O Lobo de Wall Street: poder, vício e manipulação

Com cinco indicações ao Oscar:

Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Jonah Hill) e Roteiro Adaptado (Terence Winter).

 

“O Lobo de Wall Street” é uma adaptação do livro de memórias de Jordan Belfort (interpretado por Leonardo DiCaprio), um corretor da bolsa, de origem humilde, que construiu um império financeiro e extravagante no final do século XX a partir de especulações na bolsa, investimentos escusos, lavagem de dinheiro e fraude de títulos. Mas, o filme é, antes de qualquer coisa, um panorama cruel e, muitas vezes, desagradável dos excessos, compulsões e vícios que estão no subsolo desses impérios econômicos.

Belfort tenta, inicialmente, iniciar sua carreira numa empresa de Wall Street, no entanto, acaba sendo despedido por causa do crash do mercado em 1987, o pior desastre econômico dos EUA desde a queda da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929. Assim, ele precisa se reinventar, e o faz graças a uma característica que o diferencia da maioria, a capacidade de liderança e de fazer as pessoas acreditarem nelas mesmas, mesmo sem compreender a extensão do contexto em que estão inseridas. E assim ele cria sua própria empresa, a Stratton Oakmont, juntamente com alguns conhecidos, todos habituados (ainda que em um ambiente diferente) a lidar com vendas e drogas, uma combinação especialmente atrativa para Belfort.

O braço direito de Belfort é Donnie Azoff (Jonah Hill), uma daquelas pessoas que poderia facilmente passar o resto da vida trabalhando em um restaurante, cheirando cocaína, sendo um pai de família mediano e um marido zeloso. No entanto, a amizade com Belfort coloca-o em um universo totalmente diferente e, de certa forma, suas atitudes e seu comportamento fazem com que venha à tona uma figura sem escrúpulos, sem ética e emocionalmente instável. Sua amizade torna Jordan ainda mais dependente, inclusive de drogas pesadas (como o crack). E sua forma de agir no impulso, apenas para mostrar que é o senhor de uma dada situação, ajuda a evidenciar os crimes cometidos na empresa, contribuindo para as investigações conduzidas pelo FBI e para a consequente derrocada de Belfort.

 

 

Em vários momentos do filme, as cenas são desconcertantes, porque não há, por parte da direção ou do roteiro, tentativa de minimizar o cenário aterrador por detrás dos jogos de poder de Wall Street. Assim, é possível vermos anões serem lançados como meros objetos em um alvo no meio da firma, e isso é feito simplesmente para garantir a diversão dos marmanjos presente e criar neles uma vontade de ultrapassar qualquer tipo de limite.

 

 

No final do expediente, ou mesmo no meio de uma tarde qualquer, vimos mulheres contratadas para as orgias sexuais dos funcionários da empresa. Assim, enquanto os corpos nus das mulheres se transformam em recipiente de cocaína, de forma a garantir a satisfação dos homens de negócio e suas necessidades primitivas de demarcação de território e abuso de poder, Belfort vai construindo seu império. Ele é o mentor da equipe e os ensina a manipular potenciais clientes através de ligações telefônicas com promessas de realização de fantásticos negócios.

 

 

Leonardo DiCaprio mostra-nos todas as nuances do personagem, desde sua compulsão por sexo e sua dependência em vários tipos de drogas, até em seu cotidiano conturbado com sua segunda esposa (Margot Robbie). Aos poucos, vamos percebendo que o Lobo feroz, imbatível e incansável vai perdendo o controle sobre sua vida. Já não é capaz de dominar a esposa, é nitidamente um pai irresponsável, por expor a criança aos seus momentos de alucinação e fraqueza, e precisa decidir entre ir para a cadeia como um herói (em sua concepção) ou trair seus amigos de forma a diminuir sua pena.

 

 

Em meio aos discursos inflamados de Belfort para seus funcionários ávidos por uma figura que represente um poder e uma liberdade que eles notadamente não possuem, vimos o quanto é fácil, para alguns, a manipulação das massas. Numa breve revisão histórica, percebemos o quanto essas figuras estão presentes nas mais variadas épocas e lugares. Parece que, desde sempre, a humanidade carece de modelos de liderança. Essa carência e desejo tornam-se mais preponderantes justamente quando as pessoas estão mais fragilizadas. Por isso, vimos que a Alemanha, no final da Primeira Guerra Mundial, derrotada e humilhada, foi o cenário ideal para Hitler formar sua legião de carrascos. E, ainda hoje, nos deparamos com líderes “religiosos” usando a fraqueza dos fiéis como forma de exploração psíquica e financeira. Ou seja, há muitos lobos em nosso meio.

 

 

Por mais desagradável que esse filme soe para muitos, e eu entendo isso, parece-me que, algumas vezes, é interessante nos depararmos com a parte mais sombria que existe por detrás do sonho de ser um vencedor em um mundo com poucas oportunidades. E isso se torna uma jornada mais complexa especialmente quando nos deparamos com as ditas “inteligências múltiplas” sendo usadas para manipular e criar cenários cujas leis morais e limites são definidos segundo dois aspectos: poder e dinheiro.

É isso que Belfort diz inicialmente, ele quer ser rico, ele gosta de ser rico, pois mesmo drogado e cercado por indivíduos monopolizáveis e fracos, ter uma convulsão numa mansão, com uma Ferrari na garagem, é um cenário mais desejável e, segundo ele, bem mais atrativo. Não é atoa que Jordan Belfort (a pessoa que inspirou o personagem), atualmente, tornou-se um palestrante motivacional e, para isso, ele usa aquilo que mais sabe fazer: liderar (ou seria manipular?) pessoas. É a vida real mostrando-se mais irônica do que qualquer roteiro saído simplesmente da nossa imaginação.

FICHA TÉCNICA:

O LOBO DE WALL STREET


Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Terence Winter
Elenco Principal: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler
Ano: 2013

Alguns Prêmios:

Golden Globe 2014 (Melhor Ator: Leonardo DiCaprio)
Broadcast Film Critics Association Awards (Melhor Ator: Leonardo DiCaprio)

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: