Nicholas Carr: “A Internet que emburrece”

 

Conhecido no meio acadêmico como um dos maiores críticos do avanço da internet sob outras formas de disseminação do saber, o estudioso e escritor norte-americano Nicholas Carr foi finalista do prestigiado Prêmio Pulitzer com a obra “A Geração Superficial – O que a Internet está fazendo com os nossos cérebros”, publicada no Brasil pela Editora Agir, e atualmente com edição esgotada.

Na obra, Carr diz que os efeitos mais explícitos do uso incessante da internet, para o nosso cérebro, é a perda da capacidade de concentração e de memorização, numa espécie de “transferência” de responsabilidade no que se refere ao domínio da memória; ou seja, com a possibilidade de se ter uma memória portátil, “na mão”, em analogia direta aos dispositivos móveis de acesso a internet como smartphones e tablets, o leitor perde cada vez mais sua capacidade de construir estruturas cognitivas que, a médio e longo prazos, são responsáveis por uma série de mudanças na própria plasticidade do cérebro, e nas possibilidades de exercer uma visão crítica, aprofundada, sobre os diferentes temas abordados numa leitura tradicional.

Em “A Geração Superficial”, Carr embasa sua abordagem em diferentes e respeitados referenciais clássicos, tanto na área filosófica quanto na cientifica, tendo esta última ainda mais impacto por estar em constante atualização através das recentes descobertas da neurociência. Neste ínterim, Carr traça um panorama bem amplo sobre a memória, os processos cognitivos e o próprio desenvolvimento do cérebro, para apontar para uma espécie de aptidão do humano à acomodação. Assim, mostra a história da invenção do relógio – que aponta a mudança da relação de “estreiteza” entre a observação do “natural” para o “engarrafamento” do tempo –, seguindo pela história da escrita, até apontar os atuais mecanismos tecnológicos, como suportes do cotidiano laboral ou, mesmo, depositários das mais específicas habilidades humanas, a exemplo da capacidade [dos aparelhos] de não apenas armazenar informações, mas editar, cruzar e, por fim, “escolher” quais destas são pertinentes ao leitor.

 

De acordo com o norte-americano, “toda tecnologia intelectual incorpora uma ética intelectual, um conjunto de suposições sobre como a mente humana funciona ou deveria funcionar”. (p. 71) E estaria justamente neste detalhe, no da “instrumentalização” da mensagem, a ameaça à criatividade humana, já que pelo fácil viés do condicionamento e das associações rápidas e simples, naturalmente passa-se a rejeitar as chamadas “leituras/análises” profundas em favor de uma superficialidade estética proporcionada, sobretudo, pela cultura dos “memes”, como diria o filósofo Luís Felipe Pondé, numa clara referência ao estágio de hibridez entre o texto e a imagem, sendo esta segunda cada vez mais influente nos processos interpretativos. Assim, “tão logo injetamos em um livro links e o conectamos à web – tão logo o ‘estendemos’ e o ‘intensificamos’ e o tornamos mais ‘dinâmico’ – mudamos o que ele é e também mudamos a experiência de lê-lo.” (p. 146).

Nicholas Carr diz, dentre outras coisas, que o excesso de informação provocado tanto pela internet quanto por qualquer apetrecho digital que remeta à hipertextos leva, invariavelmente, a uma supervalorização da abordagem meramente técnica em detrimento de análises mais “profundas”, resultantes de conexões estabelecidas pelo exercício não apenas do memorizar, mas do pensar “a cada passo”, do folhear, do sublinhar sem a interferência das inúmeras distrações aparentemente inofensivas que os hipertextos contem, mas que distanciam o leitor do que ele chama de “percepção focada, profunda”. “A divisão da atenção exigida pela multimídia estressa ainda mais nossas capacidades cognitivas”, diz Carr, para emendar que “quando se trata de suprir a mente com a matéria-prima do pensamento, [o] mais pode ser menos” (p. 180), numa crítica ao volume cada vez maior de informações, quantidade esta que praticamente “esmaga” qualquer possibilidade de filtragem e de aprofundamento em dado assunto.

 

Trata-se, portanto, de um livro superatualizado para os interessados em estudar/compreender a influência da internet e das novas tecnologias nos processos de leitura. Há quem diga – notadamente os da área de transumanismo – que este caminho (da digitalização e dos dispositivos móveis) é inevitável e altamente positivo, como defende o filósofo Anders Sandberg, da Universidade de Oxford. Obviamente, esta não é a visão de Carr, para quem os letramentos múltiplos e multimodalidade mais distraem do que educam, numa espécie de ode ao entretenimento, em detrimento do cultivo do “saber profundo”. Se Carr está com a razão, é difícil saber. Afinal, toda análise que é feita no curso da própria revolução, como já alertou Hegel, é passível de estar impregnada de visões parciais. Dê-se tempo ao tempo, então!

 

REFERÊNCIAS:

CARR, Nicholas. A geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros. Tradução de Mônica Gagliotti Fortunato Friaça. Rio de Janeiro: Agir, 2011.

SINGER, Peter. Fazendo compras no supermercado genético. Disponível emhttp://moodle2.catolicavirtual.br/mod/url/view.php?id=553145  [com senha]. Acesso em 29/08/2013.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios – Livro II – Montaigne (Disponível emhttp://moodle2.catolicavirtual.br/mod/resource/view.php?id=554550 [com senha]. Acesso em 21/08/2013.

Prospectos da pós-humanidade: entrevista com Anders Sandberg. Revista Filosofia Ciência & Vida, Ano VII, número 90, janeiro de 2014, páginas 5 a 13.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).