O Iluminado: quando Kubrick encontra Freud

 “Pode ser verdade que o estranho seja algo que é secretamente familiar, que foi submetido à repressão e depois voltou, e que tudo aquilo que é estranho satisfaz essa condição.” (Freud, O Estranho [1])

 

“O Iluminado” é uma adaptação do livro de Stephen King – “The Shining” – trazido às telas em 1980 por Stanley Kubrick. As inúmeras análises sobre esse filme disponíveis na internet e as várias cenas transformadas em imagens icônicas da representação do medo e do horror mostram a sua importância em discussões sobre temáticas que envolvem o terror psicológico.

Segundo [2], em preparação para escrever o roteiro de “O Iluminado”, Kubrick e a romancista Diane Johnson leram o ensaio de Freud de 1919 – “O Estranho”. A intenção de Kubrick era apresentar uma estética no filme que se assemelhasse aos elementos desse ensaio. Para tanto, fez uso da temática do duplo, inclusive em algumas cenas utilizou-se de espelhos induzindo à ideia do “eu dividido”, e mostrou o quanto a repetição e os padrões podem dar ao cotidiano uma conotação estranha, em alguns aspectos até assustadora.

 

 

A história tem como centro a família de Jack Torrance, um alcoólatra em recuperação que tenta reconstruir a vida após sua demissão do cargo de professor. Para tanto, participa de uma entrevista para uma vaga de zelador em um hotel durante o recesso de inverno. Nessa época, o local fica praticamente inacessível e, com isso, sem hóspedes. Esse ambiente é ideal para Jack retornar o antigo sonho de tornar-se um escritor, já que terá tempo e sossego suficientes para escrever. Na entrevista, o gerente do local diz a Jack que o antigo zelador havia enlouquecido, assassinado sua família e depois tirado a própria vida. Mas, mesmo diante dessa informação, Jack não recuou, pois se assim o fizesse, estaria dando margem a crenças e superstições, coisas que, para ele, não faziam sentido.

 

 

Há aqueles que assistem a esse filme e dão aos eventos que nele ocorrem uma interpretação totalmente sobrenatural. Como se houvesse uma força invisível e maligna conduzindo as ações de Jack. E essa força, segundo alguns, era percebida apenas por Danny (filho de Jack), que por ser uma criança sensitiva, tinha uma percepção mais aguçada para enxergar o mal, ainda que não soubesse como lidar com ele.

 

 

No entanto, acho mais plausível entender “O Iluminado” como um drama psicológico. Assim, a questão do histórico familiar de alcoolismo de Jack, que o levou à linha limítrofe entre uma atitude errônea e “acidental” com o filho (deslocando o ombro do menino) e uma ação que pode ser tipificada como abuso infantil, tenha sido o evento que mais contribuiu para o aparecimento de Tony, o “amigo imaginário” da criança (“o menino que vive na minha boca“, segundo Danny).

De acordo com [3], crianças com transtorno dissociativo de identidade e transtorno dissociativo não especificado muitas vezes apresentam sintomas como alucinações auditivas, conversas com amigos imaginários, alterações comportamentais rápidas e inexplicáveis, estados aturdidos, experiências noturnas incomuns, dentre outros. E esses transtornos geralmente são evidenciados em crianças que sofreram algum tipo de abuso, pois tem como disparador um evento traumático.

 

 

Na medida em que a história avança e o Jack se torna cada vez mais isolado e agressivo, vimos Danny alterar ainda mais o seu comportamento, como se fosse uma resposta à conturbação que o cerca. A criação de Tony é uma forma que Danny encontrou de proteger-se dos danos que a família lhe provoca, de lidar com um pai potencialmente perigoso e agressivo e uma mãe histérica e confusa.

Em uma leitura rápida nos noticiários “do mundo real”, pode-se observar que não há a necessidade de buscar o sobrenatural para termos diante de nossos olhos situações assustadoras e um tanto quanto inexplicáveis. A realidade cruel do assassinato ou abuso de crianças por pessoas que deveriam zelar pela sua integridade física e mental mostram-nos a cada momento que uma família desestruturada pode se tornar um ambiente mais horripilante que qualquer história de terror pautada em elementos puramente fantasiosos.

 

O tema do ‘duplo’ foi abordado de forma muito completa por Otto Rank (1914). Ele penetrou nas ligações que o ‘duplo’ tem com reflexos em espelhos, com sombras, com os espíritos guardiões, com a crença na alma e com o medo da morte; mas lança também um raio de luz sobre a surpreendente evolução da ideia. Originalmente, o ‘duplo’ era uma segurança contra a destruição do ego, uma ‘enérgica negação do poder da morte’, como afirma Rank; e, provavelmente, a alma ‘imortal’ foi o primeiro ‘duplo’ do corpo.” (Freud, O Estranho [1])

 

Apesar da existência de vários espelhos no hotel, é nítida a aversão de Jack por eles. É como se ele não pudesse enfrentar seu verdadeiro “duplo” (ele mesmo) e, assim, fosse construindo outras formas de “duplo”. E faz isso porque, em algum nível, percebia que estava se tornando um caótico amontoado de fragmentos. Ele precisava se prevenir de uma potencial destruição do ego e, principalmente, fugir do seu profundo medo de morrer sem ter tido a oportunidade de se transformar em um homem extraordinário.

