Outras cartas do mundo líquido moderno

As seguintes cartas do mundo líquido moderno tratadas nesse texto começam abordando a questão monetária inerente à configuração do mundo contemporâneo. Não que a temática do dinheiro tenha virado moda. Na verdade, ela nunca saiu de moda, mas Bauman analisa em sua obra o crescimento paralelo entre a alienação e a futilidade: componentes marcantes das subjetividades atuais. Nessas cartas ele trata da inospitalidade do mundo frente à educação, trata da massificação dos corpos à um ideal estético (a começar pelas meninas-mulheres e pela adultização infantil), trata da moda e do consumismo desenfreado (como atravessadores das gerações e moldadores da sociedade atual), trata da desigualdade existencial, que limita a liberdade de ação de certas categorias sociais (humilhadas, desrespeitadas e inferiorizadas) e trata da cultura e da sua reconfiguração em meio à lógica mercadológica.

Cena do filme Little Miss Sunshine (2006)

Bauman sabiamente analisa que o padrão de gastos dos jovens começa a se manifestar mais precocemente do que antes (quando se começou a registrar estatisticamente tais padrões). Isso é criticamente discutido no documentário “Criança: a alma do negócio”

Maria Farinha Produções (2008)

O sociólogo polonês analisa que, hoje, os objetos de desejos passaram a fazer parte da existência da maioria das pessoas como componentes indispensáveis para a sobrevivência. O mercado consumidor tem se utilizado do universo infantil para expandir seus negócios. Nesse sentido, a mídia fala com a criança e se foca nela. A publicidade conversa mais com os filhos do que os próprios pais. Trata-se de um movimento que é, ao mesmo tempo, individual e social, pois atinge massas e constrói processos de subjetivação.

O autor alerta que dessa forma o que se vê em disparate são falsos alvoreceres de liberdade fornecidos por um mercado que estereotipa e segrega e, ao segregar, impede encontros que fazem as pessoas pensarem. Em outras palavras, o consumismo rouba a capacidade crítica e a discernibilidade, enquanto impõe alienação e superficialidade como formas de lidar com as relações.

Utilizando das ideias de Bauman e da temática que aderna o documentário citado acima, é possível dizer, com clareza, que a mídia tem ensinado as pessoas a competirem. A publicidade, com seus meios midiáticos, promete mais do que a alegria da posse, promete a alegria da inscrição na sociedade, o que pode vir a significar a existência de uma pessoa nessa mesma sociedade. O que a maioria das pessoas não aprende é teorizar a respeito de sua existência social, sendo esse mais um dos motivos pelos quais a mídia escolhe o mundo infantil como ponto de partida, porque o conteúdo comunicacional da criança não é racional, mas sim emotivo, e é através disso que esses conteúdos vão afetando e compondo o sujeito em questão.

 


“We don’t need no thought control” –Another brick in the wall – Pink Floyd (1979)

A condição de pertencimento numa sociedade vem sendo determinada pela possibilidade que a pessoa tem de ostentar o consumismo. De acordo com o documentário “Criança: a alma do negócio”, os pais tem se transformado (ou foram transformados) em negadores dos desejos da criança. A mídia hoje é tida como o primeiro fator na construção e criação de valores numa sociedade, enquanto a família, a igreja e a escola ficam de escanteio. Nesse processo de construção, a imaginação infantil diminui na medida em que as coisas lhe chegam prontas, impedindo-as de criarem sobre suas próprias vidas. Antes, as meninas eram as mães das suas bonecas e adornavam tal brincadeira com histórias ricas e fantasiosas, hoje as bonecas são projeções das meninas que, embora também tenham que possuir roteiros de vida, se adornam de penduricalhos e acessórios, enquanto escolhem, no finito leque de roteiros que tem ideais éticos e estéticos padronizados, o roteiro mais concernente ao instante da escolha.

