No Coração do Mar: quando o homem se acha o centro do mundo

“Mesmo no mais alto trono do mundo estamos sempre sentados sobre o nosso rabo” 
Michel de Montaigne

Em cartaz nos cinemas, o longa americano “No Coração do Mar” (direção de Ron Howard) encontrou uma forma interessante para narrar o processo de criação do clássico inglês Moby Dick, baseado no épico – e trágico – naufrágio do navio baleeiro Essex, no século XVIII.

O filme mostra um período de intensas mudanças ocorridas ligeiramente antes do advento do petróleo e da consolidação da eletricidade. Tudo começa numa fria noite de inverno em 1820, quando um jovem e ainda desconhecido escritor decide entrevistar o único marujo vivo do navio Essex. Ele conta em detalhes a conturbada relação entre o primeiro oficial Owen Chase (Chris Hemsworth) e o fidalgo capitão George Pollard (Benjamin Walker), que navegam por meses em busca de baleias, até encontrar um longínquo santuário há muitos milhares de milhas da costa chilena, no Pacífico. Ambos não contavam, no entanto, que iriam se deparar com uma grande ameaça, uma gigantesca baleia branca que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio e sua tripulação.

“No Coração do Mar”, em certa medida, mostra um período histórico marcado pela gênese do Iluminismo, que incrusta nos ávidos corações da época a ideia de que, pelo constante desbravar de todas as fronteiras (no que viria a se chamar, com mais ênfase e amplitude, de progresso contínuo), o homem poderia – através do conhecimento e da razão – dominar a técnica, a natureza e, assim, assumir-se como espécie soberana. Não por menos, o filme começa e termina na região portuária de Massachusetts-EUA, palco da imigração evangélica (cuja Reforma combate o monopólio e mediação da Igreja Católica e, diria alguns autores, contribui para o sentido de formação de “humano em sua individualidade e ligação direta com Deus”), da Revolta do Chá e, depois, da expansão marítima-comercial-industrial norte-americana.

Há, de forma contundente, a sinalização da influência protestante sobre o arcabouço ideológico do Século das Luzes, por mais que os próprios cientistas e filósofos do período abolissem qualquer tentativa de aproximação com as religiões, notadamente as cristãs. E esta mensagem está por toda a parte, em “No Coração do Mar”. Isso ocorreu porque dentre as bandeiras de Lutero se encontrava a educação universal e irrestrita, como forma de preparar a cristandade para a nascente era moderna retratada no longa.

Pela graça de Deus, está tudo preparado para que as crianças possam estudar línguas, outras disciplinas e história, com prazer e brincando. As escolas já não são mais o inferno e o purgatório de nosso tempo, quando éramos torturados com declinações e conjugações. Não aprendemos simplesmente nada por causa de tantas palmadas, medo, pavor e sofrimento (LUTERO, 1517).

No filme, toda ação dos marinheiros era precedida por uma efusiva oração, em detrimento dos objetivos eminentemente comerciais do capitão e de seu primeiro oficial, inebriados pela busca do óleo de baleia, então a mais eficiente – e lucrativa – fonte de energia que iluminava ruas, casas e prédios públicos. Há, desta forma, uma clara aproximação entre a ética protestante e a ideologia calcada no trabalho e na produção de riquezas (como bem explicitado por Max Weber em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, cujo tema daria novo artigo).

Da antiga tradição católica, rechaça-se a miserabilidade do homem (contida implícita ou explicitamente na doutrina até então vigente) e empodera-se o protagonismo “dos filhos de Deus”, baseado na máxima de que “o homem foi criado à Sua Imagem e Semelhança”. Mais à frente, como a própria história haveria de mostrar, o secularismo ganha força e distancia-se de suas origens, ao tentar antagonizar – quase que num movimento e ação histéricos – religião de ciência.

O catolicismo e o protestantismo, por sua vez, nunca deixariam de explicitar o caráter teleológico da ciência e do conhecimento: não caberia espaço para a autopoiese – como defendem os secularistas neoateístas atuais –; antes, todo e qualquer desenvolvimento humano só tem sentido se oferecido ao Sagrado, a Deus e em nome da expansão de Sua Vontade. Portanto, ambos mantiveram a abordagem tipicamente transcendente, em detrimento da aparente autossuficiência imanente.

Neste aspecto, “No Coração do Mar” mostra dois pontos importantes. O primeiro, é que a nascente classe média moderna subverte o conceito de transcendência, ao dar ênfase apenas ao caráter sobrenatural do homem, que volta a ser visto – como o foi, em alguma medida e sem o conceito de individualidade, antes do heliocentrismo – como centro da demanda universal, portanto um “fiador” de Deus na Terra, tendo, assim, o direito de usufruto sobre toda a criação. Em nome de uma transcendência sem compaixão (e aí está a lacuna pela ausência de espiritualidade – note-se a ênfase em “espiritualidade”, e não em “religiosidade”), parte da humanidade tenta a qualquer custo dominar todos os campos que lhes são apresentados como impeditivos do progresso.

Ao não se identificar como integrante da natureza – e por considerar-se além dela –, só resta ao homem dominá-la. Não por menos, esta visão também ficou bem clara a partir das ideias de Francis Bacon – baluarte da ciência –, para quem o conhecimento científico deve servir ao homem e dar-lhe poder sobre a natureza. O homem consolida pelo secularismo a ideia de “sacralidade” como expressão do antropocentrismo. Surge, com isso, o famigerado especismo.

De acordo com Olivier

Especismo é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies por serem elas inferiores. É a atribuição de valores ou direitos diferentes a seres dependendo da sua afiliação a determinada espécie. O termo foi cunhado e é usado principalmente por defensores dos direitos animais para se referir à discriminação que envolve atribuir a animais sencientes diferentes valores e direitos baseados na sua espécie, nomeadamente quanto ao direito de propriedade ou posse. O especista acredita que a vida de um membro da espécie humana, pelo simples fato do indivíduo pertencer à espécie humana, tem mais peso e mais importância do que a vida de qualquer outro ser. Os fatores biológicos que determinam a linha divisória de nossa espécie teriam um valor moral – nossa vida valeria “mais” que a de qualquer outra espécie (OLIVIER, 1991).

Percebe-se que juntamente à pujante era moderna, de modo análogo ao racismo e ao sexismo, aparece também o especismo, cuja síntese de pensamento pressupõe que os interesses de um ser (no caso, os animais), são de menor importância “pelo mero fato de se pertencer a uma determinada espécie”. Presume-se com isso que é desta visão de que a natureza é um entrave para o desenvolvimento humano que se originou, portanto, a atual crise ambiental, sinalizada pela poluição ambiental generalizada, pelo desrespeito a outras formas de vida e pelo aquecimento global.

O segundo ponto importante, no filme, faz referência à associação implícita da natureza com os aspectos femininos (vários autores defendem este ponto de vista, sobretudo os de ênfase no estudo dos arquétipos, mas não iremos nos aprofundar neste tema). Se Deus é homem, à natureza só resta o posto feminino. Sendo assim, como parte da criação, a natureza não deveria ser adorada (através de sua preservação, por exemplo). Por estar sob a égide da “peressibilidade” e da contingência, diferente de Deus (Motor Primeiro e incriado à maneira aristotélica) a natureza é “corrompível” e, logo, se foi criada, inevitavelmente teve um começo, passou ou passará por um período de desenvolvimento e terá um fim (não o fim teleológico do homem, que é a união com Deus. Por ser ausente de alma, à natureza cabe a extinção). Aí pode estar o embrião, como defende Richard Dawkins, da resistência de vários setores sociais ao movimento ecológico. Um paradoxo, pois o próprio Dawkins é fruto contemporâneo de um Iluminismo que sofreu forte influência cristã.

