O Hobbit – A batalha dos cinco exércitos

Concorre ao Oscar 2015 de Melhor Edição de Som

O filme começa com a expulsão do dragão Smaug da montanha de Erebor, a qual pertencia aos anões e o seu furioso ataque a Cidade do Lago, pertencente aos humanos.

 

 

No primeiro filme, ficamos sabendo que reino de Erebor era poderoso e próspero, mas devido a ganância dos anões por seu ouro e riquezas, o reino foi tomado pelo dragão Smaug, que o guardou durante 60 anos.

Bem não vou entrar nos detalhes da aventura, uma vez que serão exploradas com mais detalhes na análise dos outros filmes antecessores. Mas o importante é saber que os anões, com a ajuda de Bilbo e Gandalf, conseguem chegar as montanhas e expulsam o dragão.

 

 

O pescador Bard, que também ficamos sabendo ser descendente dos nobres que tentaram aniquilar o dragão, consegue matar o dragão, com apenas uma flecha. Ele é o herói da história!

Importante aqui analisarmos o simbolismo de cada personagem.

 

 

Os anões são seres pertencentes ao mundo dos contos de fadas. E costumam ser retratados como seres muito prestativos e dóceis. São ótimos mineradores e metalúrgicos. Trabalham nas cavernas onde extraem pedras e metais preciosos e também podem confeccionar objetos mágicos com eles.

Em termos psicológicos eles podem ser considerados como uma instância psíquica que retira o que há de precioso no inconsciente (caverna) e traz a superfície dando forma e uso a esses tesouros. Mas como são pequenos podem ser facilmente esquecidos e ignorados.

 

 

O fato de haver se corrompido e deixado de serem prestativos, mostra que um aspecto da consciência coletiva está distorcido e não funciona de forma saudável.

Infelizmente vemos essa característica de ganância em nossa atual sociedade, onde o ouro (dinheiro) corrompeu nossos governantes, levando-nos a uma pobreza espiritual. A sede de poder leva a repressão do Eros e dos aspectos femininos da psique.

 

 

Observamos isso no filme pela falta de uma rainha tanto no mundo dos anões como no mundo humano. A presença feminina se faz notar no mundo dos elfos, com Tauriel e Galadriel. Os elfos costumam ser retratados como seres belos e mais desenvolvidos em termos de sentimento, tanto que na trilogia O senhor dos anéis a rainha aguardada surge desse reino.

 

 

Outra criatura presente nos contos de fadas é o dragão.

O dragão é uma fusão de serpente e pássaro. A serpente é um animal ctônico, ligada aos deuses do mundo subterrâneo. O pássaro é um animal ligado ao espírito, ao Logos e aos deuses que moram no Olimpo. Portanto é um animal ambivalente, que une masculino e feminino e o poder criador e destruidor.

Na China, local de origem dessa figura, o dragão representa a força e a glória do Imperador. Ele é considerado o protetor dos tesouros, tanto os provindos da terra (ouro e jóias), quanto os provindos do espírito (conhecimento e sabedoria).

 

 

Na sociedade cristã ocidental, que é a nossa, o dragão passou a ser visto de forma maligna, recebendo todo tipo de projeção negativa. Tanto que na psicologia matar o dragão significa superar os aspectos regressivos da psique. No entanto, analisar apenas dessa forma essa figura arquetípica no filme seria muito reducionista uma vez que o dragão apresenta várias facetas.

No filme o dragão apesar de claramente negativo e destruidor apresenta um aspecto benéfico, mesmo que de forma sutil. Ele aparece no momento em que a ganância toma conta do reino dos anões e humanos (veja que o governante da cidade do lago é bastante corrupto), com o intuito de proteger o tesouro contra a corrupção.

 

 

A mensagem que essa criatura nos traz é que somente um verdadeiro governante que superou o aspecto sombrio pode se apossar de tamanho tesouro. E vemos isso no teste que ele impõe a Thorin, o herdeiro legítimo do trono.

 

 

Smaug ataca a cidade reduzindo-a as cinzas.

As cinzas representam uma humilhação e uma descida de classe social. Mas também simbolizam a contrição, a humildade e a operação alquímica mortificatio. A consciência coletiva entrou em contato com seu lado negativo e foi aniquilada, tendo que ser reconstruída com mais humildade e respeito para com as forças do inconsciente.

O dragão é abatido por uma única flecha disparada por Bard. O tema do herói que vence o monstro com uma única flecha certeira é um tema mitológico bastante conhecido.

 

 

Na Mitologia Iorubá o orixá Oxossi matou o pássaro monstruoso enviado pelas feiticeiras, as Yami Oxorongá, com uma única flecha, enquanto os antecessores não conseguiram. O fato de matar as Yami, que representam o inconsciente devorador, simboliza o ato de se desprender do caráter regressivo e destrutivo do inconsciente.

No caso do filme, representa não apenas a libertação do inconsciente devorador, mas também a renovação da consciência, agora mais nobre. É importante observar que Bard agora tenta negociar, ao invés de ir à guerra com Thorin, isso mostra um nível um pouco mais elevado de consciência.

 

 

Mas ainda o verdadeiro regente está para se manifestar e vemos ainda que falta o elemento feminino, pois Bard é viúvo.

Enquanto a guerra dos anões e homens contra os Orcs se desenrola existe outro aspecto sombrio se manifestando na figura do Necromante, que Gandalf vai investigar. E para sua surpresa ele reconhece Suaron, o mal que será enfrentado no Senhor dos Anéis.

 

 

Vemos também que Bilbo rouba o Anel, que posteriormente seu sobrinho Frodo irá destruir.

Bilbo apesar de possuir uma função importante não é o herói da história, mas sim o ladrão. Uma manifestação de Hermes, leve, rápido e de rápido raciocínio.

O ladrão quando aparece sem sonhos mostra que aspectos da consciência estão sendo roubados e levados ao inconsciente, por isso é comum o sonhador apresentar uma apatia e uma falta de vontade em vigília contrastando com uma imensa atividade onírica. Nessa fase a profusão de sonhos é enorme.

 

Em O Hobbit o roubo do Anel vai ativar outro aspecto sombrio do inconsciente, manifesto em Sauron.

Um período de 60 anos se passa entre a aventura de Bilbo e a saga Senhor dos Anéis em uma relativa paz. Isso nos faz pensar em como se desenvolve nossa vida pessoal, pois após resolvermos um conflito e passarmos por um período de calmaria e relativa tranqüilidade somos brindados com um novo conflito enviado pelo inconsciente. E assim ocorre em toda nossa vida! O processo de individuação não tem um fim! Se não tivermos mais conflitos a resolver a vida se estagna e entramos na zona de conforto e total preguiça.

 

 


FICHA TÉCNICA DO FILME

O HOBBIT: A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS

Direção: Peter Jackson
Música composta por: Howard Shore
Antecessor: O Hobbit: A Desolação de Smaug
Duração: 144 minutos
Ano:2014

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
Autor / Co-Autores: