aparecem em suas fotografias, o que leva a ser convidado para participar, em Amsterdã, de uma mostra internacional de fotografia.  Avijit retorna estimulado a estudar. Briski consegue com que uma das instituições de ensino aceite o menino.

Foto: Avijit Bucket

Cada uma dessas crianças passa a ser um observador do outro e de si mesmo. São testemunhas oculares de sua própria história. Com essa experiência, é fato que eles não responderam da mesma forma diante da narrativa fotográfica, mais uma coisa é certa: a fotografia foi tida como elemento de “verdade”. É notório que a fotografia os encantou, e isso acontece porque ela fascina, conta histórias… E, além de eternizar os momentos mais sublimes do cotidiano, entra no campo das emoções, ativam-nas, levam-nas às máximas cotas de intensidade. O espectador é sempre seduzido pela narrativa, pelos diversos “eus” idealizados, envolve-se emocional e mentalmente na história do outro, passa então a fazer parte dela.

Nesse contexto, fotografia é produção social: orienta, educa o olhar, revela,  oculta vivências e reapresenta o passado a um presente com visibilidade para o futuro. Fotografias trazem informações singulares, suportes para a fluidez narrativa. Contam histórias. São veículos de comunicação. Culturalmente aceitas como testemunho da verdade, são aliadas fundamentais para o resgate da autoestima, principalmente aos grupos silenciados. A fotografia é um antídoto à invisibilidade social.

A visibilidade negada aos grupos silenciados, por meio da fotografia é restaurada, e se torna uma narrativa que recria histórias e permite o sujeito ser protagonista de sua própria história. Mais do que  uma imagem técnica, a fotografia é uma forma de ver e pensar o mundo, de se fazer presente. Essas reflexões provocam leituras de mundo e constroem conhecimento.  Mais, a pergunta que merece resposta continua a gritar:

Até que ponto o fotógrafo tem o direito de invadir a vida dos outros?

Pergunta sem resposta?

Depende do ponto de vista. O sentimento que transborda é de impotência, o que tornam as minhas práticas um desafio interessante. Percebo que como fotógrafa, psicóloga, professora, pesquisadora… acabo sempre por invadir a vida do outro. Acredito que a chave para tentar responder a essa pergunta se constrói em um outro questionamento: Quem será o outro para mim? O que conhecemos sobre ele?

Qual a minha responsabilidade para com a sua história?

Uma coisa é certa: a fotografia, em seus desdobramentos, assume uma poética reveladora do cotidiano e, de “pinceladas” suaves passa a capturar com “objetividade” a realidade, como se fosse um decalque do real.

Acredito que tudo é assunto potencial para a fotografia, inclusive as coisas mais difíceis de nossas vidas: ansiedades, traumas de infância, mágoas, frustrações… As coisas que não podem ser vistas são as mais significativas. Elas não podem ser capturadas, apreendidas, apenas sugeridas.

Foto: Gour

Fica o convite:

Escolha um modo de se expressar.

 


FICHA TÉCNICA DO FILME

NASCIDOS EM BORDÉIS
(Born Into Brothels)

Direção, Produção, Roteiro e Fotografia: Zana Briski, Ross Kauffman
Trilha Sonora: John McDowell
Duração: 85 min.
Ano: 2004
País: EUA/ Índia
Gênero: Documentário

Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids, Índia/EUA, 2004 (Oscar de melhor documentário em 2005).

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com