Este medo que a cristandade tem em relação à suposta adoração da natureza (no passado, as bruxas foram queimadas porque, dentre outras coisas, dominavam os elementos da natureza e, portanto, se autogeriam) ficou claro quando, na década de 80 do século XX, importantes vozes do Vaticano compararam o movimento ecológico com a “marca da besta”. No filme, a baleia branca é chamada de demônio. Afinal, quão insuportável era o fato de se trocar a busca da “graça do Pai” pela “proteção da natureza”?. Por sorte, com o novo pontificado de Francisco, a pauta é invertida e o cuidado com “a criação e a casa comum de todos deve ser tema recorrente e alvo de investidas éticas e espirituais”. Desta forma, no limiar do século XXI, com a iminente catástrofe ambiental que se descortina, o discurso religioso percebe a importância de cuidar do meio ambiente e da ecologia como prerrogativa para a existência da própria espécie humana.

Por fim, levando-se em conta que toda ação gera uma reação, como defende a física clássica, o secularismo humanista acaba por suscitar, aos poucos, uma contraparte compensatória. Trata-se da imanência contida na ética das virtudes e no protagonismo político. No primeiro caso, o homem passa a ser visto como uma substância inseparável da natureza, num constante processo de interdependência onde a cada agressão ao meio ambiente acaba por provocar uma violência a si mesmo; no segundo caso, o movimento ecológico – como um fazer político – passa a ser visto por uma quantidade cada vez maior e crescente de pessoas como uma ação inadiável e indispensável. Afinal, se o homem é uma das expressões da natureza, é também responsável por suas interações danosas tendo, portanto, a responsabilidade de evitar e/ou ponderar seu impacto sobre o meu ambiente. Floresce, assim, uma “consciência ecológica e ambiental”, com ares de holismo. Agora, a própria religião cuja ênfase orbitava quase que exclusivamente na centralidade do homem, volta-se para a sabedoria de um dos doutores da Igreja Católica, Santo Agostinho, que ao combater a soberba crescente à sua época, diligentemente lembrava aos seus contemporâneos que, sempre quando se percebessem como superiores, se lembrassem do modo como nasceram, “entre as fezes e a urina” (numa situação de parto natural).

Se no filme um dos marujos grita aos céus perguntando a Deus porque recebeu um castigo tão cruel, após o naufrágio provocado pela baleia branca, na vida contemporânea o homem comum já passa a ter repertório para perceber que ele começa a colher o que ele mesmo plantou, e que só há um modo de mudar as coisas: agindo e vivendo diferente, com cuidado e respeito pela natureza e por todas as espécies. A caminhada é longa, mas – felizmente – há muita gente envolvida neste assunto. Para o bem de todos os seres.

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REFERÊNCIAS:

Sinopse de “No Coração do Mar”. Disponível em < http://www.adorocinema.com/filmes/filme-144338/ >; acesso em 13/12/2015;

ARENDT, Hannah. A condição humana. São Paulo: Forense Universitária, 2014;

COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: WMF, 2011;

O Livro da Filosofia (Vários autores) / [tradução Douglas Kim]. – São Paulo: Globo, 2011;

A Reforma Protestante e sua contribuição para a educação. Disponível em <
http://portal.metodista.br/fateo/noticias/a-reforma-protestante-e-sua-contribuicao-para-a-educacao-moderna >; acesso em 13/12/2015;

Cadernos Anti-especistas (textos de Olivier, dentre outros). Disponível em < http://www.cahiers-antispecistes.org/ >; acesso em 13/12/2015;

DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007;

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001;

Papa Francisco apresenta encíclica dedicada ao meio ambiente. Disponível em < http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2015/06/18/papa-francisco-apresenta-enciclica-dedicada-ao-meio-ambiente/ >; acesso em 13/12/2015;

FALCHI, Cinthia. Os feminismos de cada dia. Revista Filosofia Ciência & Vida, Ano VII, no. 104, págs. 36 a 43.

FICHA TÉCNICA

NO CORAÇÃO DO MAR

Dirigido por Ron Howard
Com: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphy e mais
Gênero: Aventura, Fantasia
Nacionalidade: EUA
Ano: 2015

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).