O Clube dos Cinco: sobre grupos em Kurt Lewin

Se você realmente quer entender alguma coisa, tente mudá-la.
Kurt Lewin

O Clube dos Cinco (1985) é um filme americano dirigido por John Hughes que conta a história de cinco adolescentes que ficam confinados na escola um sábado inteiro por mau comportamento.

Brian, Clarie, John, Andrew e Alisson são alunos da mesma escola e turma, porém, eles nunca foram amigos. Cada um frequenta um grupo distinto dentro da mesma escola e, apesar de se conhecerem desde o jardim de infância, nunca se permitiram um contato mais íntimo na vida uns dos outros.

Andrew (Emílio Esteves) é um jovem bonito, forte, determinado, respeitado pelo seu status de lutador pelos alunos da escola, autoconfiante e determinado, típico garoto popular, com um futuro brilhante.

Claire é uma jovem bonita, também popular, cheia de amigas, admirada pelas demais meninas que frequentam a escola. Assim como Brian tem um futuro promissor.

John Bender, por sua vez, é o contrário: típico garoto rebelde, que também alcança o status de popular, mas pelos motivos errados. Sempre se mete em brigas e é contraventor das regras da escola. O perfil ideal de aluno indesejado, sem futuro pela frente, mas que acaba convencendo o grupo a fazer muitas coisas.

Brian (Antony Michael Hall), é um menino comportado, estudioso, o famoso CDF da turma. Nunca se mete em confusões, até passa por despercebido. Não é nada popular, mas pelo perfil focado nas atividades acadêmicas, indica ter um futuro brilhante pela frente.

Alisson é a personificação da menina tímida e desajustada social. Sempre inibida, demonstra embotamento afetivo e nunca fala mais que o necessário. É rebelde como Jonh, mas de um modo diferente, acaba chamando a atenção por não querer a atenção para si.

Cinco personalidades tão distintas tinham tudo para não se adaptarem uns aos outros. Eles nunca haviam conversado entre si e se não fosse por um castigo, jamais teriam descoberto características em comum, no que tange às conflituosas relações familiares.

Durante o confinamento na biblioteca, eles são obrigados pelo professor a escrever uma redação de mil palavras sobre o que eles pensam de si mesmos. O castigo é um convite a cada um para refletirem sobre sua história, e sobre o tipo de pessoa que eles querem ser quando chegarem à idade adulta.

É com base nas teorias de Kurt Lewin (1890 – 1947) que buscamos a compreensão do fenômeno grupal como uma totalidade dinâmica. Seu foco eram os pequenos grupos; família, igreja, escola etc, num contexto onde o grupo e seus integrantes são interdependentes.

Para o autor, o grupo e suas múltiplas interações no ambiente social, contribuem para as transformações nas atitudes coletivas dos seus integrantes, é o que ele chama de clima grupal (MAILHIOT, 1991).

A dinâmica das interações entre os integrantes de um determinado grupo, sejam elas positivas ou contrarias, afetará o grupo de alguma maneira. A teoria de Lewin defende que o pesquisador social só pode compreender a dinâmica de um grupo se estiver inserido e participando dele, de outra forma, este seria apenas um observador.

Quando atribuímos a teoria de campo social ao filme O Clube dos Cinco, podemos perceber que os cinco alunos integram um campo social, com subgrupos, sugere que o campo grupal

[…] é composto por múltiplos fenômenos e elementos do psiquismo e, como trata-se de uma estrutura, resulta que todos estes elementos, tanto os intra como os inter-subjetivos, estão articulados entre si, de tal modo que a alteração de cada um deles, vai repercutir sobre os demais, em uma constante interação entre todos. (ZIMERMAN e OSÓRIO, 1997, p. 29).

Brian – o jovem lutador – juntamente com Claire – a menina popular – formam um subgrupo. Os demais: John  – o rebelde -, Andrew – adolescente que busca o reconhecimento dos pais por meio dos estudos – e Alisson – desajustada social – são indivíduos separados.

Os adolescentes, como uma totalidade, tem uma demanda inicial: falta de disciplina na escola, em primeiro plano, mas quando aprofundamos um pouco mais na trama, percebemos que o real problema está na dinâmica familiar de cada um.

Um grupo pode ser entendido como um conjunto restrito de pessoas, ligadas por constantes de tempo e espaço, e articuladas mutuamente, que se propõe de forma explicita – ou implícita – à realização de uma tarefa, o que constitui a sua finalidade (PICHÓN-RIVIÈRE apud BERSTEIN, 1989, p.127).

O grupo que nasce desse encontro é pequeno, formado por cinco integrantes e um líder –  o professor – que não se envolve intimamente com a dinâmica do grupo, desse modo o coordenador, oferece ao grupo independência para que ele crie mecanismos próprios de lidar com o problema apresentado.

A teoria de Lewin tem todos os indivíduos, mesmo aqueles que preferem se isolar dos demais, como integrantes do grupo. No filme, temos a jovem Allison que insiste em ficar isolada dos demais membros do grupo. Sem se comunicar verbalmente com nenhuma deles, ela permanece sentada na carteira do fundo. Mesmo com esse perfil, ela faz parte do grupo, influencia e é influenciada por ele. Isso se dá quando todo mundo fica rindo dela no momento em que ela vai almoçar. Todos se perdem nas gargalhadas.

O indivíduo influencia o grupo e o grupo influencia o indivíduo. O aluno que apresenta um comportamento rebelde, Brian, influencia muito o grupo, ele consegue deixar todos eles com raiva, mas posteriormente ele convence os demais alunos a saírem da biblioteca e correrem pelos corredores da escola. O grupo influenciou (afetou) todos os indivíduos.  A experiência que todos vivenciaram no castigo fez com eles se percebessem diferentes. Eles aprenderam uns sobre os outros e sobre si mesmo.

Houve uma mudança no papel social dos indivíduos do grupo. No começo todos foram resistentes a mudanças e foram indiferentes e isolados, não tentaram fazer amizade uns com os outros. Passado algum tempo, um dos meninos perguntou a todos o que aconteceria na segunda-feira, se eles ainda seriam amigos ou não. Alguns colegas foram a favor de mudança social, enquanto outros ficaram na resistência, porque pensavam no julgamento dos demais alunos da escola.

Percebermos que os integrantes do grupo ao se (inter)relacionarem foram impactados, e o clima grupal favoreceu uma mudança, até mesmo nos membros do grupo que pareciam mais resistentes.

O aluno mais rebelde, o personagem Brian, que antes era individualista começou a se preocupar com o bem geral do grupo, a Allison mudou radicalmente sua aparência física demonstrando uma mudança causada pela dinâmica do grupo. “Nenhum comportamento humano poderia se explicar unicamente em termos de causalidade histórica” (LEWIN apud MAILHIOT, 1991). O comportamento de grupo, no final do filme, não pode ser explicado por causalidade histórica dos indivíduos, mas por meio da dinâmica do grupo.

FICHA TÉCNICA:

O CLUBE DOS CINCO

Título Original:Breakfast Club
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 93 minutos
Elenco: Molly Ringwald, Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez, Anthony Michael Hall
Ano: 1985
Direção: John Hughes
Música: Wang Chung, Keith Forsey e SimpleMinds

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com