O Grande Hotel Budapeste: ode à amizade e à resiliência

Com nove indicações ao OSCAR:

Melhor Filme, Melhor Diretor (Wes Anderson), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem e Melhor Trilha Sonora Original. 

 

Precisamos ensinar a juventude a odiar o ódio, porque ele é infértil e destrói o prazer da existência – Stefan Zweig

Baseado na obra de Stefan Zweig (1881 – 1942) e com a brilhante direção de Wes Anderson, “O Grande Hotel Budapeste” é um presente aos amantes da Sétima Arte. O filme, dentre outros aspectos, tem uma estética tocante e é uma síntese do pensamento de Zweig sobre a Europa do entre-guerras, que à época estava marcada pela desconfiança, por violência, pelo tom de superioridade em relação ao resto do mundo, tom este balizado pela falsidade e, em medida análoga, “hipnotizada por antigos rancores e lembranças”. Ralph Fiennes (personagem de M. Gustave), Tony Revolori (Zéro), F. Murray Abraham (Mr. Moustafa), Mathieu Amalric (Serge X.), Adrien Brody (Dmitri), Saoirse Ronan (Agatha) e Willem Dafoe (Jopling) foram alguns dos atores/atrizes que fizeram parte do “time” que deu um brilho a mais para o longa.

O filme conta a estória de um “famoso gerente de um hotel europeu que conhece um jovem empregado” [imigrante], e daí nasce uma grande amizade. Entre as aventuras e desventuras vividas pelos dois, há episódios eletrizantes (até mesmo cômicos) como o roubo de um famoso quadro do Renascimento, além de testemunharem “a batalha pela grande fortuna de uma família e vivenciarem as transformações históricas ocorridas na região”.

Mas sem a engenhosidade do diretor Wes Anderson talvez “O Grande Hotel Budapeste” não teria alcançado seu intento nos cinemas. Wes conseguiu transpor para a grande tela a dinâmica de intrigas testemunhadas por Zweig, desavenças estas que varreram a Europa de aproximadamente 100 anos atrás, uma verdadeira “Babel” onde o idealismo “havia sido corroído” pelo crescente interesse na divisão das fronteiras, que exacerbava a diferença e o nacionalismo. Período em que a variedade estaria longe de se tornar um caldeirão cultural sadio, como sonharam alguns líderes políticos no pós-guerra.

No longa, três aspectos saltam aos olhos: o imigrante como esperança e representação “do novo”, o enfoque na transformação pela amizade e, por fim, a (re)ação por meio da resiliência¹.

 

ESPERANÇA NO ALÉM-FRONTEIRAS

Neste ínterim, a visão de Stefan Zweig sobre o “além-fronteiras” é mantida, já que Zéro é a caricatura, em alguma medida, da solidariedade e da humanidade ainda encontradas no Novo Mundo ou nos países explorados economicamente pela Europa, em sua política de colonização. Zéro, assim, aparece esperançosamente como um “jovem com frescor, que vive para o futuro, não para o passado com suas ideias obsoletas” (ZWEIG, 1936, p. 03).

O desenrolar e amadurecimento da forte amizade entre os principais personagens, mesmo diante de um cenário “encoberto pela névoa venenosa da desconfiança” (ZWEIG, 1936, p. 04), representa o sonho de Zweig, que exortava seus contemporâneos a se privar

 De qualquer palavra que possa aumentar a desconfiança entre pessoas e nações; ao contrário, temos o dever positivo de agarrar a menor oportunidade para julgar as realizações de outras raças, outros povos e países de acordo com o seu mérito (ZWEIG, 1936, p. 06).

 A ação redentora para superar a adversidade e desenvolver a resiliência (tanto do imigrante Zéro quanto do esmerado gerente M. Gustave) seria ancorada na afeição. É através da amizade que os preconceitos se desarmam, e a confiança aos poucos se sobrepõe, dando à vida contornos de autenticidade.

E desta pujante relação fraterna, o longa conseguiu captar parte da percepção de Stefan Zweig, que mesmo desacreditado com o Velho Mundo, impôs na obra a possibilidade de se manter algum grau de idealismo, mesmo na pior das circunstâncias. Isso em oposição à própria barbárie decorrente da expansão do nazismo e do antissemitismo (Zweig era judeu), se colocando aparentemente como uma espécie de “idealismo ético”, em que pese o caráter da ação no campo do particular, por parte dos protagonistas.

ENFOQUE NO SUJEITO QUE NÃO SE VITIMIZA

Zweig imprime nos personagens o início mesmo do enfoque no sujeito (aqui, no sentido filosófico), que apesar de estar embebido na velocidade das transformações histórico-políticas da ocasião, percebe claramente “o seu lugar no mundo”, mantendo a altivez e transformando as circunstâncias em oportunidades de superação. Pena que o próprio Zweig não suportou as atrocidades nazistas, acabando por se suicidar – ele e a esposa – em seu exílio em Petrópolis-RJ.

M. Gustave e Zéro delineiam a “atitude resiliente”, aquela que opta por “minimizar ou superar os efeitos nocivos das adversidades, inclusive saindo fortalecidos dessas situações” (ANGST, p. 254 apud MOTA, BENEVIDES-PEREIRA, GOMES & ARAÚJO [2006, p. 58]). No entanto, como lembra Rosana Angst:

É importante salientar que a resiliência não pode ser considerada um escudo protetor, que fará com que nenhum problema atinja essa pessoa, a tornando rígida e resistente a todas as adversidades. Não existe uma pessoa que É resiliente, mas sim a que ESTÁ resiliente (ANGST, 2009, p. 254).

 M. Gustave e Zéro não ficam imunes aos problemas, eles são transformados por estes contratempos sem se posicionarem como vítimas. No final, estão profundamente impactados. Abraçam as circunstâncias adversas, sempre procurando encontrar soluções, num processo que é enérgico e onde “as influências do ambiente e do indivíduo relacionam-se de maneira recíproca, fazendo com que o indivíduo identifique qual a melhor atitude a ser tomada em determinado contexto” (ANGST, 2009, p. 255 apud PINHEIRO, 2004; ASSIS, PESCE & AVANCI, 2006).

Angst também lembra que “a resiliência não é adquirida, e sim aprendida”. No caso de Zéro e M. Gustave, há a forte influência mútua, decorrente da amizade, onde ambos saem ganhando, num arcabouço de “complementaridade ideal”. Zéro, apesar de jovem, esteve em contato com a guerra (e tudo o que dela resulta, como perseguição, doença e morte); M. Gustave tem a sagacidade de anos como gerente de um hotel que é símbolo da instabilidade regional (embora, no passado, fosse um retrato da opulência europeia).

No ato final, o que se vê é a solidificação da fraternidade, a expressão mesma da amizade, onde se percebe “um relacionamento humano que envolve o conhecimento e a afeição, além de uma lealdade que se confunde com altruísmo”. Como filme impecável, “O Grande Hotel Budapeste” poderia ser resumido num fragmento do “Soneto do amigo”, de Vinícius de Moraes, para quem “[…] depois de tanto erro passado / Tantas retaliações, tanto perigo / Eis que ressurge noutro o velho amigo / Nunca perdido, sempre reencontrado”. E a força dos protagonistas lembra uma tocante frase de outro judeu-austríaco, inventor da Psicanálise. Para Sigmund Freud, “somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”. O tempo inteiro, em seus 100 minutos, o filme alerta para esta máxima.

O longa ainda lembra uma célebre frase de um grande conterrâneo de Zweig, o também austríaco Franz Kafka, para quem toda obra de arte, como um bom livro ou um bom filme, por exemplo, “tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós”. Ninguém, presume-se, passa incólume ao assistir “O Grande Hotel Budapeste”.

Nota:

¹ – Resilliência é capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças. O termo é emprestado da física, de onde significa a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Fonte: Dicionário Houaiss. Disponível em <http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=resili%25C3%25AAncia> – Acesso em 01/01/2015 (somente com senha).

 

 

Mais filmes indicados ao OSCAR 2015: http://ulbra-to.br/encena/categorias/oscar-2015


FICHA TÉCNICA DO FILME

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

Direção: Wes Anderson
Atores/atrizes: Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Mathieu Amalric,  Adrien Brody, Willem Dafoe, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Saoirse Ronan, Jason Schwartzman e Tilda Swinton, dentre outros;
Gênero: Comédia, Drama, Policial;
Nacionalidade: Reino Unido, Alemanha
Ano: 2014


Curiosidades sobre Stefan Zweig

* Stefan Zweig é de família judia e nasceu em 28 de novembro de 1881, em Viena (até então Império Austro-Húngaro); com o avanço da escalada de violência na Europa, no entre-guerras, e o antissemitismo nazista, resolve sair da região;

* Zweig foi um dos maiores escritores de seu tempo, e até hoje está entre os autores mais publicados e traduzidos da Europa; o filme “O Grande Hotel Budapeste” é baseado em relatos de sua vida, e em partes de sua obra;

* Zweig e sua esposa Lotte empreenderam três viagens ao Brasil. Finalmente se exilaram no país, por considerarem um dos lugares mais fascinantes do mundo. Ele é autor do famoso livro “Brasil, o país do futuro”, frase que virou jargão e representa o símbolo do orgulho nacional;

* Grande divulgador dos ideais pacifistas, em 1942, deprimido com o crescimento da intolerância na Europa e em comum acordo com a esposa, se suicida em Petrópolis;

* A casa onde Stefan Zweig e sua esposa Lotte moraram na região serrana do Rio de Janeiro foi transformada em museu, e também em Memorial do Exílio. Petrópolis ficou mundialmente famosa após o fatídico acontecimento, que “eternizou a ansiedade e o desespero de um mundo em guerra e sem esperança”.

Sinopse de “O Grande Hotel Budapeste”. Disponível em <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-207825/> – Acesso em 30/12/2014;

COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: WMF, 2011;

O Livro da Filosofia(Vários autores) / [tradução Douglas Kim]. – São Paulo: Globo, 2011;

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001;

RACHELS, James. Os elementos da filosofia da moral. 4. ed. São Paulo, SP: Editora Manole, 2006;

Amizade. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Amizade> – Acesso em 30/12/2014;

Biografia de Stefan Zweig. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Stefan_Zweig> – Acesso em 30/12/2014;

Angst, ROSANA. Psicologia e Resiliência: Uma revisão de literatura. Disponível em <www2.pucpr.br/reol/index.php/PA?dd1=3252&dd99=pdf> – Acesso em 31/12/2014;

ZWEIG, Stefan. Um ensaio – A Unidade Espiritual do Mundo. São Paulo: Expresso Zahar, 2014;

Site oficial do museu Casa de Stefan Zweig. Disponível em <http://www.casastefanzweig.org> – Acesso em 01/01/2015.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).