Onde vivem os monstros

“…existe algo selvagem dentro de todos nós.”

O filme é baseado no Best-Seeler americano “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak, e conta a história de Max, uma criança solitária que vive com a mãe e a irmã. Ele ama brincar, tem uma imaginação fantasiosa e muito fértil. Tem dificuldade para lidar com o “Não”, e se torna impulsivo, agressivo e inconsequente quando contrariado.

Max se sente muito só. Sem ter com quem brincar, vê na mãe a figura de referência e deposita nela toda sua carência.

Quando o namorado da mãe vai jantar em sua casa, ele se sente ameaçado. E, com medo de perder sua mãe, ele começa a agir impulsivamente e de maneira infantil, chegando a morder sua mãe. Pode-se destacar aqui um dos mecanismos de defesa do ego: a regressão.

Quando percebe sua atitude rude e fora de contexto, ele sente-se na obrigação de fugir, e sai correndo pela cidade, sem direção certa, fantasiado de lobo.

Max chega ao litoral, e vê um barco abandonado na água, entra nele, e depois de atravessar o mar agitado chega a uma ilha diferente de tudo o que já viu. A ilha é habitada por seres inimagináveis, sete monstros enormes: Carol, Douglas, Janeth, Ira, Alexander, Touro e KW. Seres antropozoomorficos muito fortes.

A viagem é um mergulho profundo no mundo fantasioso de Max, e vital para sua maturação. Nesse lugar, fora da realidade, e interagindo com esses seres o garoto consegue lidar com o mundo real, e aprende regras de convívio social.

Há uma identificação instantânea entre Max e cada um dos monstros. É importante frisar que casa um dos seres tinham características muito humanas, e cada uma muito próxima com a realidade de Max: Carol era impetuoso, intenso, dramático; não por ser um ser mau, mas por estar perdido e se sentir abandonado. Douglas (a ave) era o grande amigo de Carol, e mesmo quando é agredido e perde uma asa, continua fiel à sua amizade. Alexander (o bode) é carente, inseguro, e se sente negligenciado, incompreendido. Judith é muito agressiva, inconsequente, fala o que vem à sua cabeça. Ira é amável e companheiro, sempre está ao lado de Judith. Touro era sempre calado, e nunca fala nada, mas no final do filme, demonstra ser melancólico e amigável. KW – dócil, gentil, maternal, e sempre evita discutir.

Em seu primeiro contato com o grupo, Max se percebe que todos estão muito infelizes, e que eles estão se fragmentando, mas o garoto ainda não entende o motivo. Para não ser devorado, Max se diz ser rei em outro mundo, com poderes especiais. Ao prometer fazer com que todos sejam eternamente felizes ele acaba sendo eleito rei.

Todos os monstros aceitam a autoridade de Max, e os primeiros momentos de governo são cheios de muita diversão. Ele está feliz em meio aquele grupo, é quando ele começa a conversar com KW, um monstro feminino, que carrega traços de sua mãe. Ela é seu referencial de segurança e proteção.

Com o passar do tempo Max fica cada vez mais intimo do grupo e começa a perceber os problemas que surgem ali, e que a maioria é causada por Carol. Ele se projeta em Carol e consegue ver nele características particulares suas. Melhor que ninguém Max consegue entender porque o monstro tem aquela atitude agressiva e desesperada quando percebe que o bando está se desfazendo, mas inserido no contexto, ele entende como aquilo afeta todo o grupo, e passa a refletir sobre sua própria postura em relação à sua família.

A ver todos tristes, Max sugere que brinquem de “Policia e Bandido” jogando bolo de barro uns nos outros. Logo a brincadeira passa de divertida para agressiva. E ao ver que Alexandre se machucou na brincadeira, ele entende que para cada escolha sua existe uma consequência.

Com o fim trágico da brincadeira KW decide se afastar do grupo, e Carol culpa Max por isso. Ao perceber que ele não é rei, e que não tem poderes sobrenaturais nenhum, Carol começa a perseguir o garoto pela floresta cheio de fúria. Max consegue se esconder no estomago de KW, e é ai que o garoto entende como ele próprio age com sua família.

Na manha seguinte, ele decide que é hora de voltar para casa, se desculpa com os monstros e conta a verdade, inclusive para Carol. Nesse ponto, quando ele enfrenta todos os “seus” monstros, ele consegue superar todo o medo que estava da mudança, o medo profundo e inconsciente que Max tinha de amadurecer.

Na frase final de KW ao se despedir de Max: “eu poderia comer você de tanto amor”, é que entendemos o ato de profundo desespero e medo de perder a mãe que motivou Max a mordê-la, neste momento ele demonstra um arrependimento genuíno.

Max volta para casa, e ainda é noite. Ele percebe que nada mudou ao ser recebido calorosamente e cheio de amor por sua mãe. E nesse ponto, no final do filme a reflexão que fica é: Que tal encarar seus monstros?


FICHA TÉCNICA 

ONDE VIVEM OS MONSTROS

Título Original: Where The Wild Things Are.
Origem: Estados Unidos, 2009.
Direção: Spike Jonze.
Roteiro: Spike Jonze e Dave Eggers, baseado em livro de Maurice Sendak.
Produção: John B. Carls, Gary Goetzman, Tom Hanks, Vincent Landay e Maurice Sendak.
Fotografia: Lance Acord.
Edição: James Haygood e Eric Zumbrunnen.
Música: Carter Burnwell e Karen Orzolek.

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com