Série fotográfica que retrata meninas e suas bonecas quase gêmeas – Fonte: Hypeness

Bauman (2011) diz que é como se os desejos fossem implantados nas pessoas, alimentando circuitos de consumo e buscas incessantes por objetos que não trazem o que neles é buscado, o afeto. De qualquer forma, são esses mesmos objetos que desempenham papéis diferenciadores entre as pessoas, marcando (e, por vezes, determinando)os relacionamentos. Nesse sentido, o desejo de comprar passa a ser a coisa em si e o que vai ser comprado torna-se apenas um veículo para a consumação ilusória do desejo.

Suely Rolnik

[…] o desejo não carece de nada, não porque possa atingir a plenitude de uma satisfação, mas porque a falta só pode ser pensada do ponto de vista dele mesmo que ao se ver desestabilizado pelos movimentos do desejo, o interpretará como sinal de uma carência de completude. Aquilo que para o sujeito é falta revela-se como excesso de singularidades que transbordam e desmancham sua figura, levando-a a tornar-se outra, se o processo seguir seu curso. (ROLNIK, 2000, p.458)

É em cima dessa carência de completude que a publicidade e a propaganda trabalham, criando dispositivos cada vez mais atrativos e irresistíveis; criando consumistas ao invés de consumidores. Para Bauman, o consumo é uma necessidade, enquanto o consumismo é um produto social onde há uma enorme tendência em situar a preocupação com o consumo no centro de todos os demais focos de interesse na vida das pessoas. O consumismo tem regras a serem seguidas. Trata-se de um fenômeno multifuncional ou um dispositivo universal que anda de mãos dadas com outro fenômeno (num processo de alimentação mutua), que é a moda. Segundo Bauman, não é possível dizer o que é moda, pois ela está fazendo a si própria a todo o momento. Tentar defini-la é tão difícil quanto acertar o maior prêmio naqueles jogos de tiros. O que se pode dizer dela é que trata-se de um processo inesgotável e irrefreável, que tem válvulas de escape para si mesma, quando já estão chegando novas enxurradas de si mesma. Para o autor, a moda é um fenômeno social instigante que, independente das vias que utiliza para fluir, afeta e compõe os aspectos culturais da a sociedade. José Samargo em A Bagagem do Viajante dimensiona o que vem a ser a moda, dizendo:

“Certos usos e costumes (certas vendas, certas compras) não surgem por acaso, e para o assunto que hoje me ocupa nem sequer o apelativo de moda designa seja o que for, uma vez que a moda não é mais do que a difusão promovente de um uso primeiramente limitado” (SARAMAGO, 2010, Saudades da Caverna – A Bagagem do Viajante, p. 45).

Consumo vs. Consumismo. Fonte: Google Imagens

E sendo indispensável – em meio à análises genéricas, porém consistentes, sobre o funcionamento da sociedade atual, ou do mundo líquido moderno – se falar de aspectos culturais, é nesse segmento que seguem as cartas de Bauman: falando sobre cultura.

Nesse sentido, ecoa a pergunta: o que é cultura? Segundo o autor, consumismo, moda e cultura já são indissociáveis, não tendo como se referir sobre um sem se adentrar no outro. Hoje parece não mais haver estratificações culturais, pois “não há nada ‘cultural’ que eu rejeite previamente sem fruí-lo, embora também não haja nada ‘cultural’ com que eu me identifique de modo inabalável e definitivo a ponto de excluir outros prazeres”. Assim, a cultura vem se formando como um produto passível de consumismo indiscriminado. Bauman não aponta “a cultura de hoje” como uma cultura melhor ou pior do que a cultura de ‘antigamente’, ele apenas aponta para efemeridade do que é moda, cultura, produto e consumismo, como se toda a sociedade visse no consumismo o antídoto maníaco contra a polaridade deprimente e deprimida de suas vidas. Dessa forma, o autor define cultura como algo constituído de ofertas e não de normas, pois ela se forma mediante a possibilidade de escolhas. A cultura vive de sedução e não de regulação. Ela tem se tornado um armazém de produtos para o consumismo (e, é claro, sempre tem a moda por perto, engendrando todo o processo). E nisso da cultura virar armazém, dispara a invenção (ou construção) de demandas para os produtos que o mercado lança. Isso abrange todos os campos, desde o material até o espiritual. O que se vê hoje não são medicações adequadas para diminuírem sinais e sintomas de um quadro, mas sim invenções de síndromes para que a venda de medicações já lançadas aumente.

