O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel: uma jornada simbólica

O Senhor dos Anéis é uma obra de uma imensa grandiosidade, tanto que para analisar a obra inteira, em sua complexidade, gastaríamos muito tempo e isso cansaria o leitor. Por essa razão esse texto vai focar somente nos aspectos simbólicos do filme. E a ação e jornada em si, a principio, será deixada de lado, sendo material para análise em uma próxima resenha.

O filme A Sociedade do Anel começa nos apresentando três reinos da Terra Média, que estabelecem uma aliança por meio da confecção de anéis de poder. Esses reinos são os dos Elfos, dos Anões e dos Humanos.

Entretanto o mago Sauron, forja um anel que tem o poder de dominar todos os outros lhe dando o domínio de toda Terra Média.

Logo de início podemos observar que a consciência coletiva simbolizada pelo reino dos humanos se encontrava em equilíbrio. Mas apenas com dois aspectos de psique. O primeiro representado pelos anões, que apesar de serem primitivos, são prestativos e se encarregam da mineração, ou seja, são responsáveis por cavar e retirar tesouros do inconsciente. E o segundo o dos Elfos que são seres mais refinados e sábios.

Os Elfos são criaturas de grande beleza que vivemnas florestas, sob a terra, em fontes ou outros lugares naturais. São seres sensíveis, imortais, que possuem poderes mágicos, grande ligação com a natureza e ótimos arqueiros. Eles simbolizam aspectos diferenciados da psique e uma grande sabedoria.

Mas um reino foi deixado de lado. O reino de Mordor, cujo rei é Sauron o Senhor do escuro.

Sauron, então representa o aspecto sombrio rejeitado da psique. Ele é o aspecto sombrio doSelf. Um Mago Negro, que assim como Malévola em A Bela Adormecida, foi esquecido e renegado. E os aspectos sombrios quando reprimidos se voltam com uma força avassaladora contra a consciência, como um vulcão em erupção.

Como junguianos, parece tentadoras sociar os quatro reinos às quatro funções da consciência. Entretanto, esse é um problema mais profundo, arquetípico. As funções da psique são manifestação do aspecto da totalidade, representada pelo número quatro.

Para Jung, os números são manifestações simbólicas. Principalmente o três e o quatro. O número três simboliza a ação criativa, mas é um número incompleto, a completude se alcança no quatro, que para ele simboliza a totalidade (exemplo: as quatro estações do ano, os quatro evangelistas etc.).

O quatro também representa o elemento transgressor, o adversário. Para Jung (1979) a tríade é um esquema ordenador artificial, e não natural. O quatro vem estabelecer uma ordem, fazendo com que o fluxo dinâmico criativo se torne ordenado e estável.

E é sobre a questão da busca da totalidade que trata O Senhor dos Anéis. Na obra inicialmente três reinos em equilíbrio e um desprezado, que deve ser assimilado e compreendido. E essa redenção virá por meio de outro reino esquecido pela consciência, o qual será abordado logo a seguir.

Após a guerra o anel de Sauron vai para com a criatura Gollum com ele fica até ser roubado pelo Hobbit Bilbo Bolseiro.

O anel tem o poder de fazer com quem o possua não morra e não envelheça. Isso significa que a psique não segue seu fluxo, fica estagnada, assim como o pueraeternus que não cresce nem amadurece. Ou seja, a atitude consciente está paralisada e infantilizada, vemos essa atitude infantil na forma como Gollum se refere ao anel, como “meu precioso”. Ele parece uma criança com um novo brinquedo que não dividirá com mais ninguém.

Ele também tem o poder quase absoluto corromper o caráter e deformar a personalidade daquele que o detém, ainda que movido por boas intenções. Quem quer que tente derrotar Sauron utilizando o anel, acabará tornando-se o próximo Senhor do Escuro. Ou seja, corre-se o risco da identificação com os aspectos sombrios do Self, incorrendo em uma inflação do ego.

A figura de Gollum mostra também como a atitude consciente foi dominada e engolida pelo complexo do Self. Houve uma inflação do ego, uma hubris. O ego arrogante passou a se identificar com a imagem da divindade interior. E a hubris é sempre cobrada pelos “deuses”. É como diz Eurípides “Aquele a quem os deuses querem destruir, primeiro deixam-no louco.”.

Entretanto, o simbolismo do anel remete a totalidade, sendo circular forma uma mandala, símbolo do centro ordenador da psique, o Self. E nele estão contidos o bem e o mal. Quando a atitude da consciência se encontra unilateral surge esse centro ordenador para uma reorientação psíquica, mesmo que aparentemente pareça nocivo. Portanto, o filme mostra uma jornada para o restabelecimento do equilíbrio psíquico e para que a consciência reconheça uma força superior e passe a aprender com ela.

Bilbo Bolseiro cansado e compreendendo que deve deixar a vida seguir seu fluxo que o levará a morte, resolve entregar o anel a seu sobrinho Frodo. O Mago Galdalf, então convence-o a partir para destruir o anel. Frodo parte e leva consigo seus amigos Sam, Merry e Pippin para sua aventura.