 

 

Assim é mais fácil entender a existência de um barman em um hotel que deveria ter apenas sua família. É como se o homem no bar oferecendo-lhe bebida atenuasse o fato de que ele estivesse bebendo porque desejava e precisava. O homem que lhe oferecia bebida e a mulher nua na banheira (que oscilava entre ter um corpo jovem e belo e um corpo em decomposição) existiam apenas em sua mente.

As vozes que ecoavam do seu inconsciente, uma possível representação dos seus desejos reprimidos, faziam com que seu reflexo (o duplo) não fosse sua semelhança.  Assim como Danny criou seu “amigo imaginário” para sobreviver a um contexto que lhe era incompreensível, as figuras que ganhavam vida a partir da mente de Jack eram necessárias “lá fora”, pois já não havia mais espaço nele.

 

 

Segundo [2], quando Kubrick trouxe para “O Iluminado” as ideias apresentadas em “O estranho” (de Freud) deu ao filme um campo de interpretação bem mais abrangente. Ou seja, as imagens espectrais apresentadas no filme não parecem ser meramente sobrenaturais ou totalmente misteriosas em sua origem. Se os detalhes forem observados mais atentamente, pode-se concluir que a origem de tantas “estranhezas” é completamente familiar.

 

O elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo reprimido que retorna” (Freud, O estranho [1])

Seria mais fácil explicar o mal através de elementos místicos do que acreditar nas atrocidades que um indivíduo pode ser capaz de fazer. Fantasmas ou magias são mais reconfortantes para explicar eventos assustadores do que ter o entendimento de que “o horror” e “o bizarro” são partes da natureza humana. No entanto, tal negação não ajuda a combater nem a evitar os horrores nossos de cada dia. Se alguém tivesse compreendido a extensão dos estranhos desejos reprimidos de Jack, talvez pudesse ter ajudado a sua família e, de certa forma, evitado eventos tão traumáticos (e fatais).

Mas, a questão é como identificar o mal que pulsa de forma tão pungente e descontrolada se ele pode ter uma origem tão familiar? É mais fácil aceitar que há um monstro no estranho que mora longe das nossas casas do que compreender que ele pode residir em alguém da nossa família ou em nós mesmos.

 

“É possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma ‘compulsão à repetição’, procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco.” (Freud, O Estranho [1])

 

A ideia da repetição é o fio condutor do filme. Jack inicialmente achou patético sentir qualquer tipo de incômodo por ir morar em um lugar que havia sido cenário de um estranho crime. Mas aos poucos foi apresentando uma visível sintonia com o antigo zelador, já que tinha desejos (ainda que reprimidos) semelhantes ao dele. Inconscientemente, a princípio, sentia que precisava se livrar daquela família que o transformava em um homem ordinário, já que até as palavras que ganhavam vida na máquina de escrever pareciam zombar dele. Com esse pensamento ganhando cada vez mais força entendeu que para se libertar seria necessário tirá-los de seu caminho.

 

 

A última imagem que aparece no filme é a foto de uma confraternização datada de 1921. E enquanto Jack permanece congelado em algum ponto do labirinto do jardim repleto de neve, um Jack sorridente vive na imagem em preto & branco em uma das paredes do hotel. Finalmente, Jack conseguiu atingir a imortalidade, já que parece ter encontrado o “duplo” perfeito que ganhou forma por meio da repetição.

Há o retorno constante da mesma coisa – a repetição dos mesmos aspectos, ou características, ou vicissitudes, dos mesmos crimes, ou até dos mesmos nomes, através das diversas gerações que se sucedem.” (Freud, O Estranho [1])

A grande ironia da nossa existência talvez resida nessa repetição de acontecimentos que esmaga nossa ingênua ilusão de singularidade. Em contrapartida, há no círculo vicioso do eterno retorno uma esperança de imortalidade. O estranho familiar que nos assombra talvez esteja tão perto quanto o barulho que ouvimos (ou pensamos ouvir) quando estamos sozinhos com nossos pensamentos. Nada é mais terrível do que esse medo tão familiar que carregamos conosco, o medo daquilo que está reprimido, mas terrivelmente próximo.

 

Referências:

[1] Freud, S. O estranho. Disponível em: http://texsituras.files.wordpress.com/2010/09/o-estranho.doc

[2] http://kubrickfilms.tripod.com/id80.html

[3] http://ajp.psychiatryonline.org/article.aspx?articleid=172850

FICHA TÉCNICA:

O ILUMINADO

Título Original: The Shining
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Diane Johnson, Stanley Kubrick
Elenco Principal: Jack Nicholson, Danny Lloyd, Shelley Duvall
Ano:1980

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.