E por fim, para encerrarmos as últimas cartas do compêndio, falaremos da inospitalidade do mundo frente à educação. Bauman afirma que “a história da educação sempre esteve repleta de períodos cruciais nos quais se tornou evidente que pressupostos e estratégias experimentadas e em aparência confiáveis estavam perdendo contato com a realidade e precisavam ser revistos ou reformados”, mas que, no entanto, a crise atual da educação parece consideravelmente diferente das crises anteriores (BAUMAN, 2011, p. 112).

Alienação. Fonte: Google Imagens

Que o mundo anda rodando rápido demais, todo mundo já sabe. Que as relações estão sendo efêmeras e pautadas por outros significados, todo mundo também já sabe. Quanto à educação, também já sabemos que algumas ideias pedagógicas, com suas características constitutivas e pressupostos nunca antes criticados também já não colam mais, mas o que vem a ser discutido agora é o valor do conhecimento, antes aparentemente muito prezado e garantidor de algum futuro. Hoje, de acordo com Bauman, o conhecimento só é atraente quando apto ao uso instantâneo (o que – não esqueçamos – influenciará em nossa própria forma de associar e memorizar conteúdos).

Nisso, Bauman adentra numa temática que já vem sendo discutida por outros autores, que é sobre a transformação da educação em um produto. Segundo o autor, o conhecimento sempre foi valorizado porque tratava-se de uma fiel representação do mundo, mas hoje, em meio à transformações rápidas e abruptas, a pergunta é: “(…) e se o mundo se transformar de maneira tal que desafie continuamente a verdade do conhecimento existente até então e pegue de surpresa mesmo as pessoas ‘mais bem informadas’?” (BAUMAN, 2011, p.114). Como estudar e aprender em um mundo que nos ensina a esquecer? Para o autor,

“Todos os recursos ortodoxos de organização utilizáveis – classificação por relevância temática, atribuição de importância, necessidades que determinam a utilidade e autoridades que determinam o valor – sucumbiram, foram tragados e diluídos no acúmulo de informações, como se atraídos por misterioso buraco negro cósmico. A massa torna todos os conteúdos uniformes e igualmente entediantes” (BAUMAN, 2011, p.124).

Se o conhecimento virou um produto passível de compra (que nos dá um título utilizável e praticável às demandas criadas) e se a educação já não consegue atender ao que propunha ou oferecer o exercício do discernimento, Bauman (2011) sugere (ou eu interpreto dessa forma) o caminho da arte quando diz que:

“A educação assumiu formas no passado e se demonstrou capaz de adaptar-se à mudança das circunstâncias, de definir novos objetivos e elaborar novas estratégias. Mas permitam-me repetir: a mudança atual não é igual às que se verificaram no passado. Em nenhum momento crucial da história da humanidade os educadores enfrentaram desafio comparável ao divisor de águas que hoje nos é apresentado. A verdade é que nós nunca estivemos antes nessa situação. Ainda é preciso aprender a arte de viver num mundo saturado de informações. E também a arte mais difícil e fascinante de preparar seres humanos para essa vida” (BAUMAN, 2011, p.125).

Desse texto fica a sensação de acúmulo e superficialidade não só do conteúdo que foi tentado trazer, mas também da forma como foi trazido. As decorrências de tudo o que Bauman fala é notória até mesmo em um texto que será publicado um dia e depois esquecido por vários outros. Parece que ao invés de panos limpos, a opção de colocar o lixo debaixo do tapete é mais confortável. No entanto, no embate com a angústia de ver o tempo passar rápido demais e nos engolir na efemeridade com que passa, opto pela sugestiva alusão de Dori (do filme Procurando Nemo): “continue a nadar”.

 

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2011.

ROLNIK, Suely. “Esquizoanálise e antropofagia”. In: ALLIEZ, Eric (org.). Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000.