Éde extrema importância analisar a figura do Hobbit. Os Hobbits são criaturas ingênuas, simplórias e até primitivas. São ligados a natureza, e bastante desastrados. Esquecidos pelos demais reinos,lembram a figura do Bobo dos contos de fadas.

Eles foram os únicos que não receberam anéis, ou seja, os Hobbits também representam uma parte desvalorizada e esquecida da psique. Mas diferentemente de Sauron não são vingativos.

Aqui o Hobbit, enquanto Bobo ou Tolo, pode simbolizar a quarta função, a inferior, que é inadaptada e indiferenciada. Mas conforme Von Fraz (2005) o Tolo não é somente isso, ele é também o herói, e toda a história está centrada nele.

Frodo é o escolhido. Ele será o responsável por salvar a Terra Média do mal e integrar esse aspecto sombrio à consciência. Isso demonstra que somente nosso lado rejeitado e desvalorizado pode nos trazer a ampliação da consciência. Não é o ego e sua prepotência que faz isso.

Conforme Von Franz (2005)

“O herói é, conseqüentemente, o restaurador da situação sadia, consciente. Ele é um ego que restabelece o funcionamento normal e sadio de uma situação, onde todos os egos da tribo ou nação estão desviando-se do padrão básico e instintivo da totalidade. Pode-se dizer, então, que o herói é uma figura arquetípica que representa um modelo de ego funcionando de acordo com o SELF.”

Frodo será o responsável por devolver o Anel ao seu legitimo dono e integrar esse aspecto a psique consciente, reconhecendo-o e lhe dando seu devido valor.

Curiosamente Frodo é o único o qual o poder do anel parece não corromper. Isso porque ele possui um diferencial. A figura do Mago Gandalf.

De acordo com Jung (2008) o Mago representa o aspecto do velho sábio, o mestre superior e protetor, arquétipo do espírito, representando o significado preexistente, oculto na vida caótica. Ele é o professor, o mestre, o psicopompo (guia das almas) na jornada do herói.

Ele sempre aparece quando o herói se encontra em uma situação desesperadora e sem saída, da qual só pode salvá-lo uma reflexão profunda ou uma idéia feliz, isto é, uma função espiritual ou um automatismo endopsiquíco.

Frodo e os amigos partem então, pela Floresta Velha. Adentrando no mundo do inconsciente.

Logo em seguida, eles conhecem um guardião Passolargo, ou Aragorn, que é descendente de Isildur e herdeiro do Trono de Gondor. Ele é o jovem rei, que deve assumir o trono que lhe é direito.

O rei é considerado um símbolo do Self manifesto na consciência coletiva. E esse símbolo, conforme Von Franz (2005) tem necessidade de renovação constante, de compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o perigo de se tornar uma fórmula morta — um sistema e uma doutrina esvaziados de seu significado e tornar-se uma fórmula puramente exterior.

Aragorn como herdeiro, representa essa renovação. Uma consciência ampliada que sabe que deve deixar seu lado mais fraco e desvalorizado agir.

Frodo, então chega a Valfenda, reino dos Elfos. Lá ele descobre que o anel não pode ser usado contra Sauron.

Dada a impossibilidade de utilizar o Anel como arma de guerra, é imposta a tarefa de levá-lo até a Montanha da Perdição, um vulcão localizado no centro de Mordor, a Terra Negra do Inimigo, onde o anel fora forjado e também o único lugar onde poderia ser destruído.

Para essa missão, de sucesso improvável, é formada uma Sociedade do Anel, composta por nove companheiros: quatro hobbits (Frodo, Sam, Merry e Pippin), dois humanos (Aragorn e Boromir), um elfo (Legolas), um anão (Gimli) e um mago (Gandalf).

Observem que o número três, incompleto ainda se mantém por meio do seu múltiplo, o número 9. Simbolizando que há uma associação de aspectos distintos da psique que se unem em uma ação criativa para o estabelecimento do equilíbrio.

Entretanto, pode-se notar que dentro dessa sociedade já se estabelece uma totalidade incipiente representada pela quaternidade dos Hobbits (Frodo, Sam, Merry e Pippin).

Mas, ainda falta outro elemento importantíssimo. A Sociedade é composta apenas por figuras masculinas. Não temos um elemento feminino, que apareceu apenas uma vez, representado pela Elfa Arwen. Sem o feminino não há o equilíbrio e ele também deve ser integrado à consciência. Mas esse é um assunto para o próximo texto.

Referencias:

JUNG, C. G. A Interpretação Psicológica do dogma da Trindade. Vozes. Petrópolis: 1979.

____. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2008a.

____. Aion – Estudo sobre o simbolismo do si mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

VON FRANZ, M. L. Mitos de Criação. 2 ed.Paulus. São Paulo: 2011.

____. A interpretação dos contos de fada. 5 ed. Paulus. São Paulo: 2005.


FICHA TÉCNICA DO FILME

O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL

Título original: The Lordof the Rings: The Fellow ship of the Ring.
Diretor: Peter Jackson.
Tempo de duração: 178 minutos.
Gênero: Ação, Aventura, Drama, Fantasia.
Pais de Origem: EUA.
Ano de produção: 2001.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.
Autor / Co-